Brasil

Cenário redimensionado

Os mais corajosos dirão que são 12 clubes grandes no Brasil, mas há quem queira incluir Bahia, Coritiba, Atlético Paranaense, Fortaleza e Santa Cruz, entre outros, neste rol. A culpa desse cenário em que muitos torcedores se vêem no direito de dizer que têm time grande é a forma com que se desenhou a história do futebol brasileiro, pautada pelas rivalidades estaduais e com fórmulas de disputa no Campeonato Brasileiro em que sempre se deu margem para zebras.

O São Paulo, tricampeão brasileiro, é a marca desses novos tempos que, se existissem antigamente, talvez tornassem o Atlético Mineiro o maior da história do Campeonato Brasileiro. O que dizer de zebras permitidas por fórmulas mirabolantes, como em 85, quando Coritiba, Bangu e Brasil de Pelotas chegaram até as semifinais? Ou do Bahia que avançou em um mata-mata ao título de 1988? Ou o que dizer, ainda, da fórmula de 2001: 27 rodadas em turno único para definir os oito finalistas em duelos só de ida?

É em razão dessas situações malucas e dos campeonatos estaduais que temos tantos clubes ditos grandes, mas a consolidação da fórmula de pontos corridos tem feito as equipes entenderem melhor o seu tamanho ao traçar as aspirações para o Campeonato Brasileiro. Em maio de 2007, a Revista Trivela ouviu os 20 clubes e nada menos que 11 deles diziam lutar pelo título, o que é naturalmente impossível. Terminadas duas edições após isso, já é possível enxergar uma consciência diferente em algumas equipes.

Na medida em que os recursos pela disputa da Copa Libertadores vão fazendo diferença, tem se criado um lastro de orçamento muito diferente entre quem joga e quem não joga a principal competição do continente. A prova disso é a redução orçamentária que o Grêmio precisou fazer de 2007 para 2008, ou mesmo que Botafogo e Flamengo preparam para 2009.

Outro ajuste que pode colaborar para esse redimensionamento de forças no futebol brasileiro é a maior valorização da Copa Sul-Americana. A partir de 2009, nem o campeão nacional disputará mais o torneio, reservando aos clubes de desempenho mediano a possibilidade de brigar no cenário continental, mas em um ou dois degraus abaixo de quem costuma disputar a Libertadores, como têm feito São Paulo, Palmeiras, Santos, Grêmio, Cruzeiro, Flamengo e Inter.

A cultura de se estipular objetivos no futebol é natural dentro de qualquer planejamento. Ou será que o Tottenham disputa a Premier League pensando em título? Ou será que a Roma não sabe que sua meta é sempre garantir uma vaga na Liga dos Campeões a partir do Calcio? Por que o Brasil precisa ser diferente em tudo? Quem entende isso tem mais chances de se dar melhor, e é o caso, por exemplo, do Vitória, que se deu por satisfeito com a 10ª posição no campeonato de 2008 e já renovou com Vágner Mancini, ou do Náutico, que manteve Roberto Fernandes por entender que sua missão era fugir do rebaixamento.

Poucos dias após o término do Brasileiro de 2008, vários clubes já se movimentaram para garantir o treinador de 2009. Como o Santo André, que buscou Sérgio Guedes, ou o Cruzeiro, que deu mais um ano a Adilson Batista, ou o São Paulo, claro, que terá Muricy Ramalho pela quarta temporada consecutiva no ano que vem.

O tricampeonato são-paulino é fruto do entendimento dessa fórmula, de montar elencos grandes no início do ano, saber vender bem os atletas, seguir com o treinador por toda a temporada e oferecer uma estrutura de trabalho moderna e segura. É o caminho que seguem Cruzeiro e Internacional, e que tentam pegar o Grêmio, o Palmeiras, o Corinthians, o Santos, o Flamengo e o Fluminense, por exemplo. Não haverá espaço para tantos grandes logo mais.

RESUMOS DO CAMPEONATO BRASILEIRO – PARTE 01/03

São Paulo (1º) – 75 pontos

A grande marca do terceiro título do São Paulo é a reação no returno, com 18 jogos de invencibilidade, tirando a vantagem de 11 pontos que tinha para o líder Grêmio. Como em outras vezes, porém, o time foi duro de ser batido, e só teve cinco derrotas, graças ao jogo sempre competitivo imposto por Muricy Ramalho. O treinador, aliás, é um dos grandes responsáveis pelo título, fazendo a equipe jogar no seu limite técnico, tático e físico. A hegemonia do primeiro tricampeão do país está construída, basta aguardar quem poderá quebrá-la.

Turno: 4º, com 33 pontos
Returno: 1º, com 42 pontos
Melhor jogador: Hernanes
Quem também foi bem: todos os outros titulares
Quem foi mal: Jancarlos, Juninho e André Lima
Mais utilizados: Jorge Wagner (36j) e Rogério Ceni (35j)
Revelação: Jean
Artilheiro: Borges (16 gols)
Líder em assistências: Jorge Wagner (9 passes)

Técnico: só Muricy Ramalho
Negociados com o exterior: Reasco (LDU), Alex Silva (Hamburgo) e Aloísio (Al-Rayyan)
Melhor jogo: Portuguesa 2 x 3 São Paulo
Pior jogo: São Paulo 1 x 1 Ipatinga

Aproveitamento em casa: 80,7 %
Aproveitamento fora: 49,1%
Mais vitórias consecutivas: 6 (Vitória, Botafogo, Inter, Portuguesa, Figueirense e Vasco)
Mais derrotas consecutivas: Nenhuma consecutiva
Mais jogos sem vencer: 3
Mais jogos sem perder: 18
Rodadas na liderança: 6
Média de público: 5º (21.331)

Time base (3-1-4-2): Rogério Ceni; Rodrigo, André Dias e Miranda; Jean; Zé Luís (Joílson), Hernanes, Hugo e Jorge Wagner; Dagoberto e Borges.

Grêmio (2º) – 72 pontos

Terminar o campeonato com o reconhecimento da torcida pelo vice-campeonato foi um final digno para o Grêmio, a quem era possível atribuir o risco do rebaixamento no início do Campeonato Brasileiro. Única equipe a bater o campeão São Paulo em dois jogos, a de Celso Roth foi além dos seus limites, e liderou a Série A por 19 rodadas com um elenco recheado de jogadores pouco badalados e vários jovens formados no Olímpico, como Rafael Carioca, William Magrão e Mattioni. Victor, o melhor goleiro do campeonato, não sofreu gol em 17 dos 38 jogos – índice fantástico.

Turno: 1º, com 41 pontos
Returno: 4º, com 31 pontos
Melhor jogador: Victor
Quem também foi bem: Réver, W.Magrão, Rafael Carioca e Tcheco
Quem foi mal: Amaral, Orteman, Rudnei, Richard Morales
Mais utilizados: Victor (38j) e Rafael Carioca (37j)
Revelação: Rafael Carioca
Artilheiros: Marcel e Reinaldo (9 gols)
Líder em assistências: Paulo Sérgio (7 passes)

Técnico: só Celso Roth
Negociados com o exterior: Roger (FC Catar) e Rodrigo Mendes (Al-Sharjah)
Melhor jogo: Atlético-MG 0 x 4 Grêmio
Pior jogo: Internacional 4 x 1 Grêmio

Aproveitamento em casa: 80,7 %
Aproveitamento fora: 43,8 %
Mais vitórias consecutivas: 4 (Coritiba, Vitória, Ipatinga e Atlético-MG)
Mais derrotas consecutivas: Nenhuma consecutiva
Mais jogos sem vencer: 4
Mais jogos sem perder: 11
Rodadas na liderança: 19
Média de público: 2º (31.075 – falta computar o último jogo)

Time base (3-4-1-2): Victor; Léo, Pereira e Réver; Paulo Sérgio (Felipe Mattioni), William Magrão, Rafael Carioca e Hélder; Tcheco; Marcel e Perea.

Cruzeiro (3º) – 67 pontos

Com 37 rodadas dentro do grupo que vai para a Libertadores, o Cruzeiro foi a equipe mais regular no Campeonato Brasileiro. Outra característica cruzeirense foi o jogo envolvente e agradável, com os deslocamentos de Ramires e a habilidade destoante de Wagner, a ponto de receber elogios públicos de Luxemburgo. Faltou, porém, experiência, força nos confrontos diretos e nos jogos longe do Mineirão para beliscar o título. Vale louvar as atitudes de Wagner, Guilherme e Ramires, que abdicaram do exterior para completar a temporada na Toca da Raposa.

Turno: 2º, com 36 pontos
Returno: 3º, com 31 pontos
Melhor jogador: Ramires
Quem também foi bem: Fábio, Thiago Heleno, M.Paraná, Fabrício, Wagner e Guilherme
Quem foi mal: Espinoza, Bruno, Camilo, Weldon, Reinaldo Alagoano e Wanderley
Mais utilizados: Fábio (38j) e Marquinhos Paraná (34j)
Revelação: Jajá
Artilheiros: Guilherme (18 gols)
Líderes em assistências: Fabrício, Jajá e Wagner (4 passes)

Técnico: só Adílson Batista
Negociados com o exterior: Marcelo Moreno (Shakhtar), Marcinho (Kashima Antlers), Charles (Lokomotiv Moscou), Jonathas (AZ Alkmaar), Kerlon (Chievo), Luís Alberto (Nacional), Nenê (Nacional), Eliézio (Nacional) e Maicon (Nacional)
Melhor jogo: Cruzeiro 3 x 0 Grêmio
Pior jogo: Goiás 3 x 0 Cruzeiro

Aproveitamento em casa: 82,4 %
Aproveitamento fora: 35 %
Mais vitórias consecutivas: 4 (Fluminense, Náutico, Flamengo e Inter)
Mais derrotas consecutivas: 2 em duas oportunidades
Mais jogos sem vencer: 3 em duas oportunidades
Mais jogos sem perder: 5
Rodadas na liderança: 2
Média de público: 3º (24.245)

Time base (4-3-1-2): Fábio; Marquinhos Paraná (Jonathan); Thiago Heleno, Espinoza (Léo Fortunato) e Fernandinho (Jadílson); Fabrício; Charles (Henrique) e Ramires; Wagner; Guilherme e Thiago Ribeiro.

Palmeiras (4º) – 65 pontos

Vanderlei Luxemburgo diz que, com o título paulista e a volta à Libertadores, a missão palmeirense foi cumprida em 2008. Não é verdade. Prova disso é o desânimo das últimas rodadas, com vitória magra sobre o lanterna Ipatinga, empate sem gols com o Vitória e derrota no Parque Antártica diante de um esquálido Botafogo. Não fosse o tropeço flamenguista em Curitiba e a vaga teria ficado pelo caminho, como em 2007, com Caio Júnior, e o Palmeiras terminou o ano sem convencer, com problemas defensivos e um meio-campo sem identidade. O próximo ano será decisivo na carreira de Luxemburgo, cada vez mais ofuscado por Muricy.

Turno: 3º, com 34 pontos
Returno: 5º, com 31pontos
Melhor jogador: Kléber
Quem também foi bem: Marcos, Leandro, Sandro Silva e Alex Mineiro
Quem foi mal: Gladstone, Jéci, Roque Jr, Maicosuel e Lenny
Mais utilizados: Marcos (37j) e Alex Mineiro (35j)
Revelação: Maurício
Artilheiros: Alex Mineiro (19 gols)
Líder em assistências: Leandro (9 passes)

Técnico: só Vanderlei Luxemburgo
Negociados com o exterior: Henrique (Barcelona), Diego Cavalieri (Liverpool) e Valdívia (Al-Ain).
Melhor jogo: Palmeiras 4 x 2 Santos
Pior jogo: Palmeiras 0 x 3 Sport

Aproveitamento em casa: 77,1 %
Aproveitamento fora: 36,8 %
Mais vitórias consecutivas: 3 em duas oportunidades
Mais derrotas consecutivas: 2
Mais jogos sem vencer: 3 em duas oportunidades
Mais jogos sem perder: 6
Rodadas na liderança: 2
Média de público: 11º (16.877)

Time base (4-3-1-2): Marcos; Élder Granja, Gustavo, Maurício e Leandro; Pierre; Sandro Silva (Jumar) e Evandro; Diego Souza; Alex Mineiro e Kléber.

Flamengo (5º) – 64 pontos

O Campeonato Brasileiro, em seu início, pintava um sucesso rubro-negro, algo reforçado por 10 rodadas na liderança e em que a traumática eliminação na Libertadores passou despercebida. Caio Júnior vivia o ápice de sua carreira, mas as saídas de Marcinho, Souza e Renato Augusto, no mesmo momento, além de alguns outros problemas, minaram a equipe, que passou sete jogos sem vencer e caiu seis posições na tabela. Remontado, o Fla até reagiu e fez um returno razoável, mas longe de constituir uma mentalidade rochosa para vencer os jogos em casa como 2007 e se colocar entre os quatro primeiros. A sensação é de derrota, mas a posição na classificação é muito boa.

Turno: 7º, com 31 pontos
Returno: 2º, com 33 pontos
Melhor jogador: Juan
Quem também foi bem: Bruno, Fábio Luciano, Ronaldo Angelim, Léo Moura e Ibson
Quem foi mal: Dininho, Jonatas e Josiel
Mais utilizados: Bruno (37j) e Ronaldo Angelim e Léo Moura (35j)
Revelação: Airton
Artilheiro: Ibson (11 gols)
Líder em assistências: Juan (7 passes)

Técnico: só Caio Júnior
Negociados com o exterior: Souza (Panathinaikos), Renato Augusto (Bayer Leverkusen), Marcinho (Al Jazira), Rodrigo Arroz (Belenenses) e Vinícius Pacheco (Belenenses)
Melhor jogo: Flamengo 5 x 2 Palmeiras
Pior jogo: Flamengo 0 x 3 Atlético-MG

Aproveitamento em casa: 64,9 %
Aproveitamento fora: 47,3
Mais vitórias consecutivas: 3 em três oportunidades
Mais derrotas consecutivas: 3
Mais jogos sem vencer: 7
Mais jogos sem perder: 6 em duas oportunidades
Rodadas na liderança: 10
Média de público: 1º (40.694)

Time base (3-1-4-2): Bruno; Jaílton, Fábio Luciano e Ronaldo Angelim; Airton (Toró); Léo Moura, Kléberson, Ibson e Juan; Marcelinho Paraíba e Obina.

Internacional (6º) – 54 pontos

As mudanças de elenco no meio da temporada mais uma vez custaram pontos para a campanha do Internacional. Tite demorou a engrenar o trabalho desgastado de Abel Braga em razão da eliminação na Copa do Brasil e, além disso, D’Alessandro chegou tarde e Nilmar e Alex tiveram problemas físicos que significaram muito. Faltou, no fim das contas, foco em jogos em que o clube imaginou poder vencer com facilidade e, já na reta final, a Copa Sul-Americana se tornou prioridade e o Brasileiro artigo de luxo. O Inter promete não repetir isso em 2009.

Turno: 10º, com 26 pontos
Returno: 8º, com 28 pontos
Melhor jogador: Alex
Quem também foi bem: Índio, Marcão, Guiñazu, D’Alessandro, Taison e Nilmar
Quem foi mal: Bustos, Rosinei, Daniel Carvalho, Adriano e Luiz Carlos
Mais utilizados: Taison (30j) e Marcão e Índio (28j)
Revelação: Taison
Artilheiro: Nilmar (14 gols)
Líder em assistências: Alex (8 passes)

Técnicos: Abel Braga (1v, 1e, 2d); Guto Ferreira (1d) e Tite (14v, 8e, 11d)
Negociados com o exterior: Sidnei (Benfica), Fernandão (Al Gharaffa) e Renan (Valencia).
Melhor jogo: Internacional 4 x 1 Grêmio
Pior jogo: Vasco 4 x 0 Internacional

Aproveitamento em casa: 75,4 %
Aproveitamento fora: 19,2%
Mais vitórias consecutivas: 3 (Portuguesa, Botafogo e Vitória)
Mais derrotas consecutivas: 2 em três oportunidades
Mais jogos sem vencer: 4
Mais jogos sem perder: 7
Rodadas na liderança: nenhuma
Média de público: 7º (18.641)

Time base (4-3-1-2): Lauro (Clemer); Ricardo Lopes, Bolívar, Índio e Marcão; Edinho; Magrão e Guiñazu; D’Alessandro (Taison); Alex e Nilmar.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo