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Castelos de areia

No último domingo, acabou a participação pernambucana na Série C do Brasileiro. Ao perder do Águia, em Marabá, o Santa Cruz viveu o fim da arrancada que o levara à conquista do bicampeonato estadual e do vice da Série D. Ficou na sexta colocação do Grupo A e não se classificou à próxima fase. O resultado salvou os paraenses do rebaixamento e, por tabela, mandou outro clube de Pernambuco à divisão mais rasteira do futebol nacional. A “vítima” foi o Salgueiro, terceiro colocado no estadual de 2012, que no ano passado já havia sido rebaixado da B para a C. No dia anterior, o Sport não chegou a encerrar os seus trabalhos na primeira divisão, mas fez aumentarem as dúvidas sobre a sua capacidade de reação, ao perder por 4 a 2 para o São Paulo, dentro da outrora temida Ilha do Retiro.

Um a um, os castelos de areia dos três melhores colocados da última edição do Pernambucano foram se desmanchando. Um processo que já começara há muito tempo, há de se dizer. E não foi por falta de aviso, com o perdão da frase feita. O consenso na imprensa esportiva local foi de que o estadual teve baixíssimo nível técnico, o que foi ressaltado pelas eliminações prematuras dos clubes pernambucanos na Copa do Brasil. O Santa sequer passou da primeira fase, eliminado pelo inexpressivo Penarol-AM. Náutico e Sport caíram apenas em um segundo confronto, mas foram goleados por adversários que disputariam a mesma Série C que o rival tricolor. O alvirrubro pelo Fortaleza, na capital cearense, o que tornou o jogo de volta uma mera formalidade. O rubro-negro em seus domínios, pelo Paysandu, em noite de consagração do folclórico Yago Pikachu.

Estava claro que para o Brasileirão, todos teriam de melhorar bastante. Enganado por disputar uma divisão mais modesta, o Santa pareceu se acomodar ao garantir a permanência do artilheiro Dênis Marques (AQUELE) e ao tomar o principal goleador do Salgueiro, Fabrício Ceará. É verdade que o imbróglio envolvendo Treze e Rio Branco, que adiou por algumas semanas o início da Série C, prejudicou o time, que perdeu o embalo de quem acabava de levantar uma taça. Mas já nas primeiras rodadas, ficou claro que a equipe não estava tão acima de seus adversários, como alguns esperavam. Vários reforços chegaram durante a competição, mas o plano de contingência não só não ajudou, como também atrapalhou, já que o treinador Zé Teodoro, em permanente estado de indecisão, mudava a escalação a cada jogo, apagando qualquer traço de entrosamento que ainda existisse.

A equipe coral não pode se queixar da sorte. Durante todo o segundo turno, as rodadas quase sempre lhe foram favoráveis, o que permitiu que ela dependesse de uma simples vitória na última rodada para garantir vaga no mata-mata, por mais que tivesse ganhado apenas cinco e empatado sete das 17 partidas jogadas até então. Mesmo com o que deve ser a maior folha salarial da terceira divisão, o Santa teve apenas o 14º melhor desempenho, entre 20 participantes. Um fiasco. Pelo menos ninguém no clube tentou culpar os gramados ou as arbitragens. A comissão técnica chamou para si a responsabilidade e o presidente admitiu que o clube não merecia subir. O que ninguém consegue explicar é como o clube conseguiu desperdiçar um momento tão positivo, levando ao fim o sonho de disputar a Série A em 2014, o ano de seu centenário.

Baque inesperado no sertão

A passagem do Salgueiro pela Série B de 2011 esteve longe de ser marcante, mas o Carcará teve uma boa desculpa para não conseguir decolar. O estádio do clube sertanejo foi vetado para a disputa da competição, por ser considerado acanhado demais. Jogando em campo neutro, o time foi presa fácil para os adversários. O trabalho de ampliação do Cornélio de Barros foi concluído em 2012, mas o estádio não foi palco de uma retomada de ascensão meteórica, e sim do descenso que pode ser um baque muito forte nos planos do Salgueiro. A boa notícia é que o povo da cidade tem se mostrado interessado pelo clube. O tamanho desse carinho será testado agora, quando o momento se mostra difícil.

Como vinha encarando de igual para igual os três grandes da capital, era até natural que o Salgueiro se achasse preparado para a Série C. Com pouca verba para investir e concentrando esforços nas melhorias em seu estádio, nem seria possível reforçar muito o plantel. O rebaixamento acabou sendo um golpe duro demais para quem passou o campeonato todo beirando a zona de classificação. Na rodada decisiva, o Carcará recebeu o Cuiabá e se livraria com uma vitória simples. Durante o primeiro tempo, um blecaute dos mais convenientes (favor ler com ironia) atrasou a partida quando um empate servia às duas equipes. Tudo mudou quando o Águia marcou contra o Santa. O Salgueiro ainda correu atrás do empate, após sofrer o segundo gol, mas não foi suficiente. Da mesma forma que subiu à B em 2010, o Salgueiro foi parar na D para 2013: no susto.

Tragédia anunciada na capital

Já mencionei aqui no blog sobre a herança maldita deixada pelo ex-treinador Mazola Júnior no Sport. O Leão subiu para a Série A com ele no comando, mas jogando um futebol muito longe do convincente. O comandante foi mantido para a disputa do estadual, onde, aos trancos e barrancos, foi à final. E Mazola foi se segurando no cargo, na base dos resultados, não do desempenho. Além da equipe não se portar bem dentro de campo, Mazola era um perigo nos bastidores, graças ao seu humor instável e às suas coletivas prepotentes. A derrota para o Santa Cruz na final do estadual pôs fim ao seu reinado, bem como ao de Marcelinho Paraíba. O veterano era a grande referência técnica da equipe, mas seu destempero dentro de campo e suas confusões fora dele minaram a paciência da diretoria leonina, que não se esforçou para barrar sua ida ao Barueri.

Se nas divisões inferiores montar um time com o campeonato em andamento já é pouco recomendável, é desnecessário dizer o que isso significa para um clube de Série A. O Sport trouxe alguns bons reforços, mas a constante troca de técnicos (sempre escolhidos de forma equivocada) impediu que o trabalho tivesse sequência. Os repatriados Hugo e Cicinho se provaram boas apostas, mas demoraram demais a mostrar serviço. Graças a uma sequência de seis jogos sem vitória do Bahia e ao gás proporcionado pela chegada de Sérgio Guedes, os rubro-negros ainda podem se salvar da degola. Mas a derrota para o São Paulo deixou bem claro que o grupo terá de tirar forças de onde elas talvez nem existam mais.

Dos últimos jogos do Sport no Brasileiro, apenas dois serão na Ilha do Retiro, ambos contra adversários complicados: o Botafogo, em ascensão, e o líder Fluminense. Há, inclusive, a chance do tricolor carioca confirmar o seu título em solo recifense. Como visitante, o Leão terá pela frente o desenganado Figueirense, o decadente Vasco e, por fim, o clássico contra o Náutico. Não é impossível evitar o rebaixamento, mas para isso a equipe teria de mostrar uma postura de visitante indigesto, algo que não aconteceu durante a temporada. Mesmo que se salve, o Sport não pode achar que os resultados bastam. Lembrar de Mazola e seu aproveitamento enganoso será essencial para evitar novas (e até maiores) frustrações.

Sim, mas… e o Náutico?

Você deve estar se perguntando por que ainda não falei do ponto fora da curva desta equação. Não se trata de varrer a bela campanha do timbu para debaixo do tapete, com a intenção de justificar um post pessimista. Não há como negar que a participação do Náutico na competição é para lá de satisfatória. Precisa de alguns pontinhos para se livrar matematicamente do rebaixamento, mas não é considerado como um dos ameaçados já há várias rodadas. Dentro das limitações financeiras, soube formar um bom time e até revelou jogadores de algum potencial, como Auremir, contratado pelo Vasco, e Douglas Santos, convocado para defender a lateral-esquerda da seleção sub-20.

Mas o desempenho do Náutico apenas referenda tudo o que foi dito sobre os seus conterrâneos nas linhas acima. Por pouco, o clube dos Aflitos não ficava de fora das semifinais do Pernambucano. Motivo pelo qual Waldemar Lemos (que meses depois fracassaria também no Sport) foi rifado ante mesmo da disputa da fase final do estadual. Gallo já assumiu o clube sob pressão, foi eliminado pelo Sport no estadual, mas adiantou a remontagem do grupo para a Série A, enquanto o seu rival de Série A ainda aturava os chiliques de Mazola à beira do gramado, no jogo que marcou a conquista do Pernambucano pelo Santa Cruz. O desempenho sofrível nos primeiros meses do ano fez com que o Náutico estivesse sempre um passo à frente dos rivais na luta contra o rebaixamento no Campeonato Brasileiro. Bem melhor do que viver de ilusão, não?

Outro ponto a ser observado sobre a campanha alvirrubra é a dependência excessiva da pontuação levantada em jogos como mandante. Se nos Aflitos, o time se porta como um timbu feroz, fora de casa se transforma em um inofensivo e delicado Mickey Mouse. Apenas 6 dos 42 pontos conquistados pelo Náutico vieram de jogos disputados no campo adversário, sendo que um deles se deve ao empate contra o Sport. Mas o desempenho sofrível fora de seus domínios não é um caso isolado, como podemos atestar ao estudar com algum cuidado o cenário enfrentado pelos clubes do estado no Campeonato Brasileiro de 2012.

O horror, o horror…

Levando em consideração apenas os resultados dos participantes de Pernambuco (além de Náutico, Sport, Santa e Salgueiro, Petrolina e Ypiranga disputaram a Série D, ficando com as duas últimas posições do Grupo A3 da primeira fase) contra adversários de outros estados, em jogos como visitantes, os números são aterrorizantes. Foram 53 jogos, com 38 derrotas, 12 empates e irrisórias 3 vitórias. Nas Séries C e D, os pernambucanos simplesmente não tiveram o gostinho de trazer três pontos de uma viagem para fora do estado. Na Série A, o Sport triunfou no campo adversário duas vezes, sendo que uma contra um Coritiba focado na final da Copa do Brasil e outra contra um Atlético-GO repleto de reservas, pois já se encontrava rebaixado e tentava uma sobrevida na Sul-Americana. A vitória do Náutico foi também contra o time goiano, o lanterninha da competição.

O Náutico vai escapar. O Sport ainda pode escapar. Santa, Salgueiro, Petrolina e Ypiranga já ficaram pelo caminho. A fragilidade dos times pernambucanos quando jogam fora do estado mostra que o futebol pernambucano anda dependendo demais de suas vibrantes e apaixonadas torcidas. Elas não vão se calar, mas se os adversários conseguirem ignorá-las, não há tradição que segure os clubes do estado em boa situação no cenário nacional. Castelos de areia são assim: podem até parecer imponentes no lugar onde foram construídos. Mas não tente transportá-los para outra praia, se não quiser passar vergonha.

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Ricardo Henriques

Jornalista agnóstico formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Ricardo Henriques nasceu, foi criado e se deteriorou no Recife, cidade com a qual vive uma relação de amor (mentira) e ódio. Não seguiu adiante com seus sonhos de ser repórter esportivo, nem deu continuidade à carreira como centroavante trombador e oportunista nas areias de Boa Viagem, mas encontrou no Twitter a plataforma ideal para palpitar sobre todos os assuntos onde não foi chamado. Viciado em esportes, cinema, seriados de TV e escolas de samba, tem mania de fazer listas que só interessam a si próprio, chegando ao ponto de eleger suas musas como se selecionasse o onze inicial de um time de futebol. Esse blog não trará informações quentes de bastidores, análises táticas abalizadas ou reflexões ponderadas. O que talvez, por consequência, não traga leitores. No cardápio: ranzinzices bem humoradas, cornetadas debochadas e fartas doses de cretinice e cultura pop, temperando o que há de mais ridículo e pernóstico no mundo do futebol. PS: ele tirará uma onda com o seu time ou os seus ídolos, mais cedo ou mais tarde. Não vai adiantar você fazer careta e espernear que nem o Mourinho faz quando é contrariado. Contato: [email protected]

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