Brasil

Caro Dunga, o Emicida explica por que negros não gostam de apanhar

Dunga falava aos jornalistas, no Chile, antes da importante partida contra o Paraguai pelas quartas de final da Copa América quando escolheu um jeito absurdo e inadmissível para reclamar das críticas que recebe: “Eu até acho que sou afrodescendente de tanto que apanhei e gosto de apanhar. Os caras olham para mim e falam: ‘Vamos bater nele'”.

LEIA MAIS: Veja o que Emicida diz sobre caso Aranha

Ao dizer isso, Dunga passa a mensagem de que bater em negros é algo natural, mesmo sem essa intenção. Eles estão acostumados a apanhar e os brancos estão acostumados a bater neles. Isso, por si só, seria injustificável e mereceria um pedido de desculpas público. Mas ele ainda emendou o “gosto de apanhar”. E enquanto as intenções por trás da declaração do técnico da seleção brasileira ainda não são claras, disso temos certeza: negros não gostam de apanhar.

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Por coincidência, na última quarta-feira o músico Emicida soltou uma nova canção no YouTube na qual descarrega toda a sua frustração com as questões raciais no Brasil, ainda muito mal resolvidas. A letra é um soco no estômago. Forte, não mede palavras para criticar a polícia e fazer referências com períodos terríveis como a escravidão e o nazismo. O refrão deixa claro: “E os camburão o que são? Negreiros a retraficar. Favela ainda é senzala, Jão! Bomba relógio prestes a estourar”.

Emicida sofre com o problema do racismo, conhece essa realidade de perto e sabe do que está falando. Dunga não, em relação a nenhuma dessas situações, e precisa ter cuidado quando toca nesse assunto. E pedir desculpas. O mais rápido possível.

Atualizada às 20h10: Por meio do site da CBF, Dunga explicou as suas palavras. “Quero me desculpar com todos que possam se sentir ofendidos com a minha declaração sobre os afrodescendentes. A maneira como me expressei não reflete os meus sentimentos e opiniões”, disse.

LEIA TODOS NOSSOS TEXTOS SOBRE RACISMO. 

Boa Esperança – Emicida

Por mais que você corra, irmão
Pra sua guerra vão nem se lixar
Esse é o xis da questão
Já viu eles chorar pela cor do orixá?
E os camburão o que são?
Negreiros a retraficar
Favela ainda é senzala, Jão!
Bomba relógio prestes a estourar

O tempero do mar foi lágrima de preto
Papo reto como esqueletos de outro dialeto
Só desafeto, vida de inseto, imundo
Indenização? Fama de vagabundo
Nação sem teto, Angola, Keto, Congo, Soweto
A cor de Eto’o, maioria nos gueto
Monstro sequestro, capta-tês, rapta
Violência se adapta, um dia ela volta pu cêis
Tipo campos de concentração, prantos em vão
Quis vida digna, estigma, indignação
O trabalho liberta (ou não)
Com essa frase quase que os nazi, varre os judeu – extinção

Depressão no convés
Há quanto tempo nóiz se fode e tem que rir depois
Pique Jack-ass, mistério tipo lago Ness
Sério és, tema da faculdade em que não pode por os pés
Vocês sabem, eu sei
Que até Bin Laden é made in USA
Tempo doido onde a KKK, veste Obey (é quente memo)
Pode olhar num falei?

Aê, nessa equação, chata, polícia mata – Plow!
Médico salva? Não!
Por quê? Cor de ladrão
Desacato, invenção, maldosa intenção
Cabulosa inversão, jornal distorção
Meu sangue na mão dos radical cristão
Transcendental questão, não choca opinião
Silêncio e cara no chão, conhece?
Perseguição se esquece? Tanta agressão enlouquece
Vence o Datena com luto e audiência
Cura, baixa escolaridade com auto de resistência
Pois na era Cyber, cêis vai ler
Os livro que roubou nosso passado igual alzheimer, e vai ver
Que eu faço igual burkina faso
Nóiz quer ser dono do circo
Cansamos da vida de palhaço
É tipo Moisés e os Hebreus, pés no breu
Onde o inimigo é quem decide quando ofendeu
(Cê é loco meu!)
No veneno igual água e sódio (vai, vai, vai)
Vai vendo sem custódio
Aguarde cenas no próximo episódio
Cês diz que nosso pau é grande
Espera até ver nosso ódio

Por mais que você corra, irmão
Pra sua guerra vão nem se lixar
Esse é o xis da questão
Já viu eles chorar pela cor do orixá?
E os camburão o que são?
Negreiros a retraficar
Favela ainda é senzala, Jão
Bomba relógio prestes a estourar

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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