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Carlos Arthur Nuzman: está preso o Imperador Palpatine do esporte brasileiro

Carlos Arthur Nuzman, para quem nasceu neste século, é apenas mais um nome na longa lista de picaretas que ficaram ricos explorando o Brasil, sua imagem e, especificamente nesse caso, seu esporte. Lista que é encabeçada por João Havelange, e que tem tantos outros nomes que não vale a pena mencionar ninguém além do chefão.

Nuzman foi preso nesta quinta-feira, no Rio, e o que posso dizer sobre isso é que toda e qualquer informação que você precise sobre isso está nesse link, que leva para a excelente Agência Sportlight de Jornalismo Investigativo, do espetacular Lúcio de Castro. Lúcio descreve ali em minúcias todas as histórias, desde o surgimento de Nuzman como jogador de vôlei até a compra da Olimpíada de 2016.

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Para quem acompanhou o “surgimento” do poderoso vôlei brasileiro, no início dos anos 80, a imagem de Nuzman passa por uma transformação parecida com a de Palpatine – o de Star Wars, não o da Fifa. Para quem não lembra, no começo do episódio I de Star Wars Palpatine é um senador, amigo, bonzinho, democrata. Só com o tempo é que fica claro que é ele o Imperador.

Talvez já houvesse quem, em 1980, soubesse que Nuzman era isso aí. Eu, como tinha sete anos, só acompanhava Atlântica Boa Vista x Pirelli, meio puto da vida que as pessoas estavam falando de vôlei, quando podiam estar falando de basquete – nosso basquete ainda era relevante naquele momento. De um lado, Bernard, e seu saque “Jornada nas Estrelas”, no qual a bola subia tanto que ele só podia sacar assim em alguns ginásios. Do outro, Renan e seu “Viagem ao Fundo do Mar”.

Nuzman, quando surgiu, era a essência do “moderno”. Era o dirigente que traria técnicas “profissionais” para a administração do esporte. Em contraste aos dirigentes do futebol, velhas raposas que não conseguiam nem falar a palavra “marketing”, Nuzman dava aulas sobre o tema. Uma rápida busca no arquivo da Folha traz como primeiro resultado uma matéria sobre como até espaço nos uniformes dos serventes dos estádios, além de fartas referências elogiosas ao modelo de gestão. O “Jornada nas Estrelas” nem era tão efetivo assim, e com o tempo passou a ser facilmente defendido pelos adversários, mas como marca, como símbolo? Era excelente! As pessoas passavam os jogos esperando por ele.

Um testemunho da competência de Nuzman é o que aconteceu com o vôlei no Brasil, certo? É difícil discutir o êxito inclusive esportivo de sua gestão, que de certa forma dura até hoje no esporte. Assim como é difícil discutir o êxito de Havelange em transformar a Fifa em um monstro global. As histórias, porém, se assemelham em diversos pontos. Nuzman, como Havelange, tinha interesses bastante diversos do esportivo – embora, diferentemente de Havelange, pelo menos tivesse alguma conexão real com o vôlei. Mantinha estilo de vida caro, embora nunca se soubesse de onde vinha seu dinheiro. E, principalmente, assim como Havelange, não admitia contestações.

Falamos de Nuzman, claro, porque o futebol é também esporte olímpico, mas não é esse o principal motivo. Nuzman tem que ser entendido e ensinado porque é um modelo velho, que vai voltar. É o “gestor”, o “moderno”, o “novo”, aquele que o sistema compra e revende ainda mais caro. A exposição de seus esquemas, porém, como já foi a exposição dos esquemas da Fifa, deixa claro que os poucos que contestam essas modernidades não são chatos, são apenas os únicos que estão fazendo seu trabalho de jornalistas direito – como o citado Lúcio de Castro.

Nuzman revolucionou o vôlei brasileiro, assim como Havelange revolucionou o futebol. Que o bem que fizeram a seus esportes faça sombras sobre o enorme mal que fizeram aos mesmos esportes, ao país e ao esporte mundial, porém, é inacreditável. Que muita gente não perceba que as máquinas de dinheiro que foram montadas poderiam ter produzido NFLs e NBAs, e não campeonatos ridículos como o Brasileirão e a Superliga. Que o vôlei, com todo o seu sucesso, não criou uma base de clubes, não tem torcedores, não vende camisa de time. Que o dinheiro do futebol está na mão de poucos, e não na de quem o pratica. Que, principalmente, o esporte, para esses caras, era só uma maneira de tirar dinheiro dos outros. Poderia ter sido a cocaína, se não fosse ilegal.

Nuzman e Havelange foram o “rouba mas faz” do esporte. Como, porém, Adhemar de Barros gerou Maluf que gerou Collor que gerou a geração de Lula e Aécio, Nuzman também tem seguidores. Entre esses, pode estar aquele cara que ganhou a eleição do seu clube. Se alguém estiver te avisando que ele é picareta, pense bem antes de chamar de “anti”.

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