Brasil

Cara a cara

Os mais novos podem não se lembrar, mas o jogo “Cara-a-Cara” fez muito sucesso entre a molecada na década de 1980. Os dois jogadores pegavam uma carta com o desenho de alguma pessoa. O objetivo era adivinhar qual personagem o outro tinha sorteado. Para isso, perguntavam as características físicas desse indivíduo e, a partir dos “sim” e “não”, construía o perfil.

Dá para fazer essa brincadeira com a Seleção de Dunga após o título da Copa das Confederações. Dependendo das questões formuladas, a resposta será “não”, evidência de que ainda há falhas no time. No entanto, usando os “sim”, é possível se chegar a alguma conclusão. Afinal, o Brasil está longe de ser um time perfeito, mas, é honesto admitir, já tem uma cara e começa a aprender a jogar com ela.

A Seleção tem um esquema de jogo definido?
Sim. Dunga monta o time com quatro zagueiros, sendo que os laterais têm liberdade para subir. A dupla de volantes, um sempre fica atrás para a cobertura, enquanto o outro tem liberdade para avançar um pouco. Dos dois meias, um (pela direita) volta para marcar e chega a formar um trio de meias defensivos em alguns momentos, enquanto o outro fica mais responsável pela ligação com o ataque. Na frente está um jogador mais móvel e outro servindo de referência. Nada extraordinário, mas já não há mais experimentações nessa área.

Já são conhecidos os nomes?
Em geral, sim. Júlio César é o goleiro. Lúcio e Juan só não formarão a dupla de zaga se houver algum problema de contusão. Maicon parece seguir um pouco à frente de Daniel Alves na briga pela lateral direita, ainda que seja possível uma reviravolta. Se não ocorrer uma surpresa muito grande, Gilberto Silva é o primeiro volante e Felipe Melo, o segundo. Kaká é o responsável pela armação e Luís Fabiano o atacante de referência. Robinho não vem tão bem, mas Dunga gosta dele e o ex-santista deve ter lugar. Faltaria só definir o lateral-esquerdo e o segundo meia.

Já há sinais de quem ocuparão as vagas “abertas”?
Não. Na lateral esquerda, André Santos mostrou um pouco mais de consistência que Kleber. Foi mais atuante na defesa e se apresentou mais ao ataque. Ainda assim, foi discreto e só se sobressaiu porque o colorado abusou do direito de ser apagado em campo. Assim, experiências com Fábio Aurélio e Daniel Alves ainda são recomendáveis. Na posição de segundo meia, Elano e Ramires estão em grande equilíbrio. O cruzeirense (ou benfiquista) é mais brilhante, mas o ex-santista é estável.

Entre os titulares quase certos, há quem não convença?
Sim. Gilberto Silva claramente é o volante titular pela falta de um outro jogador dessas características na nova geração (e pelo fato de o esquema de jogo precisar de um meia fixo na marcação). Robinho também precisa ser reavaliado. Seu futebol foi extremamente prolixo na Copa das Confederações, penteando muito a bola e criando pouca coisa realmente produtiva. Pareceu estar sem foco. O surgimento de algum concorrente real na posição poderia forçá-lo a acordar.

Há jogadores que, nesse último ano antes da Copa, podem atropelar e ganhar uma vaga?
Sim, mas só um pouco. Na briga pelas vagas de titular, a lateral esquerda claramente precisa de algum nome novo. Nas outras posições, não há tanto espaço assim. Uma possibilidade seria Ronaldinho, ao ganhar a vaga de titular absoluto do Milan, repentinamente reencontrar seu futebol e fazer sombra a Robinho ou Elano/Ramires.

Entre os reservas, também há muita coisa definida?
Absolutamente não. Se Daniel Alves não for improvisado na esquerda, é o lateral-direito reserva. Josué parece consolidado como alternativa automática a Gilberto Silva. Fora isso, ainda há muita indefinição. Apesar de, em alguns setores, a lista de candidatos já seja conhecida, não é possível apontar favoritos destacados. Assim, ainda estão na parada Victor, Gomes, Doni, Thiago Silva, Alex, Miranda, Alex Silva, Luisão, Marcelo, André Santos, Kleber, Anderson, Kléberson, Júlio Baptista, Adriano, Nilmar e Alexandre Pato. Além disso, há outros que “orbitam” a Seleção, inclusive com cobrança da imprensa ou elogios de Dunga, como Hernanes, Felipe, Bruno, Fábio Aurélio e Lucas.

A Seleção tem problemas crônicos?
Sim. O principal é a dificuldade em mudar de estilo de jogo durante a partida. O time joga sempre do mesmo jeito, se sentindo muito mais confortável quando pode se servir do contra-ataque. Quando precisa tomar a iniciativa, as opções ofensivas rareiam. O curioso é que o Brasil atua há tanto tempo assim que se acostumou. Assim, a defesa já aprendeu a jogar sob constante pressão e o time, mesmo sem criatividade, aprendeu a furar defesas mais fechadas.

Dunga é um grande treinador?
Ainda não. Seu trabalho teve equívocos desde o início e a falta de opções táticas é um sinal disso. De qualquer modo, ele tem suas virtudes. Soube criar, internamente, um comprometimento dos jogadores com a Seleção. Além disso, foi esperto para não se desesperar com a falta de futebol em alguns momentos. Insistiu em alguns nomes e sistemas de jogo, o que, com o tempo, permitiu ao time ter uma base e entrosamento. Até dá para desculpar as falhas, porque é seu primeiro trabalho na nova carreira.

Obs.: O colunista deixa claro que não apostava nele e assume que os resultados até agora surpreendem.

O time já foi devidamente testado?
Poderia ter sido mais, mas sim. O Brasil venceu com folga Argentina, Itália e Portugal (sendo que, no caso de argentinos e italianos, duas vezes). Ainda que essas seleções estejam em crise técnica, são resultados para se respeitar. Seria bom ter algum parâmetro contra Alemanha, Inglaterra, Holanda ou Espanha, mas não dá para ser tão ranzinza.

O Brasil vai virar comida de leões em 2010?
Provavelmente não. Mesmo que o título não venha, a Seleção é uma das favoritas ao título e já está com consistência suficiente para afastar o risco de grande vexame na África do Sul.

Leviandade

Fernando Carvalho é um bom dirigente. Na próxima edição da revista Trivela, por exemplo, há uma reportagem em que fica evidente como ele fez um bom trabalho no Beira-Rio. No entanto, o vice de futebol colorado parece ter caído na empolgação de vencer o Corinthians e vingar a perda do Brasileirão de 2005. Assim, acabou tomando atitudes que, talvez, ele próprio se arrependa no futuro próximo.

No caso, a divulgação de um DVD com erros de arbitragem que configurariam um sistemático favorecimento ao Corinthians na Copa do Brasil e no passado recente. Ao fazer isso, ele mistura as coisas, dando a indícios o tratamento de prova absoluta. O que pode ter um efeito muito nocivo nos torcedores de seu clube.

Se for feita uma lista isenta (algo impossível) de erros de arbitragem em favor e contra qualquer grande clube brasileiro, perceber-se-á (putz, usei mesóclise) que todos estão no lucro. O Corinthians tem fama de, mesmo nesse grupo de grandes, se destacar. Pode até ser verdade. Mas não é o DVD do Internacional que comprovaria isso. Sobretudo porque sua edição é tudo, menos isenta. Até porque alguns lances indicados são discutíveis, não erros crassos dos apitadores.

Ao divulgar o vídeo, a diretoria do clube gaúcho induz os torcedores a verem como fato consumado o tal “apito amigo corintiano” (além de colocar o Inter como símbolo da retidão no futebol brasileiro). Se algo de polêmico ocorrer na decisão da Copa do Brasil, a reação dos colorados pode ser extremada, como a de uma multidão que se vê na obrigação de reagir diante de uma injustiça, algo na linha do “bem contra o mal”.

Se o Internacional tivesse alguma prova concreta de corrupção na comissão de arbitragem e como isso favorece alguns clubes, a denúncia seria muito bem vinda. Do jeito que foi feito, foi oportunismo e uma clara tentativa de pressionar o árbitro. O futebol brasileiro não precisava disso.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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