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Canto do Rio: a história de um forasteiro por mais de 20 anos no Campeonato Carioca

Apesar da sede em Niterói, o Canto do Rio conseguiu uma licença para disputar o Carioca a partir da década de 1940 e contou com muitos jogadores de relevo

Caso bem incomum no futebol brasileiro de clube participante do campeonato de outro estado, o niteroiense Canto do Rio marcou época no Campeonato Carioca – então só da cidade do Rio de Janeiro – entre as décadas de 1940 e 1960. Embora coadjuvante na maior parte daquele período, o Cantusca também teve seus momentos de brilho, seus talentos revelados e até seus nomes de seleção brasileira. Chegou a levantar taça no Maracanã superando os rivais do outro lado da baía de Guanabara. Até ver ser fechada a brecha na legislação que o permitia competir no torneio vizinho – e abandonar por muito tempo o futebol profissional.

Do outro lado da baía

Desde os tempos do Brasil Império até março de 1975 o Rio de Janeiro foi uma cidade desatrelada do estado de mesmo nome. De “município neutro” nos tempos da corte, tornou-se o Distrito Federal pela primeira Constituição da República, datada de 1891. E com a transferência da capital do país para Brasília em abril de 1960, passou a integrante única do estado da Guanabara – caso singular de cidade-estado no Brasil. Enquanto isso a vida seguia discreta ali do lado, no estado do Rio de Janeiro. Tão perto e tão longe.

A capital do antigo estado – que compreendia todo o atual menos, obviamente, a cidade do Rio de Janeiro – era Niterói, cidade que completava a lista das dez mais populosas do país de acordo com o Censo de 1940, vindo atrás de – pela ordem – Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte, Belém, Santos (a única que não era capital de estado) e Fortaleza. Com seus pouco mais de 124 mil habitantes, Niterói superava com certa folga a seguinte na lista, Curitiba, então com menos de 100 mil.

Com apenas a baía de Guanabara a separando da cidade do Rio de Janeiro, Niterói vivia, porém, muito mais próxima desta do que do restante do estado da qual era capital. Futebolisticamente, aliás, o estado do Rio de Janeiro era de difícil articulação. As inúmeras tentativas de se estabelecer um campeonato estadual fluminense (gentílico que se aplica a ele, ao passo que “carioca” diz respeito apenas à cidade do Rio), mesmo amador, esbarravam em problemas logísticos e na forte tradição local dos torneios citadinos.

O Canto do Rio de 1954 no álbum Ídolos do Futebol Brasileiro

E o Campeonato Niteroiense era (ao lado do Campista, no norte do estado) um dos mais fortes, revelando inúmeros talentos para o futebol carioca e até para a seleção brasileira. Em 1930, com o boicote paulista ao escrete que disputaria a Copa do Mundo no Uruguai, foram chamados dois jogadores do Ypiranga de Niterói: o médio Oscarino (que mais tarde atravessaria a baía para ser campeão no America e no Vasco) e o meia Manoelzinho. E a lista também incluía o ponta-direita Poly, do Americano de Campos.

E havia entre os clubes de Niterói um bloco de elite, o “Grupo dos Seis”, formado por Barreto, Byron, Canto do Rio, Fluminense, Niteroiense e o rubro-negro Ypiranga, já citado (com o tempo, novas forças surgiriam, como o Fonseca). E esse bloco ainda abrigava rivalidades locais: o alvianil Barreto e o alvirrubro Byron (clube defendido por Zizinho ainda garoto) disputavam, por exemplo, o acirrado clássico da Zona Norte. Já o também alvianil Canto do Rio e o tricolor Fluminense Atlético Clube faziam o da Zona Sul.

E embora considerado um dos grandes da cidade, o Canto do Rio não chegava a ser um dos mais vitoriosos. Fundado por um grupo de garotos em novembro de 1913, até 1940 havia conquistado apenas dois campeonatos da cidade, em 1933 e 1934 (este, num ano de dissidência de ligas e, por conseguinte, divisão de forças). Um tanto atrás de Byron, Ypiranga e Fluminense, os maiores vencedores. Era, porém, um clube muito ambicioso sob a presidência de Eugênio Borges, e que logo arriscaria um passo ousado.

A travessia possível

O passo se tornaria viável quando Antônio Avelar, dirigente do America, apresentou em março de 1941 ao Conselho Superior da Liga de Football do Rio de Janeiro um projeto de reformulação da entidade carioca, abordando diversos pontos. Entre eles: a divisão das rendas, a organização do quadro de árbitros, a criação de uma segunda divisão de profissionais (a qual não chegaria a sair do papel) e a ampliação do torneio principal de nove para dez clubes. Para essa vaga extra, algumas equipes se candidataram.

Também na esteira do projeto viria um decreto permitindo a participação de qualquer clube em um campeonato de outra localidade caso a sede desta agremiação estivesse dentro de um raio de 35 quilômetros de distância. Foi graças a essa brecha que o recém-profissionalizado Canto do Rio remeteu à LFRJ seu pedido de filiação. Nos bastidores, o presidente Eugênio Borges contava ainda com um apoio de peso, o do niteroiense Ernâni do Amaral Peixoto, interventor nomeado por Getúlio Vargas para o estado do Rio.

Décimo club o Canto do Rio – Jornal dos Sports, 1941

Além do Canto do Rio, também se candidatavam à décima vaga o Andaraí, o Olaria e a Portuguesa – exatamente os três clubes que em 1937 haviam disputado como convidados o primeiro torneio da LFRJ (nascida da chamada “pacificação das ligas” no profissionalismo carioca) e sido excluídos do certame logo após seu término. Os dois primeiros tinham estádio próprio, embora precisando de reformas. Já a Lusa acenava com a possibilidade de montar “um team de quatrocentos contos” e, com isso, garantir as arrecadações.

Para não ficar atrás, o Canto do Rio apresentava o estádio em que mandaria seus jogos, batizado Caio Martins (em memória a um jovem escoteiro vitimado por um acidente ferroviário, no qual ele próprio ajudara no resgate dos feridos, ocorrido em Minas Gerais em 1938) e com capacidade para 25 mil torcedores. Além disso, como lembrava o editorial do Jornal dos Sports de 7 de março, a distância entre Niterói e o Rio era “menor do que a distância entre o centro e Bangu”. Com o apoio dos clubes, o Cantusca levou a vaga.

Na verdade, não chegava a ser exatamente novidade um time de fora da cidade do Rio de Janeiro participar do campeonato: nas primeiras décadas do século, o Rio Cricket, o “clube dos ingleses” de Niterói, já disputara os certames de 1906 (o inaugural), 1908 e entre 1910 e 1915. Entretanto, aquele era um momento anterior à própria criação da Associação Niteroiense de Futebol, surgida apenas em 1913. A “travessia” do Canto do Rio se dava em outro contexto, que poderia despertar animosidades de ambos os lados da baía.

Para justificar sua participação, o clube tratou logo de se reforçar e conseguiu atrair até jogadores com passagem pela seleção brasileira. Eram os casos do goleiro Wálter (ex-Flamengo), do médio-esquerdo Canalli e do ponta-de-lança Perácio (ambos ex-Botafogo), todos eles com participações em Copas do Mundo no currículo. Outros nomes de prestígio chegaram, como o atacante Ladislau da Guia (irmão de Domingos), vindo do Bangu, e o médio-direito paulista Vicentini, campeão do ano anterior com o Fluminense.

A estes se juntavam dois argentinos – o meia Moisés Beressi, ex-Rosario Central e Independiente, que disputara o certame de 1940 pelo Bonsucesso, e o ponta-esquerda Vicente Cussati, ex-Boca Juniors, cedido pelo Fluminense junto com Vicentini – e talentos locais como o centromédio Portela e o centroavante Geraldino, que se destacaria nos anos seguintes. Porém, no primeiro turno, o clube ainda precisou mandar seus jogos no estádio do America, em Campos Sales, já que o Caio Martins ainda não estava pronto.

O time do Canto do Rio no jogo de abertura do Estádio Caio Martins – 1941

A inauguração oficial do estádio aconteceria no dia 20 de julho, no duelo com Vasco pela terceira rodada do returno, terminando com vitória cruzmaltina por 3 a 1. Nas cinco partidas que faria em sua nova casa naquele campeonato, o clube somaria duas vitórias, um empate e duas derrotas. Ambos os triunfos vieram na forma de goleadas: 6 a 2 no Bonsucesso e 6 a 3 sobre o Botafogo de Heleno de Freitas na última rodada, com direito a gol do ex-alvinegro Perácio. No geral, o time ficaria em oitavo lugar entre dez clubes.

Ao fim daquela temporada, o clube ainda receberia a visita do Palestra Itália paulistano para um amistoso em Caio Martins, no dia 16 de novembro. O adversário trouxe astros como Junqueira, Begliomini, Ministrinho, Waldemar Fiúme, Lima e Echevarrieta, que abriu a contagem no primeiro tempo. Mas o time de Niterói empatou com Portela ainda na etapa inicial e, mesmo prejudicado pelo árbitro paulista Victor Carrati segundo a crônica, virou com Geraldino e venceu por 2 a 1 na única partida entre os clubes na história.

A melhor temporada

Após dispensar quase todos os seus medalhões (inclusive Perácio, que foi para o Flamengo viver outra grande fase da carreira), o Canto do Rio repetiu a oitava colocação em 1942 e desceu para a nona em 1943, quando chegou a contar com o jovem centromédio Danilo Alvim, o “Príncipe”, emprestado pelo America. E não se esperava muito da equipe para 1944, novamente formada por alguns refugos dos grandes (mas de menor prestígio que os anteriores) e nomes revelados no próprio futebol de Niterói.

Porém, após disputar entre abril e junho o Torneio Municipal, uma das competições que serviam de abertura para a temporada, e terminar em terceiro, só atrás de Vasco e America (campeão e vice, respectivamente), o clube começou a impressionar já de saída no certame principal. Estreou vencendo o São Cristóvão, sensação do ano anterior, por 2 a 1 em Caio Martins. Em seguida, foi buscar duas vezes o empate contra o Vasco e saiu de São Januário com um ótimo 2 a 2. Na rodada seguinte, fez 3 a 1 no Bonsucesso.

A única derrota naquele turno viria na quarta rodada contra o Flamengo na Gávea, em partida tumultuada do início ao fim: um temporal encharcou o gramado e dois jogadores de cada equipe acabaram expulsos por troca de agressões. Os rubro-negros venceram por 2 a 0. Mas o Cantusca se recuperou atropelando primeiro o Bangu (4 a 2, após chegarem a estar perdendo por 2 a 1) e em seguida, no dia 6 de agosto, o Botafogo (5 a 1, com quatro gols do centroavante Geraldino) em Caio Martins.

O médio Eli do Amparo, a revelação de 1944

Diante disso, o empate em 2 a 2 com o Madureira também em casa na rodada seguinte poderia ser considerado um tropeço, apesar da boa equipe com que contava o Tricolor Suburbano. Porém novamente o Canto do Rio se recuperou com um excelente resultado, derrotando o America por 4 a 2 em Laranjeiras mesmo desfalcado de três de suas mais importantes peças: o goleiro Odair, o médio Eli do Amparo e o experiente ponta Pascoal. Com a vitória, a equipe de Niterói alcançava Flamengo e Vasco na vice-liderança.

Um bom empate em 2 a 2 com o líder Fluminense em Caio Martins na última rodada fez o Canto do Rio terminar o turno na terceira colocação, atrás apenas de tricolores e cruzmaltinos e à frente de Flamengo, Botafogo e America. A análise da revista Esporte Ilustrado afirmava que a equipe, “sem craques, formou um conjunto harmônico, cujas peças funcionam sincronicamente e bem azeitadas”. Entretanto, desse eficiente coletivo alguns nomes despontaram como destaques do time naquela grande campanha.

A equipe titular, quase imutável ao longo daquele turno, tinha o goleiro Odair, os zagueiros Nanati e Haroldo; os médios Guálter, Eli e Grande; e, no ataque, o ponta Pascoal (ex-Botafogo), Carango, Geraldino, Pedro Nunes (ex-Fluminense) e Vadinho. Desse onze, além da dupla de goleadores formada por Carango e Geraldino, outra grande revelação foi o médio Eli do Amparo, que em maio havia se tornado o primeiro atleta do clube convocado à seleção brasileira, que faria dois amistosos contra o Uruguai.

Nascido em Paracambi, interior do estado do Rio, e irmão do goleiro Osni do Amparo, do America, Eli era um centromédio alto e forte, de grande imposição física. Um verdadeiro xerife. Chegou ao clube após também passar pela base rubra, sem ser aproveitado. Emprestado ao Vasco no início de 1944 para a disputa do Torneio Relâmpago, acabaria negociado de vez com os cruzmaltinos no ano seguinte, fazendo história no lendário “Expresso da Vitória” e consolidando-se como jogador de seleção brasileira.

A virada do turno, porém, marcaria um declínio brusco na campanha do time. Na segunda metade do torneio o Canto do Rio somaria apenas quatro pontos, sofrendo seis derrotas em nove partidas e vencendo apenas uma, diante do Madureira em Conselheiro Galvão (3 a 2). Os outros pontos vieram em empates com Bonsucesso e America (ambos por 1 a 1). De qualquer forma, o clube asseguraria naquele ano a melhor colocação de sua história no campeonato, o sexto lugar, atrás apenas dos cinco grandes de então.

O centroavante Geraldino, artilheiro de 1944, com Leônidas

Além disso, o Canto do Rio faria pela única vez o artilheiro do Carioca: com 19 gols marcados em 18 jogos (14 deles anotados nas nove partidas do primeiro turno), Geraldino liderou a tabela dos goleadores, deixando bem para trás nomes como os vascaínos Lelé e Ademir Menezes e o rubro-negro Pirillo. Outro resultado expressivo obtido naquela temporada veio no amistoso diante do São Paulo, detentor do título paulista, em partida disputada no Caio Martins em 4 de outubro, em meio ao returno do Carioca.

“Atuando com grande eficiência, o conjunto niteroiense conseguiu um empate dos mais honrosos frente a uma equipe considerada como uma das mais fortes do Brasil, e na qual repontam ases do valor de Leônidas, Sastre, Luizinho, Tim, Remo, Pardal, Piolin, Ruy e Gijo”, escreveu o Jornal dos Sports. No primeiro tempo, Carango recebeu de Geraldino e chutou com violência para abrir o placar. Na etapa final, Tim empatou de cabeça após escanteio. Para a publicação, o time da casa “relembrou as atuações do turno”.

A derrota mais humilhante

O time revelação, porém, foi em grande parte desmantelado já para a temporada seguinte. Além da saída definitiva de Eli do Amparo ao Vasco, o Fluminense levou para Laranjeiras quatro nomes fundamentais: a dupla de zaga (Nanati e Haroldo) e a dupla de artilheiros (Carango e Geraldino). E o Canto do Rio, como sempre acontecia com as equipes pequenas, teve de começar tudo outra vez. Não seria fácil. E no meio do caminho, em 1947, o time ainda teria de juntar os cacos após uma vexatória goleada histórica.

O adversário era o Vasco em São Januário pela sexta rodada do primeiro turno do Carioca. E os prognósticos lembravam que os niteroienses às vezes surpreendiam. Pela competição, já haviam vencido o time da Colina em Caio Martins em outubro de 1942 e arrancado empates dentro do estádio cruzmaltino por duas vezes, em 1944 e 1945. Também haviam vencido o confronto pelo Torneio Municipal de 1943, disputado na Gávea. E a maioria das derrotas havia sido por placares apertados, com poucas goleadas.

Mas naquela noite fria e chuvosa de 6 de setembro, viria a debacle que entraria para a história. Tudo começou aos cinco minutos, quando o goleiro cantorriense Odair (o mesmo que brilhara na grande campanha do Carioca de 1944) se lesionou num choque com o centroavante vascaíno Dimas ao sair para tentar salvar um lance. Capengando, o arqueiro ainda conseguiria praticar algumas defesas, mas a partir dos 22 minutos o Vasco desandou a marcar, chegando ao placar parcial de 5 a 0 ao fim da etapa inicial.

Na volta do intervalo, sem mais condições de continuar na meta e sem poder ser substituído (algo não permitido pelos regulamentos oficiais da época), Odair foi fazer número na ponta direita. Coube então ao atacante Raimundo a inglória tarefa de assumir seu posto sob as traves. O Vasco, por sua vez, não parou de atacar, chutando ao gol sempre que possível. Raimundo só falhou uma vez. Mas sem ter o traquejo necessário, não conseguiu impedir a goleada de 14 a 1, a maior do futebol carioca no profissionalismo.

O Canto do Rio terminaria o certame em oitavo lugar, agora entre 11 equipes (o Olaria entrou), mas teve disparado a defesa mais vazada: 87 gols sofridos em 20 partidas. Entre outras goleadas, levou 9 a 3 do Fluminense, 8 a 3 do America e 8 a 1 do Bangu. Curiosamente, o jogo do returno contra o Vasco em Caio Martins teve feições bem diferentes: a vitória dos visitantes por 2 a 1 veio com um pênalti contestado, dois atletas locais foram expulsos e o juiz Carlos de Oliveira Monteiro, o “Tijolo”, deixou o campo agredido.

O único caneco

Entre 1949 e 1955, o clube viveria um prolongado declínio no campeonato, terminando sempre em último ou penúltimo lugar. Entretanto, dois acontecimentos ocorridos em 1953 marcaram a história do Canto do Rio. O primeiro deles, no dia 8 de fevereiro, foi a vinda do Boca Juniors para a estreia dos cantorrienses em jogos internacionais. Em Caio Martins, os xeneizes venceram por 3 a 1. Navarro abriu o placar para os visitantes, Jairo empatou, mas Borello e Montano, um em cada tempo, fecharam a contagem.

O time campeão do Torneio Início de 1953 perfilado no Maracanã

O segundo seria a única conquista do clube no futebol carioca, a do Torneio Início, disputado em 5 de julho no Maracanã. O torneio servia de apresentação dos times para o campeonato principal e reunia todas as equipes num mesmo dia e local disputando partidas eliminatórias de duração reduzida (na ocasião, dois tempos de 10 minutos). Em caso de empate, a vaga era decidida em séries de três pênaltis. O Cantusca superou São Cristóvão, Flamengo e Bangu nas penalidades, antes de decidir o título contra o Vasco.

Mesmo levando a campo uma equipe mista (assim como fizeram outros grandes), os cruzmaltinos reuniam nomes como o bom zagueiro Haroldo, o veterano ponta Friaça e o centroavante Vavá. O Canto do Rio, por sua vez, atuou com Celso; Nanati e Garcia; Cleuson, Rubinho e Heber; Milton, Miltinho, Jaime, Dodoca e Jairo. E mesmo tendo feito um jogo a mais que o adversário naquela extenuante sequência, não tomou conhecimento do Vasco e venceu por 3 a 0, gols de Haroldo (contra), Milton (de pênalti) e Dodoca.

Aquela conquista, no entanto, não evitaria que o clube terminasse na lanterna do campeonato daquele ano e do posterior, subindo ligeiramente para a penúltima colocação em 1955. Mas uma grande reviravolta foi arquitetada em 1956. Escorado por uma confortável situação patrimonial, por um crescente quadro de associados e pelo auxílio do governo do estado do Rio de Janeiro, o clube decidiu apostar na formação de uma equipe forte e voltar a fazer frente aos grandes, como até ali só conseguira fazer em 1944.

O presidente do clube, Adolfo de Oliveira, bateu à porta do Fluminense e conseguiu contratar quatro jogadores: o goleiro Veludo (que defendera a seleção brasileira nas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1954 e fora ao Mundial da Suíça como reserva), o zagueiro Duque e os médios Vítor e Lafaiete. Do Vasco, trouxe Eli do Amparo (que retornava 12 anos depois ao clube em que fora revelado) e o médio Adésio. Outro ex-Flu e Seleção, o atacante Orlando “Pingo de Ouro” veio do Atlético Mineiro para uma passagem curta.

A eles se juntava um grupo de bons jogadores já no clube, como o centroavante Zequinha (um dos maiores goleadores de sua história) e o ponta-esquerda Jairo. Outra novidade era a camisa, que substituía o modelo com listras verticais em azul celeste e branco adotada desde a estreia no Carioca (exceto em 1949, quando os niteroienses vestiram uma chamativa camisa quadriculada) e retomava o padrão original do clube, em azul num tom mais escuro com gola e punhos brancos, usado nos tempos do campeonato citadino.

O Canto do Rio de 1956 com Veludo, Eli do Amparo e Zequinha

Naquele ano, porém, a estratégia não deu certo. O time, de novo dirigido por Newton Anet, até derrotou o Fluminense por 2 a 1 em amistoso na estreia da nova camisa. Mas no campeonato os resultados iniciais não foram bons. Para piorar, uma divergência política se transformou em crise financeira, e os salários começaram a atrasar. Anet foi demitido, e o médio Lafaiete passou a conciliar as funções de jogador e técnico. Porém, preteriu os medalhões e apostou nos jovens, o que gerou descontentamento.

Em todo caso, pelo menos um dos nomes experientes daquele time manteve seu prestígio intacto: o goleiro Veludo voltou a ser convocado para seleção brasileira, que tinha de novo Flávio Costa no comando, para uma série de amistosos e torneios internacionais que o Brasil faria a partir de junho daquele ano. Como atleta cantorriense, Veludo foi titular nas duas vitórias (2 a 0 e 5 a 2) sobre o Paraguai em Assunção pela Taça Oswaldo Cruz e nos 2 a 0 sobre o Uruguai no Maracanã pela Taça do Atlântico.

Um técnico de seleção

Veludo seguiria para o Santos antes do início do Carioca de 1957, mas a lacuna foi rapidamente preenchida pelo Canto do Rio, que contratou outro grande goleiro: o paraguaio Sinforiano García, nome histórico do Flamengo na posição. O maior astro a aportar em Caio Martins naquele ano, todavia, estava fora das quatro linhas: era o técnico Zezé Moreira, que dirigira a seleção brasileira na última Copa do Mundo, só três anos antes, e já havia levantado os títulos cariocas de 1948 com o Botafogo e 1951 com o Fluminense.

Com menos jogadores rodados, mas com salários em dia e um bom padrão tático, o novo Canto do Rio enfim se mostrava uma equipe dinâmica, resiliente e solidária. Além disso, a presença do ex-técnico da Seleção em Niterói contribuiu para atrair mais mídia para o clube. E os resultados melhoraram sensivelmente. Venceu duas vezes o Bonsucesso. Em Caio Martins superou Olaria, Portuguesa e São Cristóvão. Goleou o Madureira em Conselheiro Galvão por 5 a 2 e derrotou o America dentro de Campos Sales (1 a 0).

Mas a vitória mais sensacional veio diante do Fluminense, ex-clube de Zezé, no Maracanã no dia 21 de setembro, pela nona rodada do turno. Jogando fechado e utilizando-se da marcação por zona que o treinador havia implementado no futebol carioca, mas com especial atenção a Telê e Waldo, o Canto do Rio espetou num contra-ataque, marcou com Zequinha, se segurou e garantiu o 1 a 0 que derrubou o então invicto Flu da liderança, num resultado que teria implicações ao fim do campeonato, vencido pelo Botafogo.

Zezé Moreira permaneceria à frente do time até outubro de 1958, quando o Fluminense resolveu busca-lo de volta em Niterói. Eli do Amparo, que aos poucos vinha se retirando dos gramados para se juntar à comissão técnica como auxiliar, assumiu o comando. Mas, antes, a temporada teve momentos interessantes. Em fevereiro, o time recebeu o América-MG, detentor do título de seu estado, para um amistoso em Caio Martins e venceu com folga: 4 a 2. E no mês seguinte, iniciaria sua primeira excursão europeia.

O Canto do Rio na Espanha – a excursão de 1958 contada pelo Jornal dos Sports

Antes da excursão, o clube se reforçou contratando o atacante Válter Prado, ex-Bonsucesso, além de acertar a cessão do zagueiro Pinheiro, do Fluminense e da seleção brasileira, para a viagem. A delegação embarcou em navio no dia 11 de março com destino à Espanha, porta de entrada da turnê europeia. A equipe ainda jogaria na Bélgica, Alemanha Ocidental, Suíça, Inglaterra (onde enfrentou Chelsea, Tottenham e Leicester), Bulgária, Romênia, França e Noruega, disputando inclusive torneios em Bruges e Berlim.

Foram quase 30 partidas realizadas entre o início de abril e o fim de junho, com saldo positivo de vitórias. No dia 3 de julho (cinco dias após a conquista da Copa do Mundo na Suécia pela seleção brasileira), a delegação do Canto do Rio desembarcava de volta ao Rio. Três anos depois, o clube voltaria ao Velho Continente para mais uma excursão, de novo iniciada pela Espanha em abril e segundo até julho por Bélgica, Alemanha Ocidental, França, Suíça e Noruega, além de Hungria, Finlândia, Suécia e Dinamarca.

Nesta viagem de 1961, que incluiu enfrentar o Barcelona no Camp Nou, a delegação embarcou em voo da Panair. Na equipe dirigida por Álber Peçanha, destacava-se o goleiro Ari Jório, que no fim daquele ano seria negociado com o Corinthians e mais tarde defenderia também o Botafogo. No Carioca, porém, o time não repetiu a boa campanha do ano anterior (quando ficou em oitavo) e acabou eliminado ainda no turno de classificação. Era o início da derrocada definitiva que viria a culminar com a exclusão do clube.

O desfecho melancólico

Lanterna do campeonato de 1962 sem nenhuma vitória em 24 partidas, o clube começou no ano seguinte a ver ameaçada sua presença no certame do agora estado da Guanabara. Em meados de 1963, um deputado estadual fluminense entrou com uma representação ao Conselho Regional de Desportos do estado do Rio questionando a permanência do Canto do Rio no campeonato vizinho. O documento foi remetido ao Conselho Nacional do Desporto (CND), que enviou ofício à Federação Carioca cobrando explicações.

O time de 1962, no começo do declínio

Segundo o CND, a situação do clube contrariava o que era estabelecido pelo Decreto-Lei nº 3.199, medida publicada em 1941 (ainda durante o Estado Novo) com o objetivo de regulamentar toda a organização esportiva no país. O caso era: como o profissionalismo havia sido definitivamente adotado no estado do Rio de Janeiro desde 1951 através da Federação Fluminense de Desportos, não havia mais fundamento para que o clube de Niterói continuasse a disputar o campeonato da unidade federativa vizinha.

O clube rebateu também expondo seus argumentos jurídicos: como havia sido um dos membros fundadores da Federação Carioca (que substituiu, quando da transferência da capital federal em 1960, a antiga Federação Metropolitana), somente esta entidade poderia ter decidido naquela época sobre a exclusão do clube de seu campeonato. E, na verdade, ela havia feito o contrário: em 21 de janeiro de 1960, em seu boletim, a então FMF garantira ao clube o voto de mais três anos de permanência em seus quadros.

Acontece que, após ser instada pelo CND em julho de 1963, a agora FCF lavou as mãos e devolveu a questão ao Conselho Nacional, afirmando ter ele a alçada exclusiva sobre a questão. A definição ficou na geladeira por cerca de um ano, até enfim ser anunciada na última semana de agosto de 1964, já com o certame da temporada em pleno andamento: o CND aprovava por unanimidade a revisão do parecer que impedia o clube de seguir no Campeonato Carioca, uma vez que já existia futebol profissional no estado do Rio.

Desiludido, o Canto do Rio nem se preocupou em fazer uma campanha digna em sua despedida. Ao contrário: só não perdeu duas de suas 24 partidas (uma vitória sobre o Bonsucesso em Caio Martins em outubro e um empate com o Campo Grande em Ítalo Del Cima em novembro). Além das campanhas vexatórias nos últimos anos, o clube se envolveu em duas monumentais batalhas campais em seu estádio em seus dois últimos anos no certame: uma contra a Portuguesa em 1963 e outra contra o Fluminense em 1964.

Eram gestos simbólicos de um clube na defensiva, e que, por outro lado, contribuíam para tornar mais ácida uma certa animosidade um tanto nítida da parte da imprensa e dos clubes cariocas para com o “intruso” Canto do Rio. Mas antes de ser forçado a se retirar, o clube ainda revelaria algumas joias: o ponta-direita Uriel, que saiu para o America em 1964 e passou pelo futebol venezuelano antes de seguir a carreira nos Estados Unidos, e o meia-armador Fefeu, que chegou ao clube em 1961 e teve rápida ascensão.

Meia talentoso, técnico, ofensivo e exímio cobrador de faltas e pênaltis, o niteroiense Alfredo de Souza, o Fefeu, surgiu como um ponta-esquerda recuado, mas logo passaria à posição em que se consagraria. Vendido ao Flamengo em 1964, viveria sua melhor fase na Gávea no ano seguinte, sagrando-se vice-artilheiro do time na campanha do título carioca. Contratado pelo São Paulo no início de 1966, chegaria à seleção brasileira na fase de preparação para o Mundial da Inglaterra, mas ficaria fora da lista final para a Copa.

Fefeu e Uriel, as últimas revelações

Fefeu e Uriel não ficaram para ver a despedida do Canto do Rio. O clube até anunciou que entraria na Justiça contra a decisão do CND, mas assim que a FCF homologou sua exclusão, em março de 1965, não teve outro jeito senão acatar. Antes, em dezembro de 1964, o clube concedia passe livre ao seu elenco profissional, abandonando esse regime (embora mantivesse, desde os anos 1940, uma equipe amadora que disputava anualmente o campeonato de Niterói). Encerrava-se uma era para o clube e o futebol carioca.

Em sua coluna “Bate-Pronto”, no Jornal dos Sports do dia 3 de setembro de 1964, João Saldanha lamentava que a “excelente ideia” de incluir um clube do estado do Rio no Campeonato Carioca tivesse sido desperdiçada. Para ele, além de aproveitar o fato de Niterói ser “um ótimo mercado” para o jogo (com base nas rendas expressivas das partidas em Caio Martins), era a grande chance de fortalecer o futebol fluminense – um dos principais celeiros de craques do país, mas pouco expressivo em termos de clubes.

Para Saldanha, a ideia – que ainda poderia ser aproveitada – acabou conduzida e concretizada de maneira equivocada: “O espírito da coisa foi prejudicado pelos favores a privilegiados à época”, criticou, antes de concluir: “Tivessem os homens daquele tempo juntado forças dos vários pequenos de Niterói e formado um time que representasse condignamente não só a cidade, mas o próprio estado, hoje, certamente, o Conselho Nacional de Desportos nem estaria preocupado em alijar o Canto do Rio”, opinou.

Após a fusão dos estados do Rio e da Guanabara, originando o atual estado do Rio de Janeiro em 1975, o Canto do Rio ensaiou vários retornos ao futebol profissional. Disputou a terceira divisão estadual em 1985, oscilou entre a segunda e a terceira de 1989 a 1995 e jogou esporadicamente a Série C entre 2007 e 2018. À parte disso, o Cantusca sobrevive como clube social e em outras modalidades, como o futsal, que entre 2007 e 2010 contou em suas categorias de base com o garoto Vinícius Júnior.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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