Campo dos sonhos
“Construa e eles virão” é a frase mais famosa do filme “Campo dos Sonhos (“Field of Dreams”), de 1989, que tem Kevin Costner como o protagonista Ray Kinsella, um fazendeiro apaixonado por beisebol. Ele tem sonhos e ouve vozes que interpreta como uma ordem para construir um campo de beisebol. Uma loucura que custaria usar parte do espaço destinado à plantação de milho. Algo que pode o levar a falência. Apesar do ceticismo da sua mulher, ela permite que ele construa o campo. E nada acontece.
Em princípio, claro. Porque a filha de Ray, Karin, vê um jogador no campo. É Shoeless Joe Jackson, um jogador de beisebol já morto e que foi ídolo do seu pai. Ele pede se pode trazer outros jogadores e ele leva sete jogadores do Black Sox banidos no escândalo de 1919. Um campo que ele sonhou, com jogadores que ele jamais imaginaria que estariam mesmo ali. E, bom, não contarei mais para que você veja o filme.
Alguém no Corinthians ouviu que era preciso construir o campo dos sonhos. Não estou falando do estádio, que será importante para o time, mas que recebeu uma grande ajuda governamental visando a Copa do Mundo. O campo dos sonhos do Corinthians não é esse. O campo dos sonhos do Corinthians é a sua organização e mudança no comando do futebol, trazendo para seus principais cargos profissionais de mercado, experientes e, principalmente, competentes. Um processo de mudança que Andrés Sanchez começou a fazer quando percebeu que resolver essa falha do Corinthians poderia dar a ele um poder político enorme. Não se pode dizer que ele estava errado.
Quando Andrés saiu do Corinthians, foi para a CBF. Ganhou poder junto a Ricardo Teixeira, então presidente da CBF e do Comitê Organizador da Copa do Mundo. Esse poder foi paulatinamente destruído com a ascendência de José Maria Marin (e Marco Polo Del Nero) ao poder. Del Nero é inclusive o maior concorrente de Sanchez para o poder na CBF. Mas os frutos renderam. E renderam porque o trabalho no Corinthians foi notável.
A mudança na gestão corintiana foi feita aos poucos. Saíram as tradicionais figuras políticas do clube para a entrada de gente como Mário Gobbi, que de diretor de futebol passou a presidente, Luis Paulo Rosenberg, um dos grandes responsáveis pelo crescimento avassalador do clube no campo de marketing e Roberto de Andrade Souza, o diretor de futebol que trata com discrição e eficiência nas negociações.
Se alguém disse a um corintiano em 2007, que o time seria campeão da Libertadores e Mundial poucos anos depois, mudando os parâmetros do marketing, com o melhor programa de sócio-torcedor do Brasil e um aumento significativo de arrecadação, poucos acreditariam. Mas Andrés acreditou e fez um trabalho que mudou o Corinthians e a sua carreira política, que ele mira agora na presidência da CBF. Uma mudança completa de direção que nos tempos de Alberto Dualib seria impensável. Seria impensável até mesmo na época de Kia, quando Andrés foi diretor de futebol. Ele soube mudar e agir. E colhe os frutos disso até agora.
Construa o campo e eles virão. Com um time mais estruturado e que passa a impressão de ter noção da sua grandeza e do seu potencial, o Corinthians tornou-se atrativo para grandes jogadores, como Alexandre Pato. Já tinha sido assim com Ronaldo e com Roberto Carlos, figuras importantes do futebol mundial que vieram para o clube. O Corinthians teve capacidade para fazer uma proposta alta, teve habilidade para negociar, mas a vontade de Pato jogar no clube era fundamental. Há poucos anos, seria impossível um clube brasileiro pagar € 15 milhões em um jogador. E seria impossível também um jogador de 23 anos, ainda com algum mercado na Europa, querer voltar ao Brasil. O campo foi construído. O jogador quer jogar no Corinthians. E não é um sonho.
O São Paulo, outro time forte e bem estruturado, sofreu uma queda de desempenho, mas principalmente uma queda administrativa porque fez o processo inverso. Juvenal Juvêncio se mantém no poder à força, parte por falta de concorrência que o impeça, parte pela inércia dos que estão lá. O time tem tentado voltar aos melhores dias, usando o dinheiro que tem e voltando algumas casas para voltar a trabalhar sua área administrativa. Está atrás do Corinthians, como o rival estava em 2007. E terá que trabalhar muito para alcançar em alguns aspectos. Outros clubes estão ainda mais longe e terão um caminho longo pela frente para alcançar o clube do Parque São Jorge.
O Corinthians não dá sinais que permitirá que o que aconteceu com o São Paulo se repita na sua diretoria porque se preveniu – não é permitida reeleição, por exemplo, e o sucesso do time impediu que os grupos políticos antigos voltassem a ganhar força, além de fortalecer os profissionais que lá entraram. De qualquer forma, é preciso entender que o mercado e a política no futebol mudam rapidamente. Se adaptar a essas mudanças é essencial para manter-se forte. O campo dos sonhos não pode ser destruído. Ou o sonho acaba.