Calendário desajustado

O maior campeonato do país começou no último final de semana, mas o que vimos foi só um esboço do que será a competição até a última rodada, em dezembro. Isso porque nada menos do que oito equipes começaram a jogar de olho em outra competição – Copa do Brasil ou Libertadores, que estão em fases decisivas.
O Campeonato Brasileiro começa em maio, quando a Libertadores e a Copa do Brasil estão decidindo seus quadrifinalistas e semifinalistas. Ao contrário da maioria dos países, não só europeus como também os vizinhos sul-americanos, têm seus campeonatos com momentos decisivos nesse momentos. Na Argentina, o Torneio Clausura, que fecha a temporada, está na penúltima rodada, ao mesmo tempo que terá um dos seus representantes nas quartas de final da Libertadores, o Estudiantes.
Com o Campeonato Brasileiro só na primeira rodada, os times acabam deixando de lado as primeiras rodadas para não perderem o foco na competição que já disputam e que normalmente tem um peso grande para os clubes. O Cruzeiro, que esse ano está nas quartas de final da Libertadores, sentiu exatamente o peso dessa concorrência entre campeonatos em momentos tão diferentes. A raposa jogava seus fichas nos jogos de mata-mata da Libertadores, enquanto poupava jogadores nas primeiras rodadas do Brasileiro. Viu o time perder pontos importantes e teve que buscar, já no final da competição, o quarto lugar que lhe deu o direito de disputar novamente o torneio continental.
Em termos de preparação física, ter duas competições em fases tão distintas cria um problema. Os times brasileiros já não podem fazer pré-temporada – os estaduais começam já em meados de janeiro e o Campeonato Brasileiro vai até o início de dezembro. Nenhum time consegue jogar tanto tempo em alto nível. É normal que, durante a temporada, haja variações no rendimento técnico e físico. Por isso, a preparação normalmente é voltada para que os jogadores rendam o seu máximo no momento decisivo – que, nos principais países daquele continente, exceto a Rússia, é justamente os meses de abril e maio.
No Brasil, o momento decisivo para os times que disputam Copa do Brasil e Libertadores é o final do primeiro semestre, também os meses de abril, maio e junho, especialmente. O problema é justamente esse: depois desse período, o time tem uma queda de rendimento físico notória, além do desgaste emocional dos jogos decisivos. É preciso se remontar rapidamente para continuar a disputa do Brasileirão, o que é tarefa muito complicada para as comissões técnicas.
Ainda há outra questão. O calendário brasileiro sendo completamente diferente do europeu faz com que a principal janela de transferências do planeta, entre junho e agosto, seja justamente na metade do Campeonato Brasileiro. Assim, inevitavelmente jogadores são vendidos – por motivos tão variados que renderiam outra coluna – e os times começam o segundo turno com modificações importantes. Jogadores como Kléber e Thiago Ribeiro, do Cruzeiro, que fazem excelente participação na Libertadores, podem sofrer assédio dos clubes estrangeiros no meio da temporada brasileira e deixar o clube. O Santos, com seus meninos, também deve ser assediado por clubes europeus. O Flamengo é outro que deve ter propostas por alguns dos seus jogadores, além de outras transferências.
Mesmo que não haja uma venda, há os contratos de empréstimo, recurso muito usado por times brasileiros para repatriar jogadores que não estão rendendo nos seus clubes e veem no Brasil uma chance de voltar a brilhar. É o caso de Vágner Love, que chegou ao Palmeiras em 2009 para empréstimo de uma temporada. Só que uma temporada europeia: de julho a junho do ano seguinte. A expectativa do CSKA Moscou, dono do seus direitos federativos, é conseguir vender o jogador para outro clube no meio da temporada. E o Flamengo, que tem o atacante emprestado, terá que ficar sem um jogador importante para o resto da competição.
É o caso também de Robinho. O atacante, que vai à Copa do Mundo da África do Sul pelo Brasil, está emprestado pelo Manchester City até agosto para o Santos. Embora o alvinegro praiano, através de seu presidente, tenha manifestado interesse em permanecer com o jogador por mais tempo, o clube inglês deve exigir a volta do atacante ao clube para a nova temporada em agosto, ou pode também negociá-lo com outro clube que mostre interesse depois da Copa do Mundo. O Santos, o time que mais encantou no primeiro semestre, terá que ficar sem uma das suas estrelas justamente quando o campeonato começar a ser decidido.
No São Paulo, o lateral direito Cicinho é outro em situação idêntica. Emprestado até o meio do ano, o jogador já manifestou interesse em ficar no tricolor paulista. A Roma, porém, deve tentar negociá-lo assim que possível. O São Paulo terá que abrir o cofre se quiser manter o jogador, ou tentar costurar um novo e improvável acordo. Caso contrário, perderá o jogador para a maior parte do segundo turno.
Carlos Alberto, principal jogador e capitão do Vasco, está emprestado ao clube cruzmaltino pelo Werder Bremen. A situação do meia ainda é incerta, já que não há um acordo para a permanência do jogador, que só tem mais uma temporada de contrato – o que deve fazer o clube alemão exigir que seja paga uma quantia em dinheiro para a venda definitiva do jogador.
Em ano de Copa, como é 2010, a situação fica ainda mais bizarra: serão sete rodadas até que comece o Mundial. Durante a Copa, claro, não haverá nenhum jogo. Depois, os times voltam a campo para uma maratona de 31 rodadas em pouco mais de quatro meses e meio. É quase uma temporada toda em seis meses. Os clubes terão que se preparar para manter o preparo físico dos jogadores durante essa maratona, que ainda terá a Copa Sul-Americana no segundo semestre para alguns clubes brasileiros – e com a vaga à Libertadores do ano seguinte para o campeão, a competição ganha um peso que jamais teve.
É preciso revisar o calendário brasileiro urgentemente. Porque se em 2010 é a Copa do Mundo que se coloca no caminho dos clubes brasileiros, em 2011 será a Copa América, em 2012 os Jogos Olímpicos – que devem desfalcar alguns clubes para o torneio de futebol –, em 2013 a Copa das Confederações e em 2014, tem Copa novamente. A mudança é urgente e necessária, para o quanto antes for possível.



