Presidente mais longevo do Vasco, Calçada foi um nome importante na era mais vitoriosa do clube

A figura histriônica de Eurico Miranda o coloca como personagem recorrente na condução do Vasco ao período mais vitorioso de sua história, durante a década de 1990. Entretanto, ao contrário do que muitos atribuem, Eurico não era o presidente cruzmaltino nesta época, mas “apenas” o homem forte do futebol na Colina. O comando permaneceu por 17 anos nas mãos de Antônio Soares Calçada, o mandatário mais longevo da história do clube. De 1983 a 2000, participou da transformação da agremiação, não apenas nos gramados. Uma figura central, mas nem sempre lembrada como deveria, que faleceu nesta segunda. Aos 96 anos, Calçada estava internado desde julho e não resistiu a uma infecção abdominal.
Calçada nasceu em Portugal e mudou-se ao Brasil aos 12 anos de idade. Passou a integrar o quadro social do Vasco em 1942 e não demorou a se envolver com a gestão do clube, chegando ao departamento de futebol na década de 1950. As boas relações internas o alçaram à presidência em 1983. A partir de então, ajudaria a conduzir os cruzmaltinos ao período mais vitorioso de seu futebol.
Após a conquista do Brasileirão em 1989, os anos 1990 guardaram diferentes glórias. O Vasco foi tricampeão carioca de maneira consecutiva na primeira metade da década. Já pouco antes da virada do século, abastecido pelo dinheiro de uma parceria internacional, Calçada ajudou a montar um esquadrão que garantiu não apenas a Libertadores no ano do centenário, mas também outros dois títulos do Brasileiro e a Copa Mercosul. É o período que guarda boa parte das grandes memórias dos vascaínos. Todavia, também foi em sua gestão que ocorreu o aumento das dívidas, transformando-se em uma bola de neve com seus sucessores.
Eurico Miranda se manteve como protagonista no futebol, em ascensão que ocorreu de maneira paralela à de Calçada. O presidente, inclusive, derrotou-o nas urnas durante as eleições de 1986. Classificado como conciliador, depois o mandatário se uniria ao opositor. Ganharia muito com Eurico e, ao mesmo tempo, apesar de Eurico. E, diferentemente do que ocorreu com a figura de seu sucessor, Calçada manteve o respeito por aquilo que construiu dentro do clube. Se nem sempre é reconhecido da forma como deveria por seus méritos, também não se via atrelado aos problemas que se intensificaram em São Januário a partir da virada do século, por mais que tenha permitido a afirmação de Eurico.
E vale lembrar como o Vasco, naquele período, se marcou como uma potência além das quatro linhas. Outros departamentos esportivos cruzmaltinos montaram verdadeiros esquadrões. No basquete, a equipe conquistou o bicampeonato sul-americano, enquanto o futsal faturou o título nacional e contou com um dos times mais célebres do país. O remo chegou a ser tricampeão estadual, enquanto ainda houve uma lista grande de atletas olímpicos apoiados pela agremiação.
Após deixar a presidência, Calçada permaneceu ligado à política do Vasco, inclusive como crítico do antigo aliado. Presidente de honra, fez a sua última grande aparição no clube em 2017, durante a tumultuada eleição dos cruzmaltinos. Virou vice de Júlio Brant após a cisão de Alexandre Campello e, aos 94 anos, tentou atrelar seu nome ao candidato que sofreu a derrota vista por muitos como ilícita. Já nos últimos meses, passou a lidar com as complicações causadas por seu estado de saúde. Seu velório aconteceu em São Januário, respeito às décadas de dedicação ao clube.
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