‘525 anos resistindo’: A história e os sonhos do menino que viralizou jogando com pinturas indígenas no corpo
Antes, apenas uma criança que gostava de futebol em uma aldeia capixaba. Agora, uma estrela mirim que carrega cultura na pele
Um garoto de 10 anos que joga futebol com o corpo todo pintado: você provavelmente se deparou com Bryan Pereira nas redes sociais. Seja por um perfil argentino repercutindo sua história em uma publicação que rendeu mais de 40 comentários ou um portal equatoriano, com outros 50. Agora, já são mais de 38 mil seguidores conquistados em pouco tempo.
Saindo de Aracruz, o único município do Espírito Santo que possui aldeias indígenas, o garoto se destacou em campeonato criado por Richarlison e foi até o Rio de Janeiro, onde passou por testes do Vasco. E foi na capital carioca que recebeu a equipe da Trivela para contar sua história.
Bryan é da etnia tupiniquim, um dos dois únicos povos indígenas com território demarcado no Espírito Santo. Segundo a Assembleia Legislativa do estado, em 2021, eram cerca de 4 mil pessoas da etnia distribuídos em seis aldeias, incluindo a Pau Brasil, onde nasceu e cresceu, assim como seus pais.
Tímido e com um sorriso leve, o jovem explicou — e, em alguns momentos, recebeu a ajuda do pai, Maik, para isso — como é a vida de quem sonha em ser jogador profissional em uma aldeia. E como sua história está ligada ao desejo de colocar cultura e ancestralidade indígena nos campos e quadras do Brasil.
Da Aldeia Pau-Brasil aos celulares de todo o mundo
Pai e filho foram nascidos e criados na Aldeia Pau-Brasil, em Aracruz, com pouco menos de 100 mil habitantes. E a dupla faz questão de derrubar a primeira barreira de curiosidade: não, a vida não é tão diferente assim por lá.
“Muita gente que pensa que é diferente, mas é praticamente a mesma coisa de quem vive em outros lugares“, explica Maik à reportagem. E a relação da aldeia com o futebol também não é impactada pela diferença cultural.

— É tudo igual: lá eles também são apaixonados por futebol. Tem um campo lá onde a criançada brinca. A maioria torce para Vasco e Flamengo.
Apesar do campo de futebol, não existem as famosas escolinhas na aldeia. Mas isso não é empecilho para Bryan: foi “na cidade” que deu os primeiros passos no futebol. À Trivela, ele conta que começou a jogar futsal em 2024, aos 9 anos, e migrou para o campo neste ano.
“Eu nem acreditei na hora que viralizei, recebi muita mensagem“, começa Bryan, em um olhar com misto de reflexão e felicidade. O garoto virou assunto de diversas publicações nas redes sociais depois de vídeos e fotos de uma partida em que jogou pintado foram ao ar. A ideia parecia tão direta quanto a vontade: mostrar sua cultura.

A curiosidade do público foi instantânea. “O menino está tatuado?”, “o que é isso no corpo dele?” e “indígena anda pintado assim?” foram só alguns dos tipos de comentários que a família recebeu. E a exposição de uma criança também trouxe preocupações.
“A gente ficou um pouco com medo. Sempre tem o preconceito, pessoas que não entendem, mas ele se pintou e fomos analisando (o que aconteceria)“, lembrou Maik. O cuidado da família, no entanto, não precisou ir muito além: o pai reforçou que a grande maioria dos comentários era mais curiosidade genuína do que julgamento.
— Teve bastante gente que perguntou sobre, se era tatuagem, mas não por julgamento, mais por curiosidade. E aí explicamos que era pintura de cultura indígena, que se usa na dança dos guerreiros, e é uma tinta que sai. Mas ele não sofreu preconceito por isso.
E se a ideia era propagar sua cultura, Bryan acertou em cheio. Criou um movimento de curiosidade em relação aos costumes indígenas e rendeu ao pai uma sessão de professor nas redes sociais: “A gente achou que receberia preconceito, mas tem muita gente que quer realmente conhecer a cultura, entender o porquê, como se faz”.
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Bryan e a tinta: por que se pintar e o que isso representa?
A repercussão foi vista com bons olhos por Bryan, mas nem perto de ser algo que subiu à cabeça. A popularidade apenas aumentou o desejo do menino por propagar a cultura indígena. E ele mesmo quem conta à reportagem seus motivos:
“Sim (foi ideia minha), para representar minha cultura”.
Mas não há razão para pensar que o garoto de 10 anos foi colocado em uma situação de precocidade para amadurecer ou carregar a bandeira de todo um povo. A sua explicação para a pintura nos jogos também tem um pé na doçura infantil: ele simplesmente se diverte fazendo. “Para mim, também é muito legal se pintar“, conta, com sorriso orgulhoso.
A ideia ousada veio, também, em um clássico questionamento infantil: se há o costume de se pintar em ocasiões especiais na aldeia, por que não poderia fazê-lo para outra situação excepcional, como um jogo de futebol?
“Ele sempre gostou de se pintar. Não é algo que é feito no dia a dia, mas em festas. Em um momento ele se pintou, uma semana depois a tinta já estava saindo, e ele falou: ‘Pai, queria me pintar para ir ao jogo’“, recorda Maik.

Agora, Bryan criou uma tradição. Mesmo que não faça isso sempre, o jovem diz que é até “paparicado” na aldeia antes dos jogos: “Sempre perguntam: ‘E aí, você não vai pintado?’ Acho que, quando estou pintado, eu jogo bem, fico mais motivado”.
Proteção, ancestralidade e promoção da cultura indígena na pele
Para uma criança de 10 anos, Bryan é até poético quando fala sobre a pintura. Ele complementa o pai quando fala sobre o processo para criar a tinta:
“É feita com jenipapo. Fica no corpo uns 15 dias, depois some. Para mim é uma semana, porque eu suo muito jogando futebol”, afirma o garoto, com um olhar sério na explicação, mas que amolece quando fala sobre seu suor.
Em um tom professoral de quem provavelmente já explicou isso para mais curiosos nas redes sociais, Maik assume e ilustra à reportagem o passo a passo que faz com o filho:
— Tem que fazer a preparação da tinta. Primeiro, tira o miolo do jenipapo antes de ficar maduro. Tem que socar para que a fruta solte o caldo, que é roxo. Às vezes nós colocamos carvão para ficar mais escuro, e espera um período para aderir bem a cor. Depois, tem que pintar e ficar praticamente um dia parado para secar, porque se encostar, mancha.
E mesmo um processo longo, que vai desde a colheita de um fruto até um dia inteiro imóvel, vale a pena para Bryan — principalmente pelo seu significado: ancestralidade, identidade, espiritualidade e proteção.
Um novo astro indígena no futebol brasileiro?
São apenas 10 anos, muitos passos para serem trilhados e um futuro imenso pela frente, mas o objetivo do menino é claro: quer ser jogador profissional. O pai tentou, mas não conseguiu. E nos limites do futebol amador, faz questão de apoiar o filho em um sonho que é uma extensão do seu.
“Eu jogo futebol amador na minha aldeia, tem um time lá, o Pau-Brasil. Mas nunca joguei em escolinha, não tive essa oportunidade. Como ele está tendo, vou acompanhar ele“, diz o pai, trocando olhares orgulhosos com o filho pensativo.
E Bryan tem aproveitado a oportunidade. Empolgado, o garoto revela que joga na ponta e às vezes no meio-campo — mas que gosta mesmo é de atuar no ataque. Mas, quando perguntado sobre ídolos no futebol, curiosamente teve dificuldade de encontrar um nome brasileiro.
“Cristiano Ronaldo!”, respondeu o jovem, de bate-pronto, sobre sua inspiração. Depois de alguns segundos de silêncio para pensar em um brasileiro, deu um riso ao soltar um “Ronaldo Fenômeno”.
A ‘ajuda’ de Richarlison e a oportunidade no Vasco
Bryan concilia o futsal com uma escolinha de campo do Vila Nova, que é perto da aldeia onde mora. E foi a partir de um torneio criado por Richarlison, atacante da seleção brasileira, que ele foi observado por gigantes nacionais — como foi o caso do Vasco, que o chamou para testes em setembro e outubro.
“O convite para fazer teste no Vasco surgiu através de uma competição, na Copa Richarlison, em Nova Venécia. Ele foi chamado para competir pela escolinha que participa, e jogou em uma categoria acima – ele é sub-10, jogou no sub-11”, conta o pai.
A Copa Richarlison é um projeto criado pelo camisa 9 do Brasil para promover o futebol de base em Nova Venécia, sua terra natal. O torneio engloba as categorias do sub-8 ao sub-13 e, neste ano, aconteceu entre os dias 19 e 21 de junho.

O jovem ponta foi avaliado durante o torneio e chamou a atenção dos cariocas. O Vasco gostou do que viu e chamou o garoto fazer uma semana de avaliação em setembro. Animados, a dupla conta que Bryan passou no primeiro teste e seria chamado para a próxima fase, no mês seguinte. E ele mesmo fez sua autoavaliação:
“(O teste) foi bom. No primeiro dia joguei bem, no segundo, fui um pouco melhor, e no terceiro foi o que eu mais joguei. Fui bem demais!”, conta, com um sorriso de orelha a orelha.
De fato, a percepção do garoto foi a mesma do Vasco. Em contato com a reportagem posteriormente, Maik revelou que o garoto passou no teste e a dupla voltou ao Rio de Janeiro na primeira semana de outubro. Nessa segunda vez, o ânimo seguiu forte: “Foi bom de novo. Ele jogou bem todos os dias”.
Curiosamente, o Vasco hoje conta com um jogador titular de origem indígena. Nascido em Petrolândia, o volante pernambucano Barros é da etnia dos Pankararus.
Bryan não se pintou para os testes no Vasco, justamente pela demora no processo e pela necessidade dos materiais. Mas segue falando de como a pintura o faz bem e seu significado maior seguirá sendo carregado no corpo e no coração do garoto, seja em campos, quadras ou onde for. Porque, como ele mesmo reforça:
— São 525 anos resistindo.



