Brasil

Bruno Rangel, o artilheiro que perpetuou seu nome na história da Chape sendo o herói do acesso

Bruno Rangel Domingues. Há três anos, o Brasil conhecia para valer esse nome. Em 2013, o país começava a aplaudir o jogador que, na época, já carregava 15 anos de futebol em sua bagagem. Que chegou de fininho no futebol catarinense, recusou fama e salários volumosos para atingir e se fincar no topo da artilharia da Série B sendo o que um ser humano pode ser de melhor: ele próprio, sem tirar nem por. Que foi vital no último trecho da caminhada da Chapecoense até a primeira divisão. Que cativou a torcida em pouco tempo, caiu nos braços de Chapecó e perpetuou seu nome na história do clube da cidade antes mesmo de se tornar o maior goleador em mais de quatro décadas de existência do time: sendo o herói do acesso à Série A. Que, na última terça, virou estrela. Não que ele não tenha sido em vida. Seu faro de gol ilimitado, personalidade tranquila dentro de campo e destreza com a bola nos pés o fizeram brilhar muito vestindo a camisa da Chape. Mas hoje a intensidade de sua luz é ainda maior.

Como reluz a estrela de Bruno Rangel. Aos 15 anos de idade, talvez ele não imaginasse chegar onde chegou. Quando dava seus primeiros passos no esporte jogando pelo Abadia Futebol Clube, agremiação de Campos dos Goytacazes, cidade do interior do Rio de Janeiro, o atacante provavelmente sonhava com o que pelo menos 90% dos jovens jogadores sonham: em jogar em um clube gigante. Em um Real Madrid, Barcelona, Milan da vida, provavelmente. Isso não aconteceu, e custou tempo até que o eterno camisa 9 alcançasse um patamar de satisfação com seu futebol. Até que ele encontrasse um lugar em que se sentisse em casa e que recebesse, sobretudo, afeto e reconhecimento em troca de seu esforço.

No início de sua carreira, Rangel chegou a cogitar largar a vida esportiva. Parecia e de fato era difícil para ele se manter nessa rota, já que passava a maior parte da temporada fora dos gramados, trabalhando como auxiliar de serviços gerais. Isso porque os times em que jogou no Rio de Janeiro, onde nasceu e se formou, jogavam divisões inferiores do campeonato estadual. Sendo assim, não existia calendário pelo resto do ano para essas equipes, e ele precisava de trabalho. De dinheiro. Tinha contas a pagar, como qualquer outro cidadão. Era uma vida muito difícil, uma rotina árdua dividida entre um persistir um sonho, condições desfavoráveis e um emprego paralelo. Mas ele agarrou-se ao seu propósito, e não desistiu nunca. Demorou quase uma década até que chegasse à Santa Catarina, onde, antes de chegar à Chape, ainda jogou em divisões inferiores do Campeonato Catarinense.

Quando pisou pela primeira vez no CT Água Amarela, porém, se iniciava ali mais do que uma história de superação e recompensa. Afinal, Bruno Rangel chegou e foi mais do que uma mera representação das cores de um clube com a bola nos pés e sob lentes de câmeras. Mais do que 77 gols e o status de maior goleador do Verdão. Nos últimos três anos, ele foi o coração de uma cidade literalmente inteira dentro de campo, a cada jogada individual bonita, a cada participação em lance coletivo e a cada rede balançada. E mesmo quando ele deixou por um tempo Chapecó para cumprir breve passagem pelo Catar ele não deixou de ser. Rangel não só acompanhou a incrível ascensão da Chape, da primeira vez na série B ao acesso à primeira divisão. Da permanência na série A e as boas campanhas no campeonato à final de um torneio continental. Ele foi uma parte titânica desse feito.

Por isso a posição como um dos maiores ídolos da Chapecoense. E ela foi conquistada graças a seu jeito ímpar de ser, descrito de forma detalhada e autêntica, em matéria publicada no Globo Esporte em março deste ano, logo após o atacante ter chegado a marca de 65 gols pelo clube, e, com isso, se tornado artilheiro da história da Chape, pelo jornalista Laion Espíndula. Jornalista este que acompanhou os passos de Bruno Rangel até seu último milissegundo de vida. De ambos.

Dificilmente Rangel fica fora de si. Quando fala, quando comemora um gol ou até mesmo quando tenta fugir da marcação, a tranquilidade é a marca do centroavante. O que não pode ser confundido com resignação. Muito longe disso. De personalidade forte, o jogador tem coragem para mostrar insatisfação. Não é de ficar calado. “Tenho que ser calmo. Tenho família, esposa, filhos. Mas também tenho sangue nas veias. Quando você é confrontado, quando dizem que você não consegue, daí tenho que provar que posso. Ouço muitas coisas e guardo para mim. Aquilo fica ali e sinto que preciso mostrar que tenho condições”.

Acompanhe nossa cobertura da tragédia da Chapecoense aqui.

Foto de Nathalia Perez

Nathalia Perez

Jornalista em formação trabalhando a favor de um meio esportivo mais humano. Meus heróis sempre foram jogadores de futebol, mas hoje em dia são muito mais heroínas.
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