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Briosa foi valente para voltar à terceira divisão paulista e encerrar um jejum de 52 anos

No início do século passado, um grupo de emigrantes portugueses que embarcou no litoral paulista e fez de Santos sua nova casa costumava passar tardes e mais tardes assistindo aos espanhóis batendo bola. Naquela época, cada colônia de estrangeiros tinha sua própria agremiação esportiva, inclusive a portuguesa. Mas foi a partir dos jogos dos ex-vizinhos ibéricos que surgiu o encanto pelo futebol, e, com isso, a vontade de ter uma instituição própria. Foi assim que nasceu o clube que viria a ser o maior rival do time de emigrantes da Espanha na cidade: a Portuguesa Santista. E no último final de semana, após mais da metade de seu tempo de existência sem levantar uma taça, os lusitanos deram um passo gigantesco para recolocar a equipe de volta no mapa do futebol paulista conquistando o título da Bezinha (a quarta divisão) e, como consequência, conseguindo o acesso para a série A3 do Campeonato Paulista.

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O pequeno mas aconchegante Ulrico Mursa já havia ficado abarrotado durante a partida que levou a Briosa de volta à terceira divisão estadual, na penúltima fase da competição. Mas foi na final que a combinação da expectativa pelo fim do jejum de 52 anos sem títulos e da consagração do acesso transformou o clima no estádio em um dos mais favoráveis em muito tempo. Diante do Desportivo Brasil, time de Porto Feliz que se classificou para jogar a série A3 pela primeira vez em sua história, a Portuguesa Santista foi valente. Ainda mais do que foi quando derrotou o Taboão da Serra na semifinal. Depois de arrancar um empate por 1 a 1 no Ernesto Rocco, a condição de estar em casa, com a torcida empurrando o time e pressionando o adversário, fez com que a Briosa tivesse força para fazer 3 a 0, placar que ficou até barato para o Desportivo levando em conta o domínio de jogo e as chances que os anfitriões tiveram.

Até sair o primeiro gol, aos 33 minutos da primeira etapa, as duas equipes não faziam uma boa partida. Talvez devido a tensão de não tomar um gol (ou, se tomar, ter que fazer um logo em seguida) de um lado, e o nervosismo de ter que marcar e segurar o resultado do outro. Claro que também tinha o fator financeiro em jogo. Afinal, o prêmio para quem vencesse a Bezinha era de R$ 60 mil. Nada mal para clubes que têm um calendário extremamente encolhido e poucas chances para ascenderem no meio do futebol, as quais se não forem aproveitadas, geram dívidas e prejuízo às finanças das agremiações. E aí é um efeito dominó. Sem resultados, não tem dinheiro. Sem dinheiro, não tem condição de sustentar os jogadores. Sem condição de sustentar jogadores, tem racha de elenco. E sem elenco, vocês já sabem. Essa é a realidade dos clubes de divisões inferiores espalhados pelo país.

Por isso, além do fim da abstinência de meio século sem levantar o caneco, desde quando a Briosa foi campeã da Divisão de Acesso, ao derrotar a Ponte Preta em pleno Moisés Lucarelli, o prêmio em dinheiro se fazia muito importante para ambos os times. E foi um cruzamento de Fernando e um cabeceio certeiro de William, neste sábado, que começaram a fazer a espera acabar. Logo depois vieram o capitão Ricardinho, de rebote, e Eric, aproveitando uma bola que veio cruzada da direita. 3 a 0, para soltar, de vez, o grito de “é campeã” que estava atochado na garganta de mais de quatro mil pessoas só lá presentes. Para legitimar o acesso após seis anos na quarta divisão paulista. Para coroar o excelente trabalho de Ricardo Costa sob o comando técnico da Briosa. Para deixar os dois pés firmes na parede de escalada rumo à elite do futebol estadual. E dar força e consistência para que não hajam mais derrapagens.

Foto de Nathalia Perez

Nathalia Perez

Jornalista em formação trabalhando a favor de um meio esportivo mais humano. Meus heróis sempre foram jogadores de futebol, mas hoje em dia são muito mais heroínas.

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