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Brasileirão vê diversas arenas pagarem para receber clubes de outros estados, mas a conta não fecha

A ideia surgiu como salvação para as arenas da Copa construídas em cidades sem clubes fortes. Os investidores dos estádios pagavam um valor  um clube, normalmente acima de sua média de renda, para virar sede de uma partida. A torcida local, empolgada com a chegada de algum grande clube, lotaria o estádio e toda a operação traria benefícios a todos. A iniciativa é polêmica do ponto de vista técnico, pois muitas vezes inverte mandos de campo, mas funcionou por um tempo. Até que, em 2015, essa conta começa a não fechar.

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Há uma amostragem razoável para se ver o resultado dessas compras de mando de jogos. Em cinco das 15 rodadas já realizadas no Brasileirão houve um time mandante trocando a vantagem técnica de atuar diante da sua torcida para receber uma bolada e mandar a partida para um lugar distante.

A última tentativa foi com o confronto entre Avaí e Fluminense, marcado para 8 de agosto. O clube catarinense afirmou que recebeu uma proposta de quase R$ 700 mil para mudar o encontro da Ressacada para o Mané Garrincha, de Brasília. Os avaianos rejeitaram a oferta e aproveitaram para anunciar que havia “vendido” o jogo para os 15 mil torcedores que poderiam lotar o estádio. “Se enchermos o estádio, vamos arrecadar no máximo R$ 250 mil, mas nada vale mais para o nosso time, nada motiva mais nossos jogadores que o seu grito vindo da arquibancada”, publicou o clube em comunicado.

Uma postura louvável de um clube que recebe muito menos de direitos de transmissão e patrocínio que seus concorrentes. Além disso, sua arrecadação líquida total no campeonato está pouco acima do que receberia para vender a partida para o Mané Garrincha. A postura avaiana é rara, pois muitos clubes têm vendido seus mandos sem pudor. Do ponto de vista econômico, é compreensível, pois o risco da operação fica todo com os promotores da partida.

Um deles é o ex-atacante Roni, que atuou por clubes como Fluminense, Atlético Mineiro e Santos. Depois de se aposentar, ele abriu uma empresa para agenciar atletas chamada Roni7. Ainda atua nesse mercado, gerenciando as carreiras de Érik, do Goiás, e Ernando, do Internacional, por exemplo, mas decidiu se arriscar em outro negócio. Ano passado, organizou Vila Nova x Vasco pela Série B no Mané Garrincha e gostou do resultado, embora a renda líquida tenha ficado nos R$ 374 mil, nada exorbitante. Traçou a meta de intermediar dez partidas na primeira divisão de 2015 e até agora chegou à metade do planejamento. O retorno está longe de ser satisfatório.

“Não está um prejuízo gigantesco, mas não está sendo o que esperávamos”, afirma em entrevista à Trivela. “Levamos grandes jogos, mas o primeiro turno não atrai muito o torcedor. Achamos que no segundo turno, quando começam a definir quem briga pelo título, pela Libertadores e para não cair, consigamos atrair mais público.” Roni conta que chegou a conversar com o Avaí sobre essa mesma partida contra o Fluminense e queria levá-la a Vitória, no Espírito Santo. As negociações não seguiram em frente.

Ele nega que os valores oferecidos tenham sido na casa dos R$ 700 mil. Na verdade, nega todos os valores que foram divulgados pela imprensa, por volta de R$ 1 milhão por partida. Segundo ele, a cota real aproxima-se mais do que o presidente do ASA, Bruno Euclides, afirmou ter recebido para enfrentar o Palmeiras, pela Copa do Brasil, em Londrina: R$ 400 mil. “Tem que pagar a arena, traslado, logística do clube, impostos. Pagar um valor desses (entre R$ 700 mil e R$ 1 milhão) é assinar atestado de prejuízo, não tem lógica”, explica.

A empresa de Roni organizou cinco partidas até agora. Além de ASA x Palmeiras no estádio do Café, Cruzeiro x Corinthians, Vasco x Flamengo e Ponte Preta x Palmeiras na Arena Pantanal, e Vasco x São Paulo no Mané Garrincha. A renda líquida somada, depois de pagas as despesas como policiamento, arbitragem, federação e taxas, passa um pouco de R$ 3,2 milhões. Ainda tem o aluguel do estádio e a comissão dos clubes mandantes. “Neste momento, estamos abaixo da meta anual. Estamos com vários contatos. Pretendo fazer mais cinco partidas até o final do campeonato”, completa Roni.

O quinto jogo de Campeonato Brasileiro que acabou vendido foi entre Atlético Mineiro e Fluminense, na segunda rodada. Como o Cruzeiro contra o Corinthians, o Galo havia perdido mando de campo e já seria obrigado a sair de Belo Horizonte. Mas, ao invés de buscar alguma cidade mineira em que tem muitos torcedores, como Varginha ou Ipatinga, foi para Brasília. A renda líquida foi de R$ 305.284,79, a segunda maior do clube no torneio, mas ainda pouco para valer a pena o esforço de quem promove o confronto.

Essa prática já deveria ter sido proibida pela CBF. Deveria ser inadmissível para os clubes vender os mandos de campo pelo desequilíbrio técnico que isso representa ao campeonato. Mas, se a confederação não toma essa iniciativa, talvez o mercado o faça. Se os mandos comprados continuarem dando prejuízo, os empresários se verão obrigados a desistir da prática. Os clubes perderão uma fonta de renda em potencial, mas será mais justo para a isonomia da competição.

Copa do Brasil
ASA 0 x 1 Palmeiras
Estádio do Café, em Londrina
Renda líquida: R$ 734.576,59
Quanto foi pago: R$ 400 mil, segundo o presidente do ASA

1ª rodada
Cruzeiro 0 x 1 Corinthians
Arena Pantanal, em Cuiabá
Renda líquida: R$ 564.915,60
Quanto foi pago: as matérias da época falam em R$ 1 milhão, a organizadora não confirma.

2ª rodada
Atlético Mineiro 4 x 1 Fluminense
Mané Garrincha, em Brasília
Renda líquida: R$ 305.284,79
Quanto foi pago: valor não divulgado

9ª rodada
Vasco 1 x 0 Flamengo
Arena Pantanal, Cuiabá
Renda líquida: R$ 761.757,61
Quanto foi pago: as matérias da época falam em R$ 1 milhão, a organizadora não confirma.

11ª rodada
Ponte Preta 0 x 2 Palmeiras
Arena Pantanal, Cuiabá
Renda líquida: R$ 558.539,30
Quanto foi pago: R$ 1 milhão, de acordo com a Máquina do Esporte, mas a organizadora não confirma.

12ª rodada
Vasco 0 x 4 São Paulo
Mané Garrincha, Brasília
Renda líquida: R$ 605.331,64
Quanto foi pago: segundo matéria do Globo Esporte, o Vasco vendeu as duas partidas por R$ 1,4 milhão. Se a primeira saiu por R$ 1 milhão, a segunda deve ter custado R$ 400 mil.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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