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Brandãozinho era um bastião da Copa Rio ao Palmeiras e também ajudou a fama do futebol brasileiro na Europa

Durante os últimos anos, Brandãozinho permaneceu como um bastião da história do Palmeiras. O ex-ponta esquerda era o último membro do elenco campeão da Copa Rio em 1951 ainda vivo e, nesta condição, recebeu inúmeras homenagens dos alviverdes. Brandãozinho II (muitas vezes chamado assim para diferenciar-se de outro Brandãozinho, ídolo da Portuguesa e atleta da Seleção na década de 1950) tinha apenas 21 anos quando participou do feito palmeirense como reserva e teria uma carreira muito mais rica além daquele troféu. O atacante construiu também uma caminhada de sucesso na Europa, onde foi campeão francês pelo Nice e também teve uma passagem expressiva pela Espanha. Um destaque brasileiro a desbravar as fronteiras que faleceu nesta terça, aos 90 anos, com os devidos tributos por sua trajetória.

José Carlos Silveira Braga nasceu em Boa Esperança do Sul, cidade no interior de São Paulo, próxima a Araraquara e Bauru. O garoto estudou em Campinas e foi por lá que ganhou o apelido de Brandãozinho – mesmo sem ter o “Brandão” em seu sobrenome. Era centro-médio no time da escola e, por sua qualidade, passou a ser comparado com Brandão – centro-médio histórico do Corinthians, que conquistou quatro títulos paulistas e disputou a Copa de 1938 com a seleção brasileira. Pouco depois, o jovem se mudou a São Carlos e passou a jogar no ataque, mas o apelido de Brandãozinho se manteve. Sua primeira chance veio através do Paulista, de São Carlos, onde chamou atenção até se transferir ao Jabaquara.

Na Baixada Santista, Brandãozinho virou xodó por seus dribles e sua velocidade na ponta esquerda, além da pancada de canhota. O atacante passou a ser convocado pela seleção paulista e aproveitou uma enorme chance em junho de 1950. O jovem de 20 anos foi chamado à equipe que participaria do amistoso inaugural do Maracanã, em duelo contra o escrete carioca. Num time que contava com o Brandãozinho da Portuguesa, Brandãozinho II conseguiu se destacar na vitória bandeirante por 3 a 1. Acabou atraindo a atenção do Palmeiras, levado ao Parque Antárctica pouco depois.

No segundo semestre de 1950, Brandãozinho participou da conquista do Campeonato Paulista com o Palmeiras. Era coadjuvante no time estrelado por Jair Rosa Pinto, Waldemar Fiúme e Oberdan Cattani. Apesar de algumas boas atuações contra São Paulo e Portuguesa, o novato não manteve a regularidade. Assim, a posição acabou com o veterano Rodrigues, trazido pouco antes do Fluminense. Mesmo na reserva, a promessa compôs o elenco campeão da Copa Rio de 1951, grande feito dos palmeirenses no período. O ponta esquerda pôde se manter como memória viva da competição por décadas, com seus prêmios preservados e um relógio de ouro recebido pelo título.

Brandãozinho seguiu no Palmeiras até 1952, quando se transferiu ao Santos. E de lá o atacante viajou ao futebol europeu, onde passou grande parte de sua carreira. O ponta chegou ao Velho Continente através do Monaco, integrando a equipe na segunda divisão do Campeonato Francês. Ao lado do compatriota Yeso Amalfi, o brasileiro se tornou um dos destaques na campanha do acesso. Então chamado de “Braga”, anotou 12 gols e ajudou os monegascos a subirem com a segunda colocação na Division 2. Também chamou atenção do Nice e se transferiu a uma das potências do futebol francês na época.

A passagem de Brandãozinho pelo Nice foi duradoura, defendendo o clube por quatro temporadas. O ponta teve a honra de dividir o ataque com Just Fontaine, além de ídolos dos rubro-negros, como Victor Nuremberg e Joseph Ujlaki. O Nice fez duas campanhas de meio de tabela com o brasileiro no elenco. Já a grande glória aconteceu na Division 1 de 1955/56, com o título nacional das Águias. O time treinado pelo argentino Luis Carniglia (que depois seria bicampeão europeu à frente do Real Madrid) encerrou a campanha com 43 pontos, um a mais que o vice-campeão Lens. Brandãozinho acabou sendo um coadjuvante, com quatro aparições e nenhum gol. Na época, apenas dois estrangeiros podiam ser escalados por jogo, com a concorrência de Vic Nuremberg e do argentino Rubén Bravo.

Brandãozinho permaneceu na França ainda durante a temporada seguinte, quando o Nice eliminou o Rangers na Copa dos Campeões e sucumbiu apenas ao Real Madrid nas quartas de final. Já em 1957/58, o ponta esquerda iniciaria sua história na Espanha. Transferiu-se ao Celta de Vigo, passando duas temporadas na Galícia. Reserva dos celestes em parte de seu primeiro ano, “Braga” ainda assim anotou cinco gols, que ajudaram o time a terminar na sétima colocação de La Liga. Chegou a fazer dois num jogo contra o Sevilla. Já no segundo ano, Brandãozinho virou titular e balançou as redes quatro vezes, mas não evitou o descenso dos galegos.

Apesar do rebaixamento, Brandãozinho permaneceu na primeira divisão do Campeonato Espanhol. Jogou por um ano no Espanyol, esquentando o banco na maior parte do tempo. O atacante, ao menos, anotou o gol em uma vitória sobre o forte Athletic Bilbao naquela temporada. Os catalães, que ainda contavam com os brasileiros Índio e Décio, ficaram na oitava colocação de La Liga. Brandãozinho também vestiu a camisa do Oviedo por uma temporada, companheiro do jovem Luis Aragonés, e voltaria para o Celta na segunda divisão logo em seguida. Ainda atuou por outros clubes menores da Espanha antes de retornar ao Brasil em 1964.

Após pendurar as chuteiras, Brandãozinho geriu uma farmácia ao lado do irmão. Formou-se em administração de empresas e também trabalhou em uma petroquímica em Santo André. Com a aposentadoria, o veterano mudou-se a Santos ao lado da esposa Suzanne, antiga miss que o jogador conheceu quando atuava na França. Virou uma espécie de relíquia, especialmente ao permanecer como último remanescente do Palmeiras campeão em 1951. Nos 65 anos do título da Copa Rio, o clube levou o troféu histórico à Baixada Santista, para que Brandãozinho posasse com a taça e fosse homenageado. O reconhecimento ainda em vida a quem fez muito pelo futebol.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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