Bastou Pelé ficar doente para nos lembrarmos do quanto o amamos
Pelé padece dos problemas da longevidade. Aposentado há quase 40 anos, e sem a possibilidade de fazer mágicas com a bola nos pés, passou a atuar como garoto propaganda e palpiteiro oficial da República. Declarações estapafúrdias e a sua relação com a hipocrisia do poder serviram para humanizar uma das maiores lendas que o futebol – e o mundo em geral – já viu. Criou uma resistência mesmo nos apaixonados pelo jogo. Mas bastou uma semana internado no hospital, com especulações de que seu quadro era mais grave do que parecia, para os brasileiros se lembrarem do quanto amam o Rei.
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Não se trata de um ex-jogador normal. Trata-se, aliás, do mais importante que já tivemos. É natural que se queira saber o que ele acha de diversos assuntos, como o racismo contra o goleiro Aranha, a administração da CBF, a organização da Copa do Mundo ou mesmo quem vai ganhar o Brasileirão. Tão normal quanto é que suas declarações repercutam mais do que a de outros, pois todos o conhecem e se interessam por ele.
Pelé sempre teve o mérito de ser solícito e responder com sinceridade. Teve, por outro lado, o demérito de muitas vezes estar errado, mesmo que geralmente seja uma questão de opinião, como ao dizer que o melhor a se fazer para combater o racismo é parar de falar dele. Virou piada por sistematicamente errar os seus palpites. Costuma elogiar quem não merece. Em geral, muitos fazem isso, mas ele nunca foi como muitos. Suas declarações são mais importantes, mais poderosas e alcançam mais gente.
Pelo potencial que tem de influenciar as pessoas, está sempre sendo julgado pelo milenar tribunal da opinião pública e sendo cobrado por posições que acham que ele deveria ter. Muitas vezes injustamente, pois não tem, por exemplo, obrigação de combater o racismo sistemático do Brasil porque já fez isso diariamente desde que nasceu. Poderia, por outro lado, ser mais duro na relação com dirigentes corruptos e com a sujeira no poder do futebol.
Mas ele não tem a obrigação de lutar por você. Pelé não é um ativista terceirizado. É um senhor de 75 anos que se expõe mais do que os outros, mas está apenas tocando a sua vida da maneira que acha melhor. Virou um ser humano, e como todos nós, mortais, está sujeito a erros, mas nenhum deles deveria macular o que o jogador fez. E ele fez tanto!
O tempo às vezes enfraquece o tamanho dos seus feitos, mas eles foram gigantescos. Mais de 1200 gols, três títulos mundiais, um período de dominação sem precedentes no futebol brasileiro e um carisma natural que o transformou em embaixador do Brasil para o mundo. Parou guerras, abraçou reis e é reverenciado em todos os lugares por onde passa. Tem uma estatura que dificilmente outro ídolo do esporte brasileiro terá.
Criamos o Edson, sua segunda personalidade, justamente para preservarmos o mito, e essa diferenciação sempre precisa ficar clara. Independente do que fez na parte da sua vida em que foi apenas um cidadão, ou o que fizer a partir desta sexta-feira, quando completa 75 anos, Pelé é o maior jogador que o futebol brasileiro já teve e um incontestável ídolo do nosso esporte. Merece respeito, mesmo quando fala besteira, e não apenas quando estiver doente ou – batendo na madeira – trocar essa por uma melhor.



