Brasil

Ato a ato, o maior espetáculo do maestro: como Gérson ajudou a elevar a classe da Seleção em 1970

Nesta segunda-feira, Gérson completou 80 anos. Aproveitamos a data especial para relembrar, jogo a jogo, como o meio-campista viveu o ápice de sua carreira na Copa de 1970. Parte do material foi retirada do nosso diário sobre os 50 anos do tri, publicado em 2020.

Na constelação de craques que foi a Seleção de 1970, alguns ainda conseguiam se destacar um pouco mais que os outros. Pelé quase sempre é apontado como o melhor jogador do Mundial, num campeonato em que se preocupou muito mais com o coletivo, embora complementasse sua entrega com doses de brilhantismo. Gérson, porém, não deveria ficar muito atrás do Rei. O camisa 8 jogou uma barbaridade naquela Copa. Mesmo lesionado, o que custou sua presença em dois jogos na fase de grupos, o Canhotinha de Ouro sempre foi um dos melhores em campo quando pôde atuar. E a melhor versão do meio-campista veio justamente na decisão contra a Itália, numa exibição gigantesca, do tamanho da ocasião. Foi o cérebro do Brasil no Azteca, premiado com seu gol e capaz de oferecer doses cavalares de magia na meia-cancha.

Poucos jogadores na história do futebol batiam na bola como Gérson. Sua canhotinha era mesmo dourada, especialmente pelos lançamentos absurdos, feitos com uma facilidade impressionante. Tinha um estilo clássico, pausado, de quem realmente regia os companheiros. Havia uma beleza ímpar principalmente quando resolvia pegar na bola com a parte de fora do pé, esticando os passes. Girava o corpo sobre os marcadores e, num estalo, já entregava a bola limpa a outro jogador. Seu domínio era outra qualidade, tão simples quanto plástico. Mas o meio-campista também foi mais na Copa de 1970. Além de armar e organizar o time, ele se dedicava na contenção. Fazia um trabalho duro, muito firme nas divididas. E se permitia o destaque mais à frente, por vezes se transformando ainda em elemento surpresa, ao se infiltrar no ataque. Foi assim que balançou as redes contra a Itália.

Gérson era uma referência técnica numa equipe de gênios. E também uma liderança, com a experiência de quem tinha muita rodagem pela Seleção antes da Copa. Dos 22 convocados por Zagallo, apenas Pelé somava mais partidas com a camisa amarela àquela altura. O Canhotinha de Ouro disputou as Olimpíadas de 1960 e chegou à seleção principal no ano seguinte. Mesmo sem grande sequência de jogos, era cotado à Copa de 1962, mas uma cirurgia três meses antes do torneio tirou suas chances. O jovem meio-campista viraria constante entre os titulares a partir de 1963, quando herdou a camisa 8 de Didi. Também substituiria o maestro em seu clube, trocando o Flamengo pelo Botafogo pouco depois.

Para a Copa de 1966, Gérson era nome obrigatório na convocação. Acabou se tornando reserva na conturbada caminhada na Inglaterra, perdendo o lugar para Denílson. O Canhotinha de Ouro esteve em campo apenas na derrota contra a Hungria, sem contribuir à Seleção. Após o desastre naquele Mundial, Gérson se tornou intocável no meio-campo brasileiro. Jogou ao lado de Rivellino, de Piazza, de Clodoaldo. Manteve a posição com Aimoré Moreira, João Saldanha, Zagallo. Era imprescindível – independentemente do companheiro, da formação ou do técnico. Seguiria prestigiado, mesmo trocando, meses antes da Copa de 1970, o Botafogo pelo São Paulo. Não dava para conceber aquela Seleção sem Gérson. E assim ele partiria ao México, como um nome central.

(Imago/Sven Simon/One Football)

Durante a preparação à Copa do Mundo, Gérson se tornou preocupação à Seleção. O Canhotinha de Ouro sofreu uma distensão muscular na coxa semanas antes da estreia e suas condições até o início da competição não eram certas. Apesar disso, Zagallo não abriria mão da peça chave de sua engrenagem. E, na primeira partida contra a Tchecoslováquia, o camisa 8 estava entre os titulares, regendo o meio-campo. Seria um dos protagonistas naquela goleada por 4 a 1, que abriu a caminhada ao tri injetando confiança nos brasileiros.

Depois que Ladislav Petras abriu o placar e Rivellino empatou no primeiro tempo, o Brasil dominou a partida realmente durante a segunda etapa. Contou com uma senhora atuação de Gérson na volta do intervalo. O camisa 8 mandava prender e soltar no meio-campo, coordenando os incessantes ataques brasileiros. As inversões instantâneas à direita, para Jairzinho ou Carlos Alberto, serviam de arma. O Canhotinha carimbou a trave num chute de fora da área e distribuía seus cirúrgicos lançamentos. Justamente com um deles veio a virada, aos 14. O armador mandou a bola no peito de Pelé, que dominou e finalizou com tranquilidade.

No terceiro gol, dois minutos depois, mais Gérson. O meio-campista fez outro lançamento primoroso para Jairzinho, que chapelou o goleiro Ivo Viktor antes de escorar à meta vazia. Com a vitória encaminhada, Zagallo preferiu tirar Gérson de imediato e poupá-lo, para entrada de Paulo Cézar Caju. O Canhotinha sentiu novas dores e avisou o treinador, antes de se arriscar em um carrinho. No banco de reserva, o meio-campista chegou mesmo a chorar – porque não queria ser substituído, além de sentir medo pelo que ocorreria na sequência do torneio. O maestro viu do banco o quarto gol, anotado por Jairzinho.

No dia seguinte, o Jornal dos Sports avaliou a atuação de Gérson: “É um homem sempre capaz de decidir um jogo. Bastaram dois passes perfeitos para o Brasil fazer dois gols. Sentiu uma contusão e Paulo Cézar entrou em seu lugar”. Havia um cuidado especial com o Canhotinha, já que a comissão técnica temia que sua lesão muscular pudesse piorar se forçasse muito. Assim, os cuidados eram máximos antes do segundo jogo, o mais aguardado, com a Inglaterra.

(Imago/Sven Simon/One Football)

Apesar dos riscos, não passava pela cabeça de Gérson se ausentar da partida. “Domingo eu jogo de qualquer maneira, mesmo que esteja apenas com 30% da minha forma física. Precisamos vencer os ingleses de qualquer jeito e eu vou entrar em campo nem que seja de maca. É o nosso jogo mais importante, porque eles são mais técnicos e têm um time bem entrosado. É um grande azar eu voltar a sentir esta contusão, mesmo às vésperas de uma partida tão importante. Mas tenho certeza de que vou me recuperar a tempo e domingo estarei ajudando o time a derrotar os ingleses e a garantir a classificação”, disse, ao Jornal do Brasil.

O próprio Zagallo não imaginava o seu melhor time sem o Canhotinha. “Gérson é um jogador que faz falta ao time. Tem a voz de comando e, além disso, sua falta quebra um pouco a estrutura da equipe, por seu entrosamento com os demais jogadores e por seu excelente toque de bola. Entretanto, não podemos ficar apavorados diante da possibilidade de perdermos um elemento valioso. É o risco que corremos numa guerra como a Copa do Mundo. De qualquer maneira, acredito piamente que o Gérson estará jogando com todas as suas forças contra os ingleses. Acho que se ele estivesse muito machucado, não poderia ter dado um carrinho como deu no tcheco, depois que nos avisou que havia sentido uma fisgada na coxa. Enfim, isso é inevitável”, falou o treinador do Brasil, ao Jornal dos Sports.

O médico Lídio Toledo falava que Gérson “tinha medo de injeção”, mas o jogador aceitou o tratamento para ter condições de entrar em campo e enfrentar a Inglaterra. Porém, na véspera do jogo, os jornais publicavam que o meio-campista seria poupado para não colocar em xeque sua sequência na Copa do Mundo. O próprio Lídio Toledo teria convencido Zagallo de que não valeria a pena arriscar, pensando no restante da competição.

De fato, o Gérson não jogou. Rivellino foi recuado na armação e Paulo Cézar Caju entrou pelo lado esquerdo no meio-campo. Os dois deram conta do recado na vitória por 1 a 0, gol de Jairzinho, na partida mais difícil do Brasil durante a Copa. Talvez o talento do Canhotinha na armação pudesse ter aberto caminhos contra a excelente zaga inglesa. “A falta de Gérson deu aos ingleses um domínio territorial de meio-campo, mas mesmo assim Félix não teve trabalho”, avaliou João Saldanha, no jornal O Globo. Cabe dizer também que Rivellino precisou jogar no sacrifício. O Patada Atômica torceu o tornozelo ainda no primeiro tempo, mas não quis sair por não haver outro jogador da função à disposição.

(Imago/Sven Simon/One Football)

Gérson, é claro, ficou mais tenso no banco. “Eu já não queria ter ficado ausente do jogo com os ingleses, mas o doutor vetou minha escalação. Sofri muito do lado de fora e, quando faltavam três minutos para o final, eu quase entro em campo com o Nocaute Jack [o roupeiro], que estava do meu lado, para antecipar o encerramento. Fumei 40 cigarros em hora e meia, e não fumei mais porque as vias respiratórias pareciam entupidas. Foi um sofrimento de louco, mas felizmente compensado pela grande vitória. Comigo não há problema, mas dependo mais do médico. O Doutor Lídio ainda não decidiu, mas acho que vou fazer outro teste. Por mim, reapareço logo. Do lado de fora é mil vezes pior”, afirmou, ao jornal O Globo.

Apesar do nervosismo, ao Jornal do Brasil, o Canhota minimizava a Inglaterra e avaliava o preparo físico do Brasil como fator essencial: “O time inglês só possui um grande goleiro, Banks; um ótimo zagueiro, Moore; um outro bom, que é o Cooper; e apenas um atacante que sabe driblar, Charlton. Os demais são apenas de razoáveis para fracos. Foi exatamente aquilo que esperava, jogadores que só sabem correr, mas não sabem como e quando. Por causa disso, já aos 30 minutos, estavam caindo aos pedaços com as mãos na cintura ou sentados de tão cansados. Falaram tanto sobre a preparação física dos europeus, mas até agora não vi nada. Os times que mais correm neste campeonato são os sul-americanos e principalmente o nosso, que é o mais bem preparado desse mundial”.

Também ao Jornal do Brasil, Gérson ainda guardou elogios ao seu substituto: “A partida que o Paulo Cézar jogou foi de uma perfeição impressionante, certo? Eu queria ver uma seleção qualquer colocar um jogador que estivesse na reserva e ele produzisse como o Paulinho produziu. Isto demonstra o excelente preparo físico do nosso time, além da condição técnica de cada um, perfeitamente entrosados dentro daquilo que o técnico quer”.

Com a classificação encaminhada, Gérson também se ausentaria da partida contra a Romênia, no fechamento da fase de grupos. Zagallo tinha razão em sua precaução, como afirmou em entrevista ao Jornal dos Sports: “Se fôssemos disputar o jogo final da Copa, Gérson e Rivellino jogariam. Mas como ainda temos muito esforço pela frente, acho preferível não expor ninguém à hipótese de ter sua contusão agravada”. Piazza foi adiantado à cabeça de área, ao lado de Clodoaldo, e Paulo Cézar Caju manteve seu lugar no meio. E, apesar de certas dificuldades impostas pelos romenos, o Brasil venceu por 3 a 2 para manter os 100% de aproveitamento. Foi até bom que Gérson e Rivellino não tenham jogado, considerando a violência dos adversários, com entradas duras ao longo de toda a partida.

(Imago/Sven Simon/One Football)

O Brasil encararia o Peru nas quartas de final. E a boa notícia estava na recuperação de seus talentos no meio-campo. Gérson estava empolgado com suas perspectivas. No dia seguinte à vitória sobre a Romênia, o Canhotinha acordou mais cedo e pediu uma sessão extra de exercícios ao preparador físico Admildo Chirol. Queria estar na melhor forma possível. “Acho que ganharemos domingo do Peru, como insisto que só perderemos esta Copa por azar. Mas como temos de admitir o azar no futebol, acho que não posso ficar de fora contra os peruanos, sob o risco de voltar para o Brasil por um imprevisto qualquer, sem ter tentado garantir a passagem às semifinais”, apontou o meio-campista, ao Jornal dos Sports.

“Uma coisa é segura, se por acaso voltar a sentir a coxa no decorrer do jogo: será minha despedida da campanha, pois francamente não suporto mais o tratamento de toalhas quentes que tive que fazer para poder estar em condições de jogar amanhã. O Peru tem uma boa equipe e estão orientados por um treinador que é capaz de levá-los até o fim fazendo bonito. Os peruanos são da mesma escola que a nossa e acredito que nesse jogo não existirá facilidade para um lado ou outro. Penso que será um jogo ruim para o público, pois acho que uma seleção jogará sempre com receio da outra e nenhuma se lançará ao ataque com tanta disposição. Não parece ser um jogo de muitos gols”, complementou Gérson, a’O Globo.

A partida contra o Peru seria especial a Gérson também pelo encontro com Didi, técnico da Blanquirroja. Zagallo comentava sobre essa transição entre os ex-jogadores do Botafogo: “Talvez Didi não conte isso, mas creio que ele aprendeu muito com Zizinho e Jair, pois me recordo que diversas vezes conversando com ele, Didi citava os dois meias para defender certas teses de jogadas do meio-campo. É como o Gérson hoje. Ele tem muito de Didi e muito de Jair e Zizinho também. Esses jogadores fizeram escola e imitá-los é uma virtude, não uma tapeação”.

Em sua coluna no Jornal dos Sports, Zizinho também exaltava o encontro. E com propriedade, já que a camisa 8 do Brasil havia sido sua até a Copa de 1950: “Coube a mim apossar a camisa 8 em 1942 e por muitos anos lutei com o maior ardor por nossas cores. Se não dei muitas glórias à minha terra, não foi por falta de vontade ou combatividade. Meu sucessor foi Didi, que começou a vesti-la em 1952. Portanto, seis anos depois com a camisa 8 ele foi à Suécia para trazer o primeiro campeonato mundial para o Brasil, indo mais tarde, em 1962 no Chile, para conquistar o bi. Passaram-se dez anos e, a partir de 62, depois do Mundial, a camisa 8 passou para Gérson, conterrâneo que é o fiel da balança do time brasileiro, verdadeiro coordenador das nossas três linhas. Agora, o destino nos proporciona uma surpresa aqui em Guadalajara, cada um em uma função diferente, mas infinitamente ligados à Copa”.

(Imago/Sven Simon/One Football)

A previsão de Gérson, de que o Brasil x Peru seria uma partida pouco atraente aos torcedores, não se cumpriu. A Seleção venceu por 4 a 2, numa tarde em que a Blanquirroja apresentou suas ameaças. E o cartão de visitas dado pelo Canhotinha, de que realmente voltara à Copa, não tardou. Em meio à pressão inicial dos brasileiros, o camisa 8 arranjou um lançamento açucarado no peito de Pelé, que passou pela marcação, mas acertou a trave. O primeiro gol não demorou, aos 11, anotado por Rivellino. Logo depois, Tostão ampliou. Aos 28, Alberto Gallardo descontou aos peruanos e os recolocou no jogo.

Gérson fazia uma boa partida em sua volta. Mesmo sem participar diretamente dos gols, controlou o meio com sua saída de bola perfeita, ao lado do termômetro Clodoaldo. Mas o destaque do Brasil foi mesmo Tostão, que anotou também o terceiro gol, no segundo tempo. Pouco depois, Zagallo repetiu a alteração da estreia, com Paulo Cézar Caju no lugar do Canhotinha. Na reta final do jogo, o Peru descontou novamente com Teófilo Cubillas e, aos 30, Jairzinho recebeu um lançamento “à Gerson” de Rivellino para fechar a contagem. A Seleção passava às semifinais.

Segundo a avaliação do Jornal dos Sports, Gérson foi um dos melhores em campo contra o Peru: “Preciso nos lançamentos e na cobertura à frente da zaga. É o cérebro do time. Seu substituto, Paulo Cézar, não produziu tanto quanto ele”. Quem também o elogiava era o técnico adversário, Didi, apesar de uma pontinha de crítica à defesa: “Não quero desmerecer estes jogadores, mas o próprio Zagallo sabe que eles não estão firmes, tanto que obriga o Gérson a jogar recuado, fechando a frente da área. A verdade, porém, é que o meio-campo excelente e o ataque, onde todos estão jogando uma enormidade, suprimem as falhas”.

Um detalhe curioso daquela partida é que a substituição de Gérson, na verdade, foi um erro de Pelé. O Rei viu o Canhotinha de Ouro gesticulando e achou que outra vez ele sentira a coxa. Avisou o banco de reservas e Zagallo preparou a troca. O maestro, contudo, estava ótimo. “Eu estava era pedindo gelo para matar a sede danada que sentia e nem pensava no meu músculo. Queria continuar jogando até o fim e só aceitei minha saída por precaução e porque o Paulinho já estava aquecido”, explicou Gérson, ao Jornal dos Sports.

(Imago/Sven Simon/One Football)

Apesar da recuperação, Gérson ainda merecia cuidados especiais e era acompanhado de perto pelo médico Lídio Toledo. Porém, mesmo com pequenas dores na coxa, o Canhotinha se recusava a colocar toalhas quentes no local como parte do tratamento: “Não saio dessa. Já não tenho escolha: ou dá para mim ou arrebento o músculo. Se arrebentar, que se dane, depois eu curo. Não há mais tempo para pensar em consequências”.

Na semifinal, o Brasil pegaria o Uruguai. O duelo era rodeado pelas memórias do Maracanazo, 20 anos depois da dolorosa derrota no Mundial. E Gérson tinha motivos para querer jogar a todo custo, já que aquele passado estava presente em sua mente. Com nove anos durante a Copa de 1950, o garoto já era apaixonado por futebol e frequentou o Maracanã durante a competição. Das arquibancadas, ele assistiu às famosas ‘Touradas de Madri’, a goleada por 6 a 1 sobre a Espanha que antecedeu o trauma contra os uruguaios. O jovem Canhotinha, ao menos, acabou poupado de ver o gol de Alcides Ghiggia durante a partida decisiva.

“Chorei em casa quando papai não me deixou ir junto para ver a decisão com o Uruguai. Ele disse que era muito perigoso, que poderia ocorrer algum acidente comigo. Por isso me conformei e permaneci em casa. Foi até bom. Não gostaria de ver o Brasil perder o título no Rio. Aquela derrota nos serviu de lição. Creio que o futebol brasileiro já superou essa fase há muito tempo – se não me engano, no Sul-Americano de 59, em que ganhamos deles na bola e no pau. Psicologicamente, não influirá em nada. Eles poderão fazer o diabo, que vamos fazer tudo para vencê-los, sem nos preocuparmos com a possível catimba”, rememorou, ao Jornal dos Sports.

O cérebro da Seleção de 1950, Zizinho, ajudaria Gérson na preparação para encarar o Uruguai. Os dois estavam ligados não apenas pelo número 8 às costas. Ambos moravam em Niterói e Mestre Ziza conheceu o Canhotinha ainda menino, já que era amigo de seu pai, Clóvis Nunes. Segundo o Jornal dos Sports, Zizinho visitou a concentração brasileira algumas vezes antes da semifinal: “Nas horas difíceis que antecedem o jogo com os uruguaios, quem mais procurou amparo na experiência do Mestre Ziza foi Gérson. […] Sempre que podem, batem papos sobre futebol. Explica-se, portanto, a insistência com que Gérson busca os conselhos de Zizinho, que a todo momento é chamado à concentração do Brasil. Depois do jogo contra o Peru, o secretário da comissão técnica foi duas vezes ao hotel de Zizinho, a pedido de Gérson, que desejava ouvir uma palavra de Mestre Ziza sobre o jogo de hoje”.

(Imago/Sven Simon/One Football)

Gérson teria vida dura contra o Uruguai, assim como toda a seleção brasileira, apesar do placar de 3 a 1 transmitir outra impressão. O Canhotinha sofria uma implacável marcação individual, tal qual Pelé, o que impedia a construção dos ataques. E a Celeste aproveitou o início superior, ao abrir o placar com Luis Cubilla aos 18. O gol baqueou o Brasil, que era ameaçado pelos uruguaios. A Canarinho só melhorou no fim do primeiro tempo. Para tanto, Clodoaldo contribuiu ao se soltar mais, com Gérson travado pelas linhas de marcação adversárias. Seria do camisa 5 o gol de empate, pouco antes do intervalo.

O Brasil voltou melhor ao segundo tempo, com a participação ativa de Pelé. Gérson também começou a aparecer mais, jogando um pouco recuado para escapar dos defensores e armar as jogadas – o que soltava mais Clodoaldo. A virada, ainda assim, só veio aos 31 minutos. Pelé construiu a jogada em que Tostão deu o passe para Jairzinho marcar. Gérson teve a chance do terceiro pouco depois, em chute de longe que exigiu ótima defesa de Ladislao Mazurkiewicz. O Uruguai também quase empatou, num lance salvo por Félix. A confirmação da vitória só veio no finalzinho, num contra-ataque, com o passe de Pelé para Rivellino fuzilar.

Gérson fez uma partida mais tímida que nas quartas de final. Mesmo assim, recebia a exaltação na avaliação do Jornal dos Sports: “O cérebro da vitória brasileira no segundo tempo. Quando tinha que lançar, lançava; quando tinha que acalmar, acalmava. Comanda tudo, da defesa ao ataque. É uma das maiores estrelas do Brasil. No primeiro tempo omitiu-se”.

Também ao Jornal dos Sports, Gérson comentava sua atuação: “Este mesmo time que todo o Brasil aplaude é o mesmo que saiu desacreditado, com muitos afirmando que nós jamais passaríamos da fase de grupos. Provamos que somos bem melhores do que pensavam. Agora, queremos e temos de levar a taça de vez para o Brasil. Temos condições para isto, mesmo respeitando o nosso adversário. Fui obrigado a jogar mais plantado, porque o Cortés jogou colado comigo sem dar possibilidade de penetrar. Se fosse para frente, seria mais um defensor na área deles. Por isso, o Clodoaldo jogou mais solto e acabou conseguindo o empate”.

(Imago/Sven Simon/One Football)

Um detalhe legal, aliás, era o entendimento entre Clodoaldo e Gérson. O camisa 5 sabia que poderia contribuir se subisse mais ao ataque, como aconteceu contra o Uruguai, mas reconhecia que Gérson era mais apto como maestro. “Acho que é até mais fácil jogar avançado, além de aparecer muito mais em campo. Contudo, já estou acostumado ao sacrifício lá de trás e, modestamente, os zagueiros também se acostumaram comigo ali na frente. Nós estamos na hora da sensatez. É evidente que gostei de jogar mais avançado contra os uruguaios. Fiz até um gol e mostrei a todos que me criticavam que também sei chutar em gol. Contudo, por que iremos sacrificar o Gérson, se ele é muito mais útil armando o time?”, analisou, ao Jornal do Brasil.

Na decisão, o Brasil enfrentava a Itália. Na partida entre bicampeões, que definiria a posse da Taça Jules Rimet, o Canhotinha exerceria posição central. O técnico da Azzurra, Ferruccio Valcareggi, dizia “não se impressionar tanto” com o armador – reservando mais elogios a Pelé e Tostão. O camisa 8 provaria em campo como o estrategista adversário estava errado, pela maneira como organizou o esquadrão em sua apoteose.

Às vésperas da partida no Azteca, Gérson concedeu uma longa entrevista ao Jornal do Brasil. Falava sobre o seu calvário físico e a maneira como via aquele Mundial como a grande chance de sua carreira: “Eu sei perfeitamente que esta é a minha última chance de ser campeão do mundo e vim para cá disposto a fazer qualquer sacrifício para ganhar. A perna, no entanto, ia me traindo. Começou nos treinos de Guanajuato, me obrigando a ficar fora dos treinamentos. Lembro que engordei três quilos e fiquei tão desesperado que nem quis esperar pelo treino especial que o Chirol ia fazer comigo. Passei três dias praticamente sem comer até voltar a meu peso. Depois, quando parecia que tudo tinha passado, senti novamente a coxa no jogo contra a Inglaterra. Tentei voltar contra a Romênia e não foi possível. Desesperado, disse a Zagallo e a Coutinho que, se voltasse a sentir no jogo contra o Peru, largava tudo e me mandava para o Rio. Felizmente o pior passou, aguentei firme contra os uruguaios e me sinto em ótimas condições”.

O Canhotinha também exaltava a maneira como o time de Zagallo funcionava coletivamente: “Individualmente, pode ter havido outras seleções com mais craques, principalmente a do bicampeonato, que tinha Garrincha, Nilton Santos, Didi, Gylmar, Djalma, Zito, tudo cobrão. Mas, como conjunto funcionando em campo, com a unidade desta acho difícil. A nossa grande força e a minha confiança na vitória estão aí. Este time vem jogando por música, um entende perfeitamente o outro e, como tem um preparo físico bárbaro, todos dão o máximo, cobrindo todos os espaços do campo”.

(Imago/Sven Simon/One Football)

Além disso, para Gérson, outro ponto forte do Brasil era a humildade do grupo de craques: “Antigamente dizia-se que a Seleção jogava para o Pelé, mas quem está acompanhando os jogos tem visto que é o Pelé que está jogando para a Seleção, dando ajuda a todos os setores do time, não parando em campo. No jogo contra o Peru, quando eu saí, os peruanos forçaram um pouco as jogadas pelo meio e acabaram fazendo o segundo gol. O Pelé percebeu e foi fechar o espaço, descendo e passando a jogar junto à nossa linha de zagueiros. Essa humildade, esse desprendimento, é de todos”.

O jogo contra a Itália também guardava um encontro particular a Gérson. O meio-campista era amigo de Gianni Rivera, visto como o mais refinado dos jogadores italianos, embora fosse reserva durante a competição. Os dois se conheceram nos Jogos Olímpicos de 1960. “Desde então, Rivera e eu fizemos amizade e outro dia um jornalista italiano veio me dizer que, com uma entrevista, eu ajudei o Rivera a voltar à equipe, pois o treinador estava meio brigado com ele. Como eu disse, e é isso mesmo que penso, um jogador com a categoria de Rivera não pode ficar fora de uma seleção”, contou o camisa 8, ao jornal O Globo.

Na antevéspera da final, Gérson voltou a encarar entraves físicos. Desta vez, não era mais a coxa que preocupava. O meio-campista sofreu um problema gastrointestinal, que o tirou do treino e o fez perder um quilo. Não era isso, porém, que o impediria de entrar em campo no Azteca com o sol escaldante. A fome de bola do Canhotinha era máxima.

“Será um jogo dificílimo. Para mim, será o maior jogo da história do futebol. Estou disposto até a estourar os músculos em troca desse título. Ele é a suprema aspiração da minha vida, como é também a suprema aspiração da torcida brasileira. Estamos preparados para a vitória. Por falta de espírito de luta e de sacrifício ela não deixará de ser nossa. Temos uma responsabilidade imensa perante o povo brasileiro, que nos acompanha de longe, com o pensamento voltado para nós. Este povo merece os maiores sacrifícios do time e o time está disposto a estes sacrifícios”, declarou Gérson, ao Jornal dos Sports.

(Imago/Sven Simon/One Football)

A final guardou a melhor atuação de Gérson na Copa de 1970. E não seria exagero dizer que o Canhotinha terminou a partida no Azteca também como o melhor em campo. A fluidez do Brasil era ditada por seu pé esquerdo, enquanto o camisa 8 também preenchia com vigor a faixa central e ajudava a proteger a defesa. O Brasil começou tomando a iniciativa e o meio-campista coordenava as jogadas, aproveitando bastante a liberdade de Carlos Alberto Torres pela direita, com lindas inversões. Só que estava difícil arranjar uma brecha em meio à marcação cerrada da Itália. Com o amigo Rivera no banco, o lendário Sandro Mazzola realizava um trabalho mais físico como meia e colava no maestro brasileiro para tentar inibi-lo.

A Itália equilibrava a partida, quando Pelé acertou uma cabeçada feroz para abrir o placar aos 18 minutos. O Brasil fugia um pouco de suas características na primeira etapa, ao apostar mais nas bolas alçadas. Gérson contribuía, com Rivellino recuando para ajudá-lo na armação. Contudo, aos 37, a Itália empatou numa sucessão de erros brasileiros. Roberto Boninsegna aproveitou para marcar.

Na volta à etapa complementar, o Brasil tentou pressionar mais. Encontrava uma Itália fechada na defesa e pronta para ameaçar nos contra-ataques. Mas, importante, a Seleção começou a ganhar terreno com o passar dos minutos. Cada vez mais, empurrava a Azzurra contra a parede. Gérson subia mais ao ataque e se aproximava da área. O Canhotinha fazia um segundo tempo soberbo, com mais liberdade, e conduzia as jogadas com extrema categoria. Foi graças a ele que a vitória se abriu, a partir dos 21.

Gérson iniciou a jogada com uma bela inversão a Everaldo. O lateral passou a Jairzinho, deslocado pela esquerda. O Furacão partiu em diagonal e entregou a Gérson mais atrás. O camisa 8, então, foi inteligente para inverter a direção da jogada – o que deixou o líbero Pierluigi Cera perdido à sua frente. Puxando à esquerda, Gérson pôde soltar o canhotaço da entrada da área e o tiro cruzado morreu no canto, sem chances ao goleiro Enrico Albertosi. Os tricampeões se agigantariam a partir daquele instante.

A Itália sentia o cansaço e o Brasil iniciaria de vez o seu show. Gérson também participou do terceiro gol, aos 26. O camisa 8 descolou um lançamento absurdo, que atravessou todo o campo de ataque. A bola veio na cabeça de Pelé, que centrou para Jairzinho e o ponta finalizou. A partir de então, a Seleção jogaria por música. Enquanto Clodoaldo se soltava para acelerar as transições, Gérson fazia a bola correr com seus passes. O Canhotinha apresentava um futebol encantador, entre sua cadência e suas flutuações mais à frente. A participação do camisa 8 no quarto gol, o lendário gol de Carlos Alberto, foi até tímida. Ele dá o passe para Clodoaldo enfileirar os marcadores com seus dribles no campo de defesa. O ponto final grandioso da Copa de 1970, de qualquer forma, não precisava do carimbo de Gérson. Seus 90 minutos contra os italianos haviam beirado a perfeição.

(Imago/Sven Simon/One Football)

“Foi uma vitória completa, do início ao fim. Uma seleção que saiu desacreditada e combatida por muitos, principalmente porque na televisão diziam que o melhor futebol do mundo era o inglês, volta campeã, provando o valor de uma geração. Acho que o placar de 4 a 1 diz tudo”, comentou Gérson, ao jornal O Globo.

Os jornais eram unânimes sobre a exibição de Gérson. “Talvez sua melhor atuação em toda a Copa. Estava em toda parte, combatendo e armando o time. Mais uma vez foi o cérebro da equipe, com seus passes precisos e sua vontade de vencer. Ótimo, ontem”, escreveu o Jornal dos Sports. O Jornal do Brasil dizia: “Voltou a ser o comandante da equipe. Ontem, ele fez tudo bem e corajosamente. O segundo gol do jogo, o do desempate, não seria justo se não fosse marcado por ele”. Já o Estadão exaltava: “Fez de tudo, a começar pelo comando que exerceu, dando orientação aos companheiros, graças à sua maior experiência. Marcou o segundo gol, fato que deu novo ânimo aos companheiros. Esteve em todos os cantos do campo, surpreendendo o público, pois mostrou um fôlego de jovem”.

O maior elogio seria da Folha de S. Paulo: “Pode, tranquilamente, descalçar as chuteiras e mandar dourá-las e colocá-las em seu salão de festas, para veneração pública. Quando viu que os italianos estavam dando uma de porteira fechada, se mandou para frente e descarregou o bote, um pouco serpente, um pouco tigre. Uma fera. Foi o homem que deu o sinal para calibrar as baterias. Incansável, clássico, arrojado, magistral. Depois do maravilhoso gol que marcou, que tirou o coração da boca de todos os brasileiros, abriu atrás de si uma esfera de luz, por onde toda a equipe corria em levitação”.

Gérson ainda conquistaria outro título na sequência de 1970, o Paulistão, que encerrou um jejum de 13 anos do São Paulo no estadual. O Canhotinha de Ouro permaneceria intocável nas partidas da Seleção até 1971 e, depois de se transferir ao Fluminense, também disputou mais alguns jogos em 1972. A última de suas 87 aparições aconteceu contra Portugal, em vitória brasileira por 1 a 0. Como havia previsto no México, o camisa 8 não disputaria outra Copa. Nem precisava. O que fez ao longo do tri já tinha garantido sua eternidade.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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