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As mãos de Prass anularam o sacrifício de Fred e levaram o Palmeiras à final da Copa do Brasil

O Palmeiras tem uma relação particular com seus goleiros. No hall de ídolos, figuram Oberdan Cattani, Valdir Joaquim de Moraes e Leão. Há um carinho especial por Velloso e até Sérgio, titular no Brasileirão de 1993 e o reserva que dava conta no recado durante boa parte da sua carreira. Marcos é canonizado. Não deixa de ser simbólico, nesses primeiros passos ainda tímidos que o clube dá para retomar um pouco da sua história gloriosa, que a classificação para a final da Copa do Brasil tenha sido conquistada pelas mãos, primeiro a esquerda e depois a direita, de Fernando Prass.

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Prass foi o gigante que saiu triunfante do Allianz Parque, mas não foi o único que merecia os louros da vitória. Fred, 32 anos, sete deles dedicado ao Fluminense, jogou através da dor durante 90 minutos, mancando e dando ordens aos companheiros. No primeiro confronto direto entre os dois, o atacante venceu e marcou o gol que levou a partida à loucura dos pênaltis. No segundo, a mão esquerda de Prass negou a Fred, já nos acréscimos da etapa final, o gol que o eternizaria ainda mais na história do clube carioca. O terceiro estava marcado para a última cobrança prevista antes das alternadas, se elas fossem necessárias, mas a mão de Prass, desta vez a direita, no chute de 11 metros de Gustavo Scarpa, impediu que ele acontecesse. Pelo sacrifício e dedicação, Fred merecia o tira-teima.

No primeiro tempo, Marcelo Oliveira tentou encontrar soluções para os principais problemas que o Palmeiras vem apresentando na temporada. Matheus Sales foi titular ao lado de Amaral para cuidar da saída de bola, e Robinho voltou à armação. Zé Roberto de lateral esquerdo é sempre um risco (guardem essa informação), mas também melhora o toque de bola. Funcionou em termos. Nos primeiros dez minutos, o time da casa já abusava dos chutões e dos cruzamentos, porém a primeira grande chance de gol saiu com a bola no chão. Dudu deu um belo passe para Robinho, que tentou tocar na saída de Cavalieri e parou em grande defesa do ex-palmeirense.

De qualquer maneira, o Palmeiras parecia um pouco mais no controle da partida do que no Maracanã ou mesmo em jogos recentes dentro de casa, contra Ponte Preta e Sport. Robinho tinha muita influência nisso. O time da casa correu riscos apenas nas bolas paradas do Fluminense, como em um desvio de Marlon que exigiu linda defesa de Fernando Prass e uma cabeçada de Cícero, na segunda trave. No geral, a marcação estava melhor que no Maracanã, resultado de um time mais bem posicionado que não precisava correr atrás do adversário.

Os gols do primeiro tempo, porém, saíram da maneira com a qual o Palmeiras mais vem conseguindo ser perigoso na temporada. O primeiro foi fruto de uma bola parada, cujo rebote encontrou Robinho na linha de fundo. O meia teve o mérito de acreditar que evitaria o tiro de meta e de cruzar na medida para Barrios desviar, meio de calcanhar, meio de qualquer jeito. O segundo foi em uma bola enfiada para Gabriel Jesus se enrolar com Wellington Silva. Houve a falta, mas a queda pareceu ter começado fora da área e terminado dentro dela. Daronco apontou à cal, e Zé Roberto foi mais uma vez para a cobrança. Cavalieri defendeu, e Barrios conferiu no rebote.

Tudo isso aconteceu em um intervalo de dois minutos, o que deixou o Fluminense atônito. Com exceção das bolas paradas, o Palmeiras era pouco ameaçado, com Fred ainda baleado da lesão que contraiu no Maracanã, e Marcos Junior bem marcado por Zé Roberto na ponta direita. O passe de Cícero encontrava Gustavo Scarpa no outro lado do campo, mas as jogadas não prosseguiram.

O Palmeiras parecia tranquilo com a vantagem no placar, mas vários fatores entraram em ação quase ao mesmo tempo para mudar o panorama do jogo. O primeiro deles foi a alteração ousada de Eduardo Baptista, que tirou Breno Lopes, puxou Gustavo Scarpa para trás e colocou Osvaldo em campo para reforçar o poderio ofensivo. O time da casa recuou, por ordem de Marcelo Oliveira, para buscar o contra-ataque e matar a partida. Poderia funcionar, mas era mais um risco. Isso chamaria o Fluminense para o seu campo e permitiria uma pressão que seria difícil de resistir por 45 minutos. Robinho, voltando de lesão, saiu na metade do segundo tempo, e Zé Roberto começou a sentir o peso dos 41 anos.

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O Fluminense teve competência para pressionar durante 25 minutos e, enfim, conseguir o gol que levou a partida aos pênaltis. E tinha que ser com o seu principal jogador e líder. Fred mal conseguia correr, mancava e aparentava dor em cada movimento. Mas ele não precisa se mexer muito. Precisa se mexer certo e aproveitar as chances. Gérson foi lançado na ponta direita, e ainda ninguém sabe onde estava Zé Roberto. Vitor Hugo teve que sair da sua posição para marcar o jogador adversário e, afobado, levou o drible fácil. O cruzamento saiu preciso para Fred se desvencilhar da marcação e cabecear no canto de Fernando Prass.

Sem Robinho no meio-campo, e desesperado, o Palmeiras voltou a ser o time que só chuta a bola para frente e reza. Foram 58 lançamentos e apenas 16 corretos. Naturalmente, a estratégia não funcionou, e um segundo gol do Fluminense parecia questão de tempo. Quase se concretizou, aos 47 minutos da etapa final, quando um cruzamento da direita passou por toda a defesa alviverde e caiu nos pés de Fred. Justo nos pés de Fred. O atacante buscou o contrapé de Fernando Prass, com um firme chute de chapa, mas o goleiro conseguiu se recuperar e barrou a bola com a sua mão esquerda.

Pênaltis. E quando eles começam a ser batidos, outros vários fatores começam a valer: pernas cansadas e descansadas, psicológico, treinamento e, claro, goleiro. Rafael Marques converteu, assim como Jean. Jackson bateu bem no canto e chegou a vez de Gustavo Scarpa. O canhoto tentou chutar cruzado, e Prass estava esperto. Pulou para o lado certo e, no meio do caminho, desviou com a mão direita. Na sequência, Cristaldo conferiu o seu, e Gum tentou bater com uma mescla de cavadinha e chute colocado que passou por cima do travessão. Allione teve nos pés o gol da classificação e não decepecionou.

O Fluminense foi muito valente desde as quartas de final contra o Grêmio, na verdade, e foi melhor no primeiro tempo do Maracanã e no segundo no Allianz Parque. O Palmeiras jogou mais nos outros, embora, em uma avaliação geral dos 180 minutos, os cariocas tenham tido mais bons momentos do que os paulistas. Foi, porém, um confronto equilibrado e decidido nos detalhes. Em dois detalhes: as mãos direita e esquerda de Fernando Prass. O goleiro agigantou-se nas cobranças de pênaltis como fez na semifinal do Paulista, contra o Corinthians. Mas, diante do Santos que atropelou o São Paulo, passou pelo Corinthians e está voando na temporada, principalmente na Vila Belmiro, suas defesas talvez não sejam suficientes. O Palmeiras precisa jogar melhor para ser tricampeão da Copa do Brasil.

 

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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