Brasil

Ary Vidal; a morte do gênio e da verdade única

David Robinson ainda não era o que viria a ser: bicampeão olímpico, dois anéis da NBA, campeão do mundo, ainda não era o Almirante. Mas, dois meses antes, havia sido escolhido pelo San Antonio Spurs, onde construiria sua carreira. Mas, naquele 23 de agosto de 1987, David Robinson era apenas um gigante de 2m16 e 22 anos, impotente, chorando na sala da minha casa, ali na rua Delfina, na Vila Madalena.

Ele e outros negões enormes mostravam a mim e ao mundo que o impossível podia acontecer. A cara era de perplexidade, o olhar ia do chão para o placar e para a quadra, onde o Exercito Brancaleone brasileiro, de Ary Vidal, Oscar e Marcel, comemorava com riso e choro a festa do Brasil medalha de ouro no Pan de Indianápolis, após 120 x 115 nos Estados Unidos.

“Dentro da casa deles, dentro da casa deles”, gritava Carlos Henrique Bacci Símon, o Passional. Na verdade, justiça seja feita, foi o único a acreditar sempre. Os outros moradores da república, já haviam abandonado o jogo ali no primeiro tempo, quando o placar era de 14 pontos para eles. Ou um pouco depois, quando chegou a 20. Eu, Serginho Garrido, o querido Kavuco, Beatriz , Cristiano e Márcia, que não morava lá, mas já morava no meu coração, estávamos fazendo outra coisa, muito provavelmente ajudando Cris a fazer o almoço. Como cozinha esse meu primo,  historiador de primeira.

O aviso veio de uma maneira tímida. “Gente, o Brasil tá dando um calor nos caras, tá quase empatado”, disse o Passional. E a sala ganhou aluguns torcedores a mais. O ceticismo ida dando lugar a uma alegria incontida. Quando ultrapassamos, provavelmente com uma bola de três de Oscar ou Marcel, virou catarse. Cristiano largou a comida e também chegou. Ele não é de esporte, não sabe a diferença entre uma cesta e um gol, mas vibrou como nunca.

De repente, gritou. “Gente, com quantos pontos termina um jogo, não tô aguentando essa aflição”? Levou uma vaia por confundir basquete com vôlei e nem ligou. Só voltou a falar quando soltou um “abaixo o imperialismo” justamente no apito final do jogo.

Um jogo que não vai acabar nunca. Foi a primeira grande derrota dos EUA. Primeira de uma série, pois perderam a Olimpíada de 88, perderam o Mundial de 90 e resolveram mudar a forma de encarar as competições. Assim, nasceu a ideia do Dream Team de 1992.

O Brasil ganhou na base da bola de três pontos. Oscar acertou sete. Fez 46 pontos no jogo. Marcel, 31. Um total de 77 pontos, presente em contagens totais nos jogos de hoje. Desses 77 pontos, 55 foram conseguidos no segundo tempo. Era cesta em cima de cesta. Ataque pelo ataque, em um jogo suicida. Muita gente diria depois que o Brasil praticou jumpingbol e não basquetebol naquele dia.

Típico de quem só acredita em uma verdade única. Em um modo de ser ver a hístória. É lógico que o basquete é “defense, defense, defense” e que o basquete brasileiro só agora passou a acreditar efetivamente nisso. Agora, não, há algum tempo, mas só com Magnano, a teoria está virando prática.

Mas, daí, como já ouvi, dizer que Oscar era apenas um arremessador, que nunca jogaria na NBA (o Steve Kerr não jogou?), e que aquela vitória do comandante Ary Vidal foi um atraso, foi algo que atrasou a evolução do basquete, é uma bobagem, uma redução da história.

Ary Vidal, incensado agora em sua morte, foi criticado por sua vitória. Deve ter doído muito nele, alvo de uma tendência à autopunição que vejo em muitos de nós, brasileiros.

Alguns meses depois, terminei o curso de jornalismo. E fui fazedr um teste no Popular da Tarde. Cobri, na Usp, o primeiro treino da seleção de basquete, convocada novamente após a vitória histórica. Fui no jornal e escrevi a matéria. No outro dia, comprei o jornal e ela estava lá, publicada. Só depois me avisaram que estava contratado.

Três anos depois, estava no Pan de Havana. Conversei com Ary Vidal. E ele disse que o Brasil era um time vocacionado para o ataque. Sabia atacar melhor que os outros. Os outros sabiam defender melhor que o Brasil. Então, só haveria chances de vitória atacando sempre.

Foi um raciocínio que me convenceu. Hoje, penso diferente. Mas não a ponto de desrespeitar aquele homem, que desaparece fisicamente nesses dias, mas que foi responsável por uma das grandes alegrias da minha vida. Não só esportiva. 

Ary Vidal foi grande. Na vida e não apenas na morte.

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