Árvores caem na floresta

“Se uma árvore cai na floresta e não há ninguém por perto para ouvir, a queda faz barulho?” A pergunta filosófica, feita a partir de um raciocínio publicado por George Berkeley em “Tratado sobre o Princípio dos Conhecimentos Humanos”, motivou uma série de linhas de raciocínio. Mas o princípio básico é: como sabemos que algo existe se ninguém pôde conferir?
Os Estados Unidos ficaram escandalizados nas últimas semanas, quando perceberam o tamanho do barulho que poderia acontecer sem o conhecimento do público. Jerry Sandusky, ex-técnico de defesa do time de futebol americano da Penn State University (uma das mais tradicionais do esporte americano), foi indiciado por pedofilia. Ele teria, usando a ligação histórica com a instituição e sua fundação para menores carentes, entrado em contato e molestado garotos durante anos.
Para aumentar o escândalo, descobriu-se que Mike McQueary, um assistente técnico, havia testemunhado um dos casos em 2002 e informado Joe Paterno. Mais que técnico do time, Paterno é um símbolo da PSU. Ele comandava o time de futebol americano há 45 anos, uma dedicação que lhe valeu uma estátua no campus. O treinador repassou a informação à cúpula da universidade, que aplicou uma punição interna a Sandusky. Quando o público foi informado dos detalhes, a casa ruiu. Não bastava punição interna. Pedofilia é caso de polícia: Sandusky irá a julgamento, Paterno perdeu o emprego pela negligência e McQueary é atacado por não ter impedido fisicamente a ação de seu chefe em 2002.
As equipes esportivas se estruturam como batalhões militares. Os problemas são resolvidos internamente, atitudes socialmente condenáveis são aceitas se não atrapalharem o desempenho em campo e “vazar” uma informação é tão ou mais grave quanto a infração que foi vazada. É o código de ética. Mas há limites, situações tão graves que devem passar por cima de qualquer “regra não escrita” ou “acordo de cavalheiros” entre esportistas. A Penn State University – da diretoria da faculdade à comissão técnica do futebol americano – descobriu isso.
No Brasil, a atitude ainda é ficar longe da floresta, e não saber se a árvore produz som ao cair. Em 24 de outubro, o ex-jogador e atual comentarista Neto disse, em entrevista a Débora Bergamasco, do jornal Estado de São Paulo, que a pedofilia é comum nas categorias de base do futebol brasileiro. “Muita gente usa o poder como diretor, como técnico, como outras coisas, para usar do benefício sexual com os meninos”, afirmou. Segundo ele, garotos vindos de outros estados têm de ter relações sexuais com dirigentes para receberem oportunidade em um teste no time. A prática seria comum no Brasil inteiro. “É uma coisa muito séria, que o ministro dos Esportes e as autoridades deveriam olhar mais.”
Não seria a primeira vez que esse tema aparece. Em dezembro de 2007, nas vésperas da eleição presidencial no Coritiba, o presidente Giovani Gionédis espalhou gravações em que um jogador da base coxa branca diz ter se envolvido com o candidato de oposição, Domingos Moro, para ter oportunidade no time principal. No mês anterior, Severino Oliveira, pai do meia Willian (hoje no Shakhtar Donetsk e na Seleção) havia dito que não saía de perto do filho quando ele estava na base do Corinthians. Como Neto, ele também afirmou que esse problema é comum. “Essa história de adultos assediando meninos não é privilégio só do Corinthians. Em todos os clubes há gente importante que pode definir a carreira de um jogador tentando tirar proveito da pior maneira possível.”
Declarações não são suficientes para condenar ninguém. Podem ser acusações vazias e irresponsáveis. Mas o crime seria grave o suficiente para motivar investigação policial, certo? Nem tanto, pela atitude das autoridades. A reportagem da Trivela procurou Neto para saber se alguém havia entrado em contato e pedido mais detalhes sobre as acusações de pedofilia no futebol. “Nunca me perguntaram e não tenho medo que o façam. Essas atitudes têm que ser denunciadas.”
O promotor de Justiça Paulo Castilho (atualmente afastado para dirigir o Departamento de Defesa dos Direitos do Torcedor na Secretaria Nacional do Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor no Ministério dos Esportes), com atuação intensiva em temas ligados ao Estatuto do Torcedor, desconhece qualquer ação do poder público para investigar a pedofilia no futebol brasileiro. “Realmente nunca tive nenhuma notícia neste sentido. Me causam surpresa tais declarações”, comentou. “Mas os fatos são extremamente graves e devem ser apurados, sim.”
Devem, mas não foram ainda. Os clubes que têm conhecimento preferem ignorar, ou resolver internamente. Preferem abafar o barulho produzido pela árvore ao cair. Enquanto isso, a sociedade segue ignorando um fenômeno que, se confirmado, seria gravíssimo. E inaceitável.



