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Árbitros têm a razão de protestar, embora sejam pelegos da CBF e reprimam outros protestos

A 18ª rodada do Campeonato Brasileiro está sendo marcada por protestos dos árbitros em todos os jogos. Além de usarem tarjas pretas nos braços, os quartetos de arbitragem se estão se reunindo no círculo central antes do apito inicial, levantando a placa eletrônica com os números zero e cinco. Uma referência ao veto da presidente Dilma Rousseff ao item da medida provisória que dava a eles o “direito de arena”. A cláusula garantiria 0,5% dos direitos de transmissão de TV aos juízes, o que, segundo a Associação Nacional dos Árbitros de Futebol, significa de R$ 7 milhões a R$ 9 milhões. Perda notável à categoria.

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A manifestação é um direito garantido a qualquer cidadão. Quando se trata de uma briga pela melhora nas condições de uma profissão, então, se faz ainda mais pertinente. O dinheiro, uma pequena parcela no bolo distribuído aos clubes, poderia representar um aprimoramento nos serviços prestados pelos árbitros. Um passo importante mesmo para a profissionalização de categoria. Mais dinheiro também poderia significar uma melhor preparação da arbitragem brasileira, para tentar diminuir um problema evidente do futebol nacional – ainda que, diga-se, não é exclusivo dos juízes brasileiros. Nisto, os árbitros estão com toda a razão de protestar.

Entretanto, a postura dos árbitros se coloca um tanto quanto dissimulada. Afinal, eles são os principais representantes da CBF na repressão a outras manifestações dentro dos estádios. Muitas vezes, são eles que pedem para os torcedores retirarem faixas de protesto das arquibancadas. Como aconteceu, por exemplo, no Brasileirão de 2012, quando Leandro Vuaden atrasou por 15 minutos o início de um jogo do Náutico, até que removessem a faixa “Não irão nos derrubar no apito”.

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Da mesma forma, os juízes também não estiveram ao lado dos jogadores quando o Bom Senso Futebol Clube organizou suas ações no Brasileirão de 2014. No jogo entre Flamengo e São Paulo, Alício Pena Júnior ameaçou distribuir cartões amarelos a quem cruzasse os braços e se sentasse em campo. Então, os jogadores deram o pontapé inicial e começaram a rodar a bola sem objetivo, aplaudindo o ato depois de um minuto. O árbitro, por sua vez, fez papel de bobo, correndo de um lado para o outro do campo. E isso sem contar as inúmeras vezes em que há abuso de autoridade, em especial com as últimas recomendações. Neste final de semana, Antônio Trindade de Souza chegou ao absurdo de expulsar dois jogadores do Rio Branco do Acre no mesmo lance, apenas porque trocaram palavrões entre si. Algo do jogo.

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Durante o protesto no Couto Pereira, ao menos, os jogadores das duas equipes se solidarizaram aos árbitros. Palmeiras e Coritiba estão diretamente envolvidos na liderança do Bom Senso FC, o que explica um pouco a posição. No entanto, também é preciso criar um entendimento que as melhores condições para os árbitros melhoram o jogo como um todo. Assim como também melhorará como um todo se forem atendidas as demandas de jogadores e torcedores. Que este seja um passo inicial para os árbitros respeitarem o direito de manifestação das outras partes.

Além disso, a luta da arbitragem não pode parar apenas na insatisfação sobre o direito de arena. Afinal, o dinheiro para melhorar suas condições pode ser conquistado por outras vias. Como, por exemplo, junto à CBF e às federações estaduais – justamente as responsáveis por organizar as arbitragens. Será que, diante dos lucros recordes da entidade nacional, uma parte maior não poderia ser revertida aos árbitros? Seria um caminho para melhorar as condições da categoria, também negligenciadas pelos dirigentes. Mas este parece um passo muito grande aos árbitros, ainda orientados a atender os interesses de seus patrões de olhos vendados.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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