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Apesar do abraço, sem afagos: O que ficou da primeira coletiva de Tite na Seleção

Seria um tanto quanto utópico esperar que Tite entrasse na CBF com o pé na porta, enfatizando a posição contrária que manifestou à gestão da entidade há alguns meses, pedindo a renúncia de Marco Polo Del Nero. Mas também incomoda um pouco ver o técnico, em sua apresentação na seleção brasileira, sendo cortês com presidente da entidade e caminhando escoltado por tantos outros comensais do cartolismo nacional. O novo comandante chegou deixando clara, em suas palavras, uma quebra em relação ao que vinha sendo feito na equipe nacional e a fidelidade às suas filosofias. Ainda que não tenha manifestado de maneira escancarada os seus desacordos.

Saindo pela tangente, mas sem afagar

Durante parte de sua primeira entrevista coletiva como treinador da Seleção, Tite serviu de para-raios. O gaúcho foi confrontado sobre os novos patrões e o entendimento sobre a maneira como o futebol brasileiro funciona. Preferiu não criar atritos logo de cara, mas não negou os conflitos que tem sobre a sua própria maneira de agir e aquilo que acontece no novo ambiente. Por isso mesmo, destacou as palavras “transparência, democratização, excelência e modernidade”. Mais do que princípios pessoais, são adjetivos que, para o técnico, resumem a direção em todas as áreas da vida. Faz-se entender pelas entrelinhas.

Além disso, ao contrário do que foi praxe com os últimos técnicos da Seleção, Tite não se blindou das críticas. Pelo contrário, preferiu se expor. Logo após a primeira pergunta, feita pelo repórter do Sportv, já questionando o seu posicionamento contra Del Nero em dezembro, ele pode até ter saído pela tangente. Mas tratou reforçar de que estabelece uma relação mais igual e compreensiva com a imprensa. Disse que respeita quem o questiona por aceitar convite da CBF, mesmo depois de assinar o manifesto. Sua postura passível de críticas, até por se desvencilhar dos entraves morais. Mas, no discurso, esteve longe de endossar os cartolas da entidade.

A autonomia e o trabalho com a equipe

Tite apontou que o objetivo de seu trabalho se atrela à seleção brasileira, e não à estrutura da CBF na qual ela está inserida. Além disso, reforçou o pedido de autonomia àquilo que fará e também aos profissionais que chegarão junto com ele. É o mais importante. Não descartou o que foi feito por Dunga, polido ao falar sobre o antecessor. Assim como demonstrou que, agora, é um período no qual a relação com os jogadores começa do zero. Será a partir de uma noção do que ele acha melhor para o time, pensando no desenvolvimento durante as Eliminatórias.

“Não é o que penso ser o melhor, que imagino ser o melhor, é saber onde eles podem render melhor, potencializar isso, com o lado humano, de senso de equipe Não tem de ter a cara do Tite, mas a cara do Brasil, dos atletas que estão dentro do campo, da qualidade técnica e da competitividade. Tem muito transição, muita rapidez com a base da seleção. É ajustar, potencializar, essa é a minha função”, declarou. “Tenho de me reinventar, não sei qual adjetivo usar, me modelar, é um ambiente diferente de clube, uma forma diferente. Quero um dia para conversar com os técnicos brasileiros e ouvir sobre jogadores com possibilidade de convocar, suas características, como é o dia a dia do trabalho. Preciso saber onde o atleta pode se adaptar”.

O exemplo, e não o início de uma revolução

Pelo que fará junto ao elenco, Tite deverá implementar a renovação de ideias que tanto se pede na Seleção, e que estagnou durante os últimos anos. Que o treinador não seja um revolucionário tático, dá para se esperar uma abertura bem maior a se relacionar com clubes e jogadores. A semente daquilo que deveria se enraizar na CBF, mas que não acontecerá tão cedo diante da politicagem vigente. Até porque o sucesso da equipe nacional, infelizmente, serve de proteção a quem precisa ser alvejado.

Com Tite e Edu Gaspar, a expectativa é de que a Seleção possa ser um universo à parte de todos os problemas que a rodeiam. Se realmente será assim é uma incógnita que permanece, até porque qualquer imagem idealizada é precipitada. A equipe nacional não tem como ser o ponto de partida das transformações, e sim um dos pontos finais de um processo. A quebra do sistema, de fato, acontece a partir da pressão que se origina não no topo, mas na base: jogadores, torcedores e (mesmo que tantas vezes beneficiados pelo jogo de interesses) clubes. Mas a seleção brasileira pode servir, sim, de modelo ideal para o que se precisa ser feito de maneira profissional na CBF. O sucesso da equipe não deve minar o senso crítico, e sim aguçá-lo. O exemplo é princípio das possibilidade que Tite tem em mãos para ajudar o futebol brasileiro como um todo, mesmo que o abraço em Del Nero esfrie algumas esperanças.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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