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Aos 73 anos, morre Fernando Silva, ex-Vasco e Vitória, autor do pênalti do milésimo gol de Pelé

Zagueiro começou a carreira no Juventus, brilhou pelo Vasco e se tornou ídolo no Vitória; ex-jogador vivia em Maricá, no Rio de Janeiro

Morreu na madrugada deste domingo o ex-jogador Fernando Silva, que atuou com destaque por Vasco e Vitória e por outros tantos clubes ao longo da carreira. Ele tinha 73 anos e teve uma parada cardíaca, na noite de sábado para domingo, em casa. Ele vivia em Maricá, no Rio de Janeiro, onde era responsável por uma escolinha de futebol. Fernando esteve envolvido em um dos maiores eventos do século: o milésimo gol de Pelé. Zagueiro do Vasco na época, foi ele o autor da penalidade, que ele sempre afirmou não ter sido falta. Contamos parte dessa história sobre a carreira de Fernando neste texto.

Nascido no dia 5 de janeiro de 1948 em Belo Horizonte, Fernando se mudou com a família para São Paulo ainda criança. Antes de se consagrar no Vasco e se tornar ídolo no Vitória, o clube da sua carreira, Fernando começou a carreira no Juventus, em São Paulo, no fim dos anos 1960. Jogou pelo Juventus por duas temporadas, 1967 e 1968. Se transferiu para o Vasco, onde se tornaria um dos principais zagueiros do país atuando ao lado de Brito, que iria para a Copa de 1970.

Fernando Silva, zagueiro do Juventus em 1967 (Arquivo pessoal)

O lance do pênalti do milésimo gol, em 1969, foi marcante na carreira de Fernando, mas ele jamais gostou disso. Primeiro, porque argumentou desde aquele dia até a sua morte que o lance foi forçado. Que o árbitro acabou marcando o pênalti diante da situação, que todos esperavam. Para ele, não houve pênalti. Reforçou isso em entrevista à Trivela, em 2010. Em 2019, em entrevista ao ge.globo, também repetiu que o pênalti não aconteceu. Repetiu o mesmo em entrevista à ESPN. E isso, inevitavelmente, marcou a sua carreira. Mas para ele, o melhor da sua vida nos gramados veio depois disso. E veio no Nordeste.

Depois de deixar o Vasco, Fernando foi emprestado ao Olaria e depois se transferiu ao Bangu. Foi no clube de Moça Bonita que Fernando conheceu aquele que seria o seu melhor amigo, Almiro. Manteve contato com o ex-atacante até o fim da vida, trocando telefonemas e conversas. Se emocionou várias vezes ao falar com o amigo e quando contava sobre o companheiro de gramados.

Em contato por telefone com este jornalista, em 2013, Almiro disse que era Fernando quem deveria ter sido convocado para a Copa de 1970 no lugar de Fontana, que era seu reserva nos tempos de Vasco. Almiro conta que Fernando tinha um estilo clássico jogando, que era um zagueiro moderno, que lembrava Carlos Gamarra, paraguaio que marcou época especialmente na Copa de 1998 e no Corinthians.

Fernando Silva, terceiro da esquerda para a direita, em cima, pelo Vasco, em 1969

Aliás, Fernando, quando criança, era torcedor do Corinthians. Nunca passou perto de jogar pelo clube de criança, mas por pouco não jogou pelo Santos. Antes de ir para o Vasco, em 1969, foi o Santos que tentou a sua contratação. O próprio Fernando contou que houve uma negociação com o clube da Vila Belmiro, mas que não foi concretizada. O Vasco foi quem venceu a disputa.

Foi jogando amistosos com o Bangu que chamou a atenção do Vitória. Chegou ao Vitória em 1972, onde seu amigo, Almiro, já estava desde o ano anterior. Salvador se tornou a sua segunda casa. Fernando ficaria no estado da Bahia pelo resto da carreira profissional. Conquistou o título estadual em 1972, em um time que tinha Osni, um dos grandes ídolos da história do rubro-negro, Almiro e Mário Sérgio. Aquele foi seu primeiro título como jogador. Encerrou um jejum do Vitória que durava desde 1965.

Foi pelo Vitória que Fernando reencontrou Pelé. Agora volante no Leão, os dois clubes se enfrentaram pelo Campeonato Brasileiro de 1972. Na Fonte Nova, no dia 17 de setembro de 1972, o Vitória venceu por 1 a 0, com gol de Mário Sérgio. Fernando conta que este foi um dos jogos mais marcantes da sua carreira, porque conseguiu marcar bem o então camisa 10, com 31 anos. Foi a primeira vez que Fernando levou a melhor sobre o time de Pelé, depois de confrontos por Juventus, ainda em São Paulo, e pelo Vasco.

Time do Vitória em 1974, com Fernando Silva (segundo em cima da esquerda para a direita)

Fernando ainda jogaria também pelo Bahia, em 1974 e 1975, clube pelo qual acabou campeão baiano. Em 1975, voltou ao Vitória, jogou por mais uma temporada como titular. Em 1976, porém, não recebia salários e trocou isso pelo seu passe. Voltou ao Bahia em 1976 e foi novamente campeão baiano. Jogou apenas o Campeonato Baiano. Foi para o Flumninense de Feira de Santana, pelo qual disputaria o Campeonato Brasileiro daquele ano, 1976.

Deixaria o Fluminense de Feira, em crise financeira, e mudaria para outro clube baiano, o Leônico. No clube da região metropolitana de Salvador, o maior adversário não era nenhum atacante ou meia habilidoso. O problema foi lidar com as lesões. Com uma lesão crônica no tornozelo, passou a ter problemas para treinar e se recuperar dos jogos. Com isso, aos 31 anos, a lesão não o permitia mais treinar todos os dias. Precisava fazer uma recuperação maior. Sofria depois de cada jogo para continuar jogando.

No dia 28 de outubro de 1979, em um jogo contra o Asa, em Arapiraca, o Leônico jogava pelo Campeonato Brasileiro. Em uma disputa pelo alto, Fernando sofreu uma cabeçada e sofreu diversas fraturas no rosto. Quebrou o nariz, além de outros ossos do rosto. Foi substituído e levado ao hospital. Saiu de campo pela última vez. Nunca mais voltaria a entrar em campo profissionalmente.

Precisou de duas cirurgias para se recuperar. Uma lesão grave, em um clube pequeno, no interior de Alagoas, onde as condições estavam longe de serem as ideias. Tentou se recuperar. Fazia só treinos leves e jogava o treino antes do jogo, mas não conseguia ter condições. Foi o médico que o aconselhou a encerrar a carreira para não acabar com um problema ainda maior. Depois de 12 anos como profissional, e aos 31 anos, Fernando se aposentava.

Depois da carreira, chegou a ser auxiliar técnico de Mário Sérgio, agora já técnico, no Vitória. Ficou pouco tempo e saiu junto com o amigo quando ele foi demitido. Fernando dizia que não sentiu falta da vida de jogador. Seus últimos anos, lidando com lesões, se tornaram um martírio, então a aposentadoria acabou sendo um alívio nesse sentido. Viveu 28 anos na Bahia, somando o tempo de jogador e depois da aposentadoria. Viveu na Bahia até 2000, quando se mudou para o Rio de Janeiro.

Maricá se tornou a sua casa por 21 anos, até o fim da sua vida. Por lá, montou uma escolinha de futebol que chegou a ter parceria com o Vasco, inicialmente, e depois com o América do Rio. Passou a treinar crianças, uma satisfação e modo de manter o contato com o futebol. Embora tenha passado pouco tempo no Vasco, criou uma relação de paixão com o clube e era pelo cruzmaltino que Fernando torcida, além do Vitória. Acompanhava os dois clubes com paixão de quem viveu, em campo, uma relação forte com os dois clubes.

Apaixonado por cozinhar, Fernando era um cozinheiro de mão cheia. Gostava de receber os amigos e a família com quitutes preparados por ele. Ficou muitos anos afastado de sua família, em São Paulo, mas retomou o contato desde que voltou a Maricá. Morreu em casa, acompanhado pela esposa. Deixa três filhos e a esposa.

Todas as vezes que voltou à Bahia, sentia o carinho de torcedores que nem eram nascidos na época que jogava. Sua esposa, dona Lú, contou que em uma viagem a Salvador, em 2006, ficou impressionada com o carinho dos torcedores com o marido, ex-ídolo do Vitória. Porque a carreira a caba, até a vida acaba, mas a história é eterna.

Para sempre, Fernando será lembrado como o jogador que marcou época pelo Vitória e se tornou ídolo. Também será lembrado pelo início, no Juventus, a passagem marcante pelo Vasco, a rápida passagem pelo Olaria, o momento marcante no Bangu e a vida em Salvador, defendendo Vitória e Bahia, além de Fluminense de Feira e Leônico, já no fim da carreira.

Acima de tudo, Fernando Silva será lembrado como marido, como pai, como tio, como avô, como primo e como uma grande pessoa. A chama da vida eventualmente se apaga. A história construída e as lembranças jamais se apagam. Elas são eternas nos corações de quem as viveu e sente, dali até a eternidade.

*Nota do editor: Fernando Silva é tio-avô do autor deste texto, Felipe Lobo, com quem só conseguiu ter contato em meados da década de 2000 em diante. Escreveu seu TCC da faculdade de jornalismo, “Não foi pênalti”, um livro-reportagem que conta sobre a carreira e curiosidades da vida de Fernando Silva – e que um dia sonha em lançar como livro, em homenagem a ele. Estará para sempre nos nossos corações.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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