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Andrade, 60 anos: o volante refinado que potencializou o Fla e serve de parâmetro à posição

Quando se elencam os craques que faziam parte do Flamengo nos anos 1980, o nome de Andrade quase sempre é um dos primeiros citados. O meio-campista não teve grande currículo na seleção brasileira e pouco aproveitou sua passagem pelo futebol italiano. Entretanto, tornou-se um dos maiores símbolos com a camisa rubro-negra. Se o timaço campeão da Libertadores e do Mundial se consagrou pelo estilo técnico, com muita qualidade nos passes, o camisa 6 era fundamental nesta engrenagem. O volante refinado, que primava pela precisão ao distribuir o jogo e pela habilidade ao limpar caminho, mas sem amolecer a marcação. Para Zico, era o melhor passador daquele grupo. E não é exagero dizer que muito do sucesso do Fla dependeu de Andrade. O meio-campista que viveu tantas glórias como jogador e ainda voltou para comandar os flamenguistas em seu título mais recente no Campeonato Brasileiro completa 60 anos nesta sexta.

Nascido em Juiz de Fora, Andrade teve uma infância difícil. Seus pais se separaram e a mãe enfrentava dificuldades para manter a casa. Chegaram a ser despejados, viveram de favor, conviviam com a realidade simples da periferia. Desde os 12 anos, o garoto trabalhava entregando marmitas, sem deixar de se empenhar nos estudos. E também com tento para jogar pelo Vila Branca, time amador de sua cidade. O futebol já rendia uns trocados, ganhando o bicho de seu Onofre, dono de um restaurante que admirava seu talento. Aos 17 anos, após já ter recusado a primeira oportunidade de se mudar ao Rio de Janeiro, se juntou às categorias de base do Flamengo. O prodígio tímido se adaptava com dificuldades à nova realidade, assustado até mesmo com o tamanho dos prédios. Todavia, o futebol abriu seu caminho.

Andrade estreou na equipe principal do Flamengo em outubro de 1976, aos 19 anos. Entrou no decorrer do amistoso contra a seleção brasileira que homenageava o meio-campista Geraldo Assoviador, falecido pouco antes. No entanto, seu início não seria fácil. Capitão dos juvenis, acabou barrado pelo técnico Américo Faria por conta de suas características. O futuro dirigente da CBF queria o volante mais fixo, embora ele insistisse em sair para o jogo. Já em 1977, veio a chance de chacoalhar a carreira: o jovem de 20 anos seria emprestado à Universidad de Los Andes, da Venezuela. O receio era natural, mas o novato foi convencido pelo técnico Cláudio Coutinho de que lá ganharia rodagem. Em um campeonato de parca estrutura, o prodígio se destacou. Atuava como ponta-de-lança e até se tornou artilheiro no segundo ano, após ficar só atrás de Jairzinho no primeiro. Aprimorou algumas capacidades essenciais, como o passe e a finalização.

Sua volta ao Flamengo aconteceu em 1979. Mesmo recebendo uma polpuda oferta para permanecer na Venezuela, queria vingar na Gávea. Não errou em sua escolha. Aos poucos, começou a ganhar espaço no time, em época de concorrência pesada. Carpegiani e Vitor eram opções qualificadas à sua posição. De qualquer maneira, Andrade firmou-se no 11 inicial a partir do Campeonato Brasileiro de 1980. Com a ajuda do primeiro volante, os rubro-negros ergueram a taça inédita. E mesmo que tenha passado o início de 1981 sem lugar garantido entre os titulares, tomou conta do setor nos momentos mais importantes, diante da lesão de Vitor e da aposentadoria de Carpegiani. Viveu um final de ano mágico, com as conquistas do Carioca (naquela campanha, inclusive, fechando a conta na emblemática goleada por 6 a 0 sobre o Botafogo), da Libertadores e do Mundial Interclubes em curto intervalo.

Indo além das virtudes primordiais a um volante, Andrade também anotava os seus gols. Chutava muito bem de fora da área, combinando força e precisão. Faturou também o Brasileiro de 1982 como protagonista. Na conquista seguinte, contudo, perdeu boa parte da campanha de 1983 por conta de uma lesão no joelho. Curiosamente, a esperada chance na Seleção veio após seu retorno. Já tinha participado de um amistoso contra a seleção mineira em 1980, que pouco valeu. Só teve sequência a partir de julho de 1983, titular de Carlos Alberto Parreira em parte da campanha na Copa América, com o vice-campeonato após derrota na decisão contra o Uruguai.

Absoluto no time, Andrade recolocou o Flamengo no topo do Brasil com o título da Copa União. Ao lado de Zico e Leandro, era um dos remanescentes do velho esquadrão em um grupo recheado de garotos. E um lance memorável contra o Corinthians eternizou sua presença naquela campanha. O volante avançou pelo campo de ataque com bola dominada, deu um chapéu em Wilson Mano e, sem deixar cair, chutou cruzado para o gol. Caprichosamente, a bola saiu raspando a trave. A jogada se transformou em símbolo de seu futebol técnico, calmo e elegante. Na final contra o Inter, deu o passe preciso para Bebeto marcar o gol do título rubro-negro.

A passagem pelo Flamengo se encerraria meses depois, no início do segundo semestre de 1988. Quinto com mais partidas pelo clube, o volante havia sido negociado contra a Roma. Antes de se juntar aos giallorossi, excursionou com a seleção brasileira de Carlos Alberto Silva. Também disputou os Jogos Olímpicos de Seul, em tempos nos quais os atletas que nunca tivessem entrado em campo em uma Copa do Mundo estavam aptos ao torneio de futebol. Ficou com a prata, oferecendo experiência à geração na qual despontavam Romário Bebeto, Jorginho, Taffarel, entre outros.

A estadia na Roma, porém, passou longe de ser satisfatória. Andrade chegou em um clube com tradição entre os volantes brasileiros e ao lado de um velho conhecido, Renato Gaúcho. Só que a adaptação não aconteceu, com dificuldades para se encaixar no ritmo de jogo. Disputou apenas nove partidas, marcado por uma aparição na Copa da Uefa contra o Dynamo Dresden, em que saiu do banco e acabou sendo substituído ao se atrapalhar no gramado coberto por neve. Já em 1989 retornou ao Brasil, para defender justamente o Vasco. E se sagrou campeão nacional pela quinta vez, titular em parte da caminhada dos cruzmaltinos no Brasileirão. De qualquer maneira, a passagem por São Januário duraria pouco. Sem a mesma intensidade, o camisa 6 rodou por clubes menores do Brasil, faturando dois estaduais por Desportiva e Operário até se aposentar em 1996.

O histórico no Flamengo ajudou Andrade a integrar a comissão técnica, tempos depois. Mas não só isso, com o veterano referendado por seu conhecimento e por sua visão. Trabalhou ao lado de diferentes técnicos e serviu de interino várias vezes. Até o grande no momento, no Campeonato Brasileiro de 2009, ocupando a lacuna deixada por Cuca. Os bons resultados mantiveram o treinador, fazendo mudanças táticas e contando com o apoio do elenco. Sob a batuta de Adriano e Petkovic, os rubro-negros encerraram o jejum de 17 anos na Série A. Os méritos de Andrade, entretanto, não foram reconhecidos por muito tempo. Em 2010, após uma sequência negativa, ele foi demitido. Sua história na Gávea, independentemente disso, não se mancha. No futebol, como um todo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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