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Alô, você! Fernando Vanucci trouxe leveza ao esporte e foi um dos grandes nomes da televisão brasileira

Fernando Vanucci esperava ir para a Copa do Mundo no México, em 1986. Não foi. Ficou no Brasil para comandar as atrações do estúdio da Rede Globo, momento que ajudou a alavancá-lo. Também havia terminado com a namorada. Uma das namoradas. Teve muitas namoradas. Da combinação entre essas duas coisas, surgiu o bordão que marcaria a carreira do grande e carismático apresentador. Vanucci morreu, nessa terça-feira, aos 69 anos.

“Eu não estava na equipe que iria para a Copa”, afirmou, em entrevista ao UOL. “Estava em casa pensando e decidi que ia arrebentar, e a primeira coisa foi o ‘Alô, Você’. Que era para uma pessoa, a Suzane. Nós tínhamos terminado nosso namoro, eu estava morrendo de saudade dela. E aí eu mandei o ‘Alô Você’. Ela nunca soube disso. Mais tarde, anos e anos depois, a gente conversando, eu falei para ela, que cobrou royalties. Era uma paixão alucinada, era paixão mesmo. Aquela coisa que derruba. Mas (no fim) não foi para ela, foi para o Brasil inteiro. Até hoje, eu passo na rua, vou ao supermercado, ao posto de gasolina, e é ‘Alô, Você’”.

Nascido em Uberaba, em Minas Gerais, Vanucci trabalhou na filiada local da Rede Globo entre 1973 e 1977. Integrou-se à equipe de esportes do Rio de Janeiro. Apresentou programas como Globo Esporte, RJTV, Esporte Espetacular, Jornal Nacional, Jornal Hoje e Fantástico. Também emprestou a sua voz à cobertura do Carnaval. Muito antes desse estilo ir um pouco além do razoável, quebrou paradigmas da televisão ao falar de futebol de uma maneira mais despojada e informal.

“Eu consegui mudar o esquema da Globo. Era muito quadrado. Quando fui para o Rio, apresentei a parte local do Jornal Nacional, que, em São Paulo, seria hoje o SPTV. Só que era no último bloco, pegava um momento de grande audiência. Basicamente, em 1986, foi o ano que consegui virar tudo isso. Quando pensaram em falar, me reprimir, me dar um pito, já tinha dado certo e o Brasil já tinha abraçado o ‘Alô, Você'”, afirmou, em entrevista ao SBT.

Teve uma vez que foi um pouco informal demais. Há lugares que falam em bolachas ou biscoitos. O UOL relata como um pão com manteiga. Para não errar, vamos chegar a um meio-termo: Vanucci estava com alguma coisa na boca quando o Esporte Espetacular voltou de uma matéria e o flagrou mastigando-a. Na verdade, novamente, em nome da precisão, engolindo-a.

“Não estava comendo, estava engolindo. Eu apresentava o ‘Esporte Espetacular’ com a Mylena Ciribelli e achei que, na volta da matéria, que estava no ar, iam cortar para ela”, contou, ao SBT. “A gente fazia esse lanchinho todo domingo no estúdio. Aí fiquei na geladeira, me botaram para fazer, como um castigo de menininho, o bloco de esportes do ‘Bom Dia Rio’, tendo que chegar na TV às 4h30. Tudo bem, ia toda manhãzinha”.

Vanucci saiu da Globo pouco depois do incidente da bolacha, ou do pão com manteiga, em 1999, mas não sem antes fazer mais uma transmissão do Carnaval, que ele considera ter sido uma das suas melhores. “Eu (que saí). O Boni tinha deixado a Globo e no lugar entrou a Marluce (Dias). Eu me sentia muito desprestigiado, com 26 anos de casa, mal, por outras questões. Enfim, ela me chamou, ‘vamos conversar, não vou deixar sair’ e tal. Houve o probleminha da bolacha”, disse, ao SBT. “Eu me arrependo. Não deveria ter rompido, deveria ter seguido o conselho da Marluce e ido conversar. Desculpa, Globo, foi aí que aprendi praticamente tudo desse meio maluco da televisão”.

O jornalista foi para a Bandeirantes, cujo departamento de esportes era tocado pela Traffic, de J. Hawilla, um dos implicados no escândalo do Fifagate, que prendeu uma série de importantes dirigentes em 2015. Financeiramente, a empreitada não foi um sucesso e durou apenas até 2001. A empresa de marketing esportivo fechou uma nova parceria com a Record, na qual Vanucci passou mais dois anos antes de reaparecer pela RedeTV. E aí, um dia misturou vinho com dois comprimidos de seis miligramas de Lexotan, remédio contra a ansiedade.

Foi após o título mundial da Itália, em 2006. Do discurso ninguém se esquece: Cannavaro, Totti, Zambrotta, ahhhh Itália, mudar ou mudar de vez, a África do Sul é logo ali. O YouTube eternizou a cena como o momento em que Vanucci ficou bêbado em rede nacional. O apresentador contou ao UOL uma história diferente.

“Eu não seria irresponsável de beber uma, duas, três garrafas de vinho, sabendo que eu tinha um programa seis horas da tarde para fazer. Eu estava na casa de um amigo meu, em Alphaville, todo mundo esperando o jogo. Eu vi pedaço do jogo (a final Itália x França), mas tive que sair antes, tomei um pouquinho de vinho e tal. E lá na casa desse meu amigo, eu recebo um telefonema da irmã do Antonio Henrique, meu filho. Um filho que eu conheci mais tarde, que eu já havia reconhecido como meu filho legítimo. A irmã dele veio em uma discussão que eu não entendi, dizendo que eu ia entrar com exame de DNA, foi uma discussão, assim, acalorada mesmo. Eu nunca falei isso, nunca toquei nesse assunto, fui lá, reconheci, assinei a documentação. E logo depois eu sai para ir para casa para me preparar para a televisão””.

“Fui normal, gravei o que tinha que gravar antes do Bola na Rede, gravei normal. Quando a câmera ligou, começou o programa, me deu algo que eu pensei que fosse morrer. Tomei um remédio, um Lexotan, dois comprimidos de Lexotan, seis miligramas, e isso me deixou sem chão. Eu não sabia o que eu estava lendo, não sabia o que estava fazendo. Foi realmente um momento trágico, mas passou”, completou.

Na mesma entrevista, Vanucci, embora não tenha tido problemas com a emissora, disse que chegou a se sentir meio condenado, “punido”, porque com a mesma força com que o seu bordão marcou positivamente a sua carreira, esse dois incidentes, principalmente o segundo, o transformaram em um alvo fácil de piada. Precisou de algum tempo para assimilar e conseguir participar da brincadeira. Dizia ele que passou. Chegou a usar no ar, escrever, e até apresentou um programa no UOL durante a Copa do Mundo de 2018 que se chamava “A Rússia é Logo Ali”.

Vanucci havia sofrido um ataque cardíaco ano passado que o deixara debilitado. Usava um marca-passo. Em outubro, a coluna de Ricardo Feltrin publicou que ele também passava por dificuldades financeiras. Amigos e fãs teriam até discutido uma vaquinha para ajudá-lo, Vanucci negou as duas informações. Disse que estava recuperado do infarto e que tinha os mesmos problemas financeiros da maioria da população brasileira. “Tenho uma família maravilhosa, sempre ao meu lado. Não tenho mais o faturamento de antigamente, mas não preciso de ajuda ou de vaquinhas”, afirmou. Desde 2014, estava na Rede Brasil de Televisão, canal aberto fundado em 2007.

Vanucci passou mal na manhã desta terça-feira, foi socorrido pela empregada e levado ao Pronto Socorro Central de Barueri. Não resistiu. A causa da morte não foi divulgada.

 

 

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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