BrasilBrasileirão Série A

Allianz Parque ainda precisa de ajustes, mas a festa finalmente voltou ao Palestra

Dia de jogo, e a Turiassu fechada, transbordando de torcedores e pintada de verde e branco. O posto no final da Sumaré com todos os carros que consegue suportar e a loja de conveniência aberta para fornecer cerveja. Churrasquinhos na rua, mais cerveja nas caixas de isopor e vans de lanches estacionadas nas ruas, os Food Trucks sem grife. Essa cena, tão corriqueira antes do Palmeiras fechar o seu estádio para erguer outro, não era vista nas vizinhanças da Pompeia há quatro anos, mas a festa retornou de vez ao chiqueiro. O Palestra Itália, agora Allianz Parque, imponente como o Alviverde já foi e tenta ser de novo, finalmente voltou a pulsar graças ao batimento do coração da torcida palmeirense.

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A partida era importante, contra um adversário em posição superior na tabela, e o resultado poderia valer a permanência na primeira divisão. Objetivos práticos demoraram para serem absorvidos pelo palmeirense, e o clima era de festa, como se um título se avizinhasse. Orgulho, como se mais uma vez fosse dono de uma academia de futebol. Não é a essa a realidade do Palmeiras no momento, mas o torcedor pode, sim, bater no peito e dizer que é proprietário de um belo estádio, no mínimo do mesmo nível daqueles que sediaram a Copa do Mundo.

O que ele não pode foi comprar uma lembrança e levar para casa. Pelo menos não na loja oficial do clube, ao lado da entrada social, que vendia apenas camisetas, nenhuma delas com a frase especial da reinauguração do estádio. Não foi a única coisa que impediu o Palmeiras de levar nota 10 no primeiro teste de verdade do Allianz Parque. A indefectível fila da Turiassú dobrando para a Avenida Antártica também voltou, mesmo com todos os ingressos vendidos com antecedência e lugares marcados (durante o jogo, nem sempre respeitados). Algumas paredes ainda precisavam de acabamento, e os corredores estavam empoeirados. Nada difícil de resolver, nada absurdo, e nada que devesse atrasar ainda mais o primeiro jogo oficial no Allianz Parque.

No setor de imprensa, o sinal do celular oscilava, o 3G era inexistente, e o wi-fi não era garantia de acesso à internet, para quem conseguia conectar-se. A WTorre percebeu o problema e chamou um técnico para tentar consertá-lo, mas até o fim do jogo o estádio continuava um pouco isolado da rede mundial de computadores.

O principal problema que precisa ser solucionado são as grades que separam os setores do anel inferior e criam pontos mais ou menos cegos (dá para acompanhar o jogo entre as barras de ferro, mas a visão é terrível) para a torcida, até mais ou menos a quinta coluna de cadeiras. O projeto inicial não as previa porque a WTorre, responsável pelas obras, acreditava que o torcedor que comprasse ingresso para o setor mais barato, atrás dos gols, não migraria para o mais caro, na lateral do gramado. Depois da última inspeção da Polícia Militar, os alambrados foram instalados às pressas, um deles ainda nem foi pintado de verde, e a capacidade total caiu de 43 mil para 39 mil pessoas.

A torcida do Palmeiras fez a festa no novo Palestra Itália (Foto: Divulgação)
A torcida do Palmeiras fez a festa no novo Palestra Itália (Foto: Divulgação)

Alheia a tudo isso, a torcida fazia a sua devida e merecida festa. O jornalista Mauro Beting foi o mestre de cerimônias, responsável por inflamar as arquibancadas com textos palestrinos (embora o microfone estivesse um pouco baixo). O telão mostrava vídeos com depoimentos de ídolos e grandes momentos do Palestra Itália. Também mostrou encontros anteriores contra o Sport, como as oitavas de final da Libertadores de 2009, aquela que teve Marcos brilhando na disputa de pênaltis.

Mauricio Manieri cantou o hino do Palmeiras, com Marcos Kleine na guitarra elétrica, mas o momento mais esperado foi a segundos do apito inicial. Pela primeira vez entre aquelas cadeiras que levam três tons de verde, a torcida foi do surgimento do alviverde imponente à ostentação da fibra apenas com as próprias cordas vocais antes de um jogo oficial, como tantas vezes nas arquibancadas de cimento do antigo Parque Antártica:

Jogos inaugurais de estádio tem vários desses fatos inéditos, e o torcedor mais detalhista gosta de saber quem foi o primeiro a fazer qualquer coisa. Fernando Prass, por exemplo, pisou no gramado do Allianz Parque com a camisa do Palmeiras antes de qualquer outro jogador. A primeira hostilidade contra o homem do apito foi motivada por um chute de Marcelo Oliveira, claramente desviado pela zaga do Sport, que virou apenas tiro de meta. A primeira vaia foi destinada a Felipe Menezes, o lateral direito Patric arranjou a primeira briga, e o primeiro jogador a ser unanimemente xingado pelo novo Palestra Itália foi Wesley.

Mas o que o torcedor queria saber mesmo era quem seria o autor do primeiro gol, e Wesley, com chutes despretensiosos de qualquer lugar, parecia estar com bastante vontade de ocupar esse lugar na história do Palmeiras. Não chegava a haver um César Sampaio em cada Marcelo Oliveira, nem um Henrique em cada Evair, muito longe disso, mas o time de Dorival Junior jogava bem no primeiro tempo. Oliveira quase abriu o placar nos primeiros minutos, e a melhor chance veio em uma cabeçada de Felipe Menezes que passou perto da trave.

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Aos poucos, a torcida passou a lembrar por que havia perdido 17 partidas no Campeonato Brasileiro e ainda corre risco de rebaixamento. Talvez os jogadores do Palmeiras também. O Sport adiantou a marcação e sufocou o dono da casa, curiosamente muito mais nervoso no segundo tempo do que no primeiro. Ananias não balançou as redes em nenhuma das 21 partidas que disputou pelo Palmeiras em 2013, mas foi o responsável pelo primeiro gol do novo Allianz Parque. Patric, em jogada parecida a de um gol que marcou no turno na Arena Pernambuco, completou a derrota que deixa o time alviverde a três pontos de cair pela segunda divisão pela terceira vez.

O que era festa virou revolta. A principal torcida organizada do clube, rachada com o presidente Paulo Nobre desde o ano passado, não perdoou e entoou os seus gritos de cobrança e ameaça. “Time sem vergonha”, “Palmeiras é tradição, Palmeiras é paixão” e “Olê lê, ola lá, se cair para a Série B, se prepara para apanhar”. Afinal, um estádio novo não faz mágica para um time que ainda depende de Felipe Menezes para armar as jogadas quando não conta com Valdivia. E depois, o hino foi cantado novamente:

A noite acabou com um pedido de casamento. Rogério usou o telão do Allianz Parque para pedir a mão de Simone, um gesto simbólico de união de suas duas paixões. Espero que Simone tenha aceitado porque Rogério certamente não aguenta mais se decepcionar com o seu outro amor.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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