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Adeus ao ídolo: 10 motivos que tornam D’Alessandro um personagem irrepetível ao Inter

D'Alessandro se despede do Inter como um gigante pela bola que jogou e também pelo que representou

A torcida do Internacional já tinha se acostumado às despedidas. Desde 2016, Andrés D’Alessandro havia deixado o Beira-Rio outras duas vezes, em curtos períodos, para defender River Plate e Nacional de Montevidéu. A grandeza do ídolo estava assimilada pelos colorados e cada retorno serviu para iluminar um pouco mais a sua aura. E, num momento em que há a certeza de que o maestro sempre voltará, o Inter ofereceu o adeus definitivo para o craque. Como deveria ser, com casa cheia. Com o requinte de seu talento para valer uma vitória de campeonato. E com a paixão que conduziu cada passo seu desde o desembarque em Porto Alegre, em 2008.

D’Alessandro cresceu no River Plate e poderia ter construído sua idolatria apenas no Monumental de Núñez se assim desejasse. Também tinha bola suficiente para fazer mais sucesso na Europa do que as opacas passagens por Wolfsburg, Portsmouth e Zaragoza. Nada disso, porém, faz falta ao camisa 10. Se por identificação ou talento sua história poderia ser outra, ele encontrou tudo isso no Internacional e o privilégio é dos colorados por D’Ale ter escolhido o clube para entregar o máximo de sua dedicação. O armador jogou sempre como se fosse colorado de berço e sempre como se o mais importante no mundo fosse consagrar aquele clube. Somou títulos com um compromisso indubitável perante a torcida.

A história do Internacional possui tantos gigantes que cravar um ídolo máximo é das tarefas mais difíceis. Por isso mesmo, a presença de D’Alessandro nesse panteão já é grandiosa. O meia pode não ter simbolizado necessariamente uma era dourada ou expandido fronteiras aos colorados. No entanto, a certeza de ter o craque honrando seu manto com doses iguais de categoria e fúria conduziu por tantos anos os passos dos colorados ao Beira-Rio, em tempos de glória e em tempos de penúria. D’Ale foi, sobretudo, um condutor dessa relação com o clube. Ele mesmo um torcedor como tantos outros, personificado com a 10 às costas.

Neste domingo, D’Alessandro teve a despedida do Internacional digna de sua grandeza. Não pelo momento do clube, mas pela magia que ele ainda pôde proporcionar em meio às dúvidas e também pela troca de energias com a multidão presente para homenageá-lo. Durante muitos anos, será fácil ver o veterano perambulando pelos corredores do Beira-Rio e as histórias de seus feitos perdurarão ainda mais nas arquibancadas. Apesar disso, não se nega que D’Ale fará falta. É um tipo que pode ser considerado irrepetível, pela fusão de personalidade e maestria. Para o argentino, a camisa colorada era que o vermelho encarnado de quem fazia o clube correr por suas veias.

Abaixo, 10 motivos que tornam o camisa 10 inigualável:

– O refinamento da canhota

D’Alessandro era um camisa 10 dos mais clássicos, daqueles que não deveriam receber outro número ao longo da carreira. E o pacote estava mesmo completo graças à canhota das mais letais possíveis. D’Ale sempre teve uma capacidade ímpar para bater na bola e guiá-la conforme seus pensamentos. Passes inacreditáveis, cruzamentos cirúrgicos e chutes fatais faziam parte de seu repertório. Independentemente da idade ou do momento da equipe, aquele pé esquerdo sempre representou fé para os colorados.

– O show dos dribles

D’Alessandro é um jogador tão singular que até drible característico tinha. O gingado de “la boba” era seu toque de malícia e o terror dos marcadores. O vai e vem da canhota começava sempre inebriante, para um desfecho que nem o próprio D’Ale sabia de antemão, mas que suas pernas conduziam ao destino. Poderia ser uma caneta ou um chapéu, um cruzamento ou um chute. E se de um lado os zagueiros se perdiam, do outro os olhares da torcida não desgrudavam um instante sequer quando o camisa 10 parava e preparava sua mágica.

– O multicampeão

D’Alessandro chegou ao Internacional logo depois da maior conquista da história do clube. Não seria uma sombra. Pelo contrário, o camisa 10 tomou as rédeas para novas taças e a renovação da potência dos colorados. A Libertadores de 2010 é o maior brilho na estante, exatamente por ser o troféu que faz jus à dimensão do camisa 10 dentro do futebol sul-americano. Destaque ainda à Copa Sul-Americana de 2008 que transformou o “campeão de tudo” e o domínio local proporcionado por seis Gauchões.

– A volta para o calvário

D’Alessandro tinha sua história gravada em letras douradas quando decidiu retornar ao Inter em 2017. Sua reputação estava em jogo quando capitaneou o reerguimento dos colorados a partir da segunda divisão. Deixou o River Plate e lá estava o camisa 10 disputando uma Série B, para livrar seus torcedores do momento que menos queriam vivenciar. Se o gigantismo do ídolo se expandiu com taças, foi aquela campanha na segundona que o tornou definitivamente mais um dos seus, o mais especial.

– O espírito de torcedor

Jogar um bom futebol tantas vezes não basta. É preciso vibrar, sobretudo quando se ressoa as arquibancadas. D’Alessandro incorporou tal ideia tantas e tantas vezes, para empurrar o time ou para desconcentrar o adversário. As doses de furor pareciam um reflexo natural do que se vivia ao redor do gramado no Beira-Rio. Os interesses dos colorados sempre estiveram resguardados com D’Ale, mesmo os mais irracionais, porque o craque acima de tudo sentia o clube.

– As brigas compradas

D’Alessandro nunca foi de esconder o que pensava. E isso gerou, claro, atritos no Internacional. O craque chegou a bater de frente com cartolas e a criticar publicamente quando não concordava com decisões, inclusive como fez ao encerramento de sua segunda passagem pelo Beira-Rio. Tal postura não se encerra com a aposentadoria do jogador e tende a continuar no futuro como dirigente.

– O carrasco dos rivais

Alguns ídolos precisam apenas de um clássico para se tornarem eternos. Numa rivalidade tão ferrenha quanto o Gre-Nal, essa possibilidade parece potencializada. D’Alessandro, no entanto, fez-se presente como o pesadelo dos maiores rivais em repetidas ocasiões. Foi aquele a quem o ódio dos tricolores se direcionou durante uma década. E, até por isso, alvo de tantos amores dos colorados. Não chegou a ter a estatura dos maiores artilheiros do clássico ou coisa parecida, mas sempre gostou de um Gre-Nal jogado e pegado ao seu ritmo.

– O poder de tirar do sério

Não são apenas os gremistas que odiaram D’Alessandro nesses anos todos, porém. O craque adversário sempre foi alvo das outras torcidas pelo que jogava e também pelo que mandava, até no juiz. Como termômetro e termostato do Beira-Rio, algo bem cunhado pelo mestre Douglas Ceconello, D’Ale elevava a temperatura dos jogos a favor de seu ponto de ebulição. Obviamente, tirou muita gente do sério, por mais que a maioria dessa gente sonhasse com um camisa 10 feito o argentino. Somente os colorados podiam venerá-lo, mesmo que o destempero por vezes prejudicasse eles mesmos.

– A relação com Porto Alegre

D’Alessandro virou um fiel representante do Internacional por motivos que não se restringem aos 90 minutos. A maneira como ele se tornou um cidadão de Porto Alegre, enraizado na cidade, também conta bastante nessa relação. E a veia solidária do craque é a mais importante, especialmente a partir de seu Lance de Craque, quando passou a organizar partidas beneficentes em prol de instituições de caridade. Sua imagem também passa pela consciência e pela solidariedade.

– O futebol jogado com alma

Em tempos nos quais o futebol parece cada vez mais alheio de sua gente, ter um jogador tão carnal quanto D’Alessandro é até anacrônico. Ele também representava uma resistência, por viver à flor da pele. Mesmo nos maiores palcos, parecia querer jogar o futebol da rua – da emoção e da provocação, da explosão da vitória e da explosão pela vitória que não veio. D’Ale sempre foi futebol na íntegra, sem distanciamentos, real e não virtual. Por isso a torcida no Inter o entende tão bem, por isso tanta gente admirou além das cores que defendia com tanto vigor.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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