Brasil

A volta dos que não foram

Ronaldo, Adriano e, agora, Ronaldinho. O futebol brasileiro tem no Brasil ao menos três jogadores que já figuraram a nível mundial em grandes times do mundo, ganhando títulos importantes, coletiva e individualmente. Embora sejam casos distintos entre si e com peculiaridades, há um traço de semelhança entre eles: todos deixaram a sensação de que poderiam ter ido muito mais longe e voltam prematuramente ao Brasil.

Ronaldinho teve um período de futebol magnífico que provavelmente nem Lionel Messi consiga repetir. A capacidade de Ronaldinho nos tempos de Barcelona parecia que cresceria sem parar e seu patamar passou a ser comparado com jogadores de nível de Zico e Maradona. A magia do então camisa 10 do Barcelona era um espetáculo digno de nota, que combinou resultados em campo com o futebol belo.

Foram ao menos três anos de magia no Barcelona, sem contar ainda o futebol já encantador que o meia apresentava no Paris Saint-Germain. Aos poucos, porém, o jogador parecia cansado de tudo, de todos. Carlos Alberto Parreira definiu, em entrevista recente ao Sportv, que na Copa de 2006 os jogadores pareciam “saciados”.

A partir daquela temporada, Ronaldinho caiu de produção e foi deixando que a magia fosse sendo tomada por atuações apagadas. O jogador foi perdendo espaço e os torcedores e dirigentes foram perdendo a paciência. Ao mesmo tempo, o Barcelona viu o surgimento de uma estrela emergente: Messi. O Milan veio em seguida, mas o rendimento jamais foi o mesmo. Nesta temporada, o brasileiro tornou-se dispensável.

Sua volta ao Brasil deixa a sensação de que ele poderia ter ido mais longe. São muito raros os jogadores que voltam ao Brasil, vindo de grandes clubes europeus, quando estão no auge. Romário, em 1995, é um raro exemplo de ter deixado o Barcelona para jogar pelo Flamengo. Nas outras ocasiões, os jogadores voltam ao Brasil para encerrar a carreira, já veteranos, quando o mercado europeu já não oferece grandes propostas.

Ronaldinho está em baixa. A proposta europeia para o jogador foi do Blackburn – um time modesto inglês, longe de brigar por títulos. Assim, o jogador deve ficar mesmo no Brasil, onde Palmeiras, Flamengo e Grêmio quiseram o jogador. Em qualquer um, seria o astro, o principal nome.

Adriano foi o primeiro a fazer o caminho de volta da Europa. Primeiro, emprestado ao São Paulo para tentar se recuperar. Foi bem, entrou em forma e voltou à Inter na Itália. Teve os mesmos problemas e ameaçou abandonar a carreira, com depressão. Rescindiu com a Inter, mas poucos meses depois estava no Flamengo, onde decidiu diversos jogos, ainda que treinasse pouco e não ficasse em forma o tempo todo.

Ronaldo, chamado de fenômeno, teve trajetória espetacular. Começou muito cedo no Cruzeiro, foi à Copa de 1994 como reserva, brilhou por PSV, Barcelona, Internazionale e Real Madrid. Já em baixa, foi para o Milan, onde já pouco jogou – mas ainda mostrava momento de brilho. Uma nova contusão séria, o excesso de peso que o acompanhava a tempos e a falta de mercado na Europa trouxeram o jogador de volta ao Brasil, para atuar pelo Corinthians – onde, mesmo fora de forma, foi um jogador decisivo.

Todos jogadores que estiveram entre os melhores do mundo. Ronaldo e Ronaldinho foram escolhidos como melhores do mundo. Adriano esteve próximo. Todos, porém, voltaram ao Brasil quando poderiam estar brilhando em campos europeus desfilando o talento que sempre mostraram. Ronaldo tinha apenas 32 anos quando voltou ao país. Adriano voltou com 27. Ronaldinho tem 30. Todos tinham ao menos mais algum tempo de bom futebol em alto nível.

Os três estiveram na Copa do Mundo de 2006 e voltaram ao Brasil em situação parecida: fora de forma, com mercado de grandes clubes europeus fechado, mas ainda com lenha para queimar. Bom para o público que assiste o futebol por aqui. Mas um alerta sobre os jogadores brasileiros.

Não teremos um brasileiro entre os melhores do mundo. Temos cada vez menos jogadores brasileiros como protagonistas em grandes clubes europeus. Os últimos grandes destaques foram os brasileiros Júlio César, Maicon e Lúcio, campeões da tríplice coroa na temporada passada pela Internazionale, mas sem serem os astros do time. Kaká é, talvez, a maior estrela brasileira no futebol europeu, mas ainda se recupera de lesão, que o atrapalhou na primeira temporada no Real Madrid e o impediu de ser o jogador decisivo que foi no Milan. Ele, porém, tem tudo para voltar a triunfar e continuar entre os melhores do mundo. Mas é cada vez mais uma exceção.

É de se pensar o que acontece com as nossas estrelas. Os principais jogadores brasileiros enfrentam problemas dentro e fora de campo que parecem cada vez mais evidentes. O talento continua existindo, mas mercados como o da Inglaterra tornam-se cada vez mais fechados para jogadores do país. É hora de os jogadores brasileiros começarem a pensar no que fazem e por que não são mais os protagonistas dos seus times. Certamente, não é sem razão.

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Equipe Trivela

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