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A volta de Grafite ao Santa Cruz ressalta uma relação de carinho rara de se ver

Já eram nove temporadas longe do futebol brasileiro. Aos 36 anos, após fazer o seu pé de meia na Europa e no Oriente Médio, Grafite está de volta ao país. E, por mais que alguns clubes da Série A fossem especulados como seu provável destino, o atacante jogará a segunda divisão. Volta ao Santa Cruz com o status de ídolo e muita festa no anúncio feito pelo clube. Reforça uma relação de carinho com Recife e com a torcida tricolor, em uma retribuição rara de se notar – ainda mais quando a situação do time está longe de ser confortável, próximo da zona de rebaixamento na Série B. Mesmo sem ter nascido em Pernambuco, o Arruda pemaneceu como a sua casa ao longo dos últimos 14 anos.

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Apesar do carinho, o Santa Cruz não é o primeiro clube de Grafite. Nascido em Campo Limpo Paulista, cidade metropolitana de São Paulo, o atacante não passou pelas categorias de base de nenhum grande clube. Sua formação aconteceu mesmo na várzea, enquanto ganhava seu pão vendendo sacos de lixo – emprego que teve dos 15 aos 21 anos. Depois de ser recusado em testes no Etti Jundiaí (atual Paulista) e no Juventus, já nem pensava mais em se profissionalizar quando ganhou a chance de atuar na quinta divisão do Campeonato Paulista. Após o início no Esporte Clube Campo Limpo, fez seu nome na Matonense e na Ferroviária, pela qual estourou. O suficiente para ser descoberto pelo Santa Cruz.

No Arruda, Grafite não viveu só momentos de alegria. Acabou rebaixado com o time no Brasileirão de 2001, apesar dos quatro gols na reta final da campanha. Mesmo assim, gerou o interesse de outros clubes e foi emprestado ao Grêmio no início de 2002, onde sofreu uma séria lesão no joelho. A deixa para voltar ao Santa e construir sua história de amor – não só com a torcida tricolor. O atacante marcou 11 gols em 15 jogos pela Série B, o que fez os pernambucanos beirarem o acesso. Além disso, também conheceu sua esposa em Recife.

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Desde então, Grafite rodou. Viveu grandes momentos com o Goiás e com o São Paulo. Começou a fazer sua trajetória na Europa com o Le Mans, enquanto viveu temporadas extraordinárias no Wolfsburg – a ponto de ser um dos melhores jogadores da Bundesliga em 2009 e (apesar das contestações) ser convocado à Copa do Mundo em 2010. Depois disso, também aproveitou para ganhar dinheiro e empilhar gols no Oriente Médio, vestindo as camisas de Al Ahli e Al Sadd. Mas, sempre que vinha de férias ao Brasil, passava por Recife e também pela sede do Santa.

Aos 36 anos, Grafite volta ao Brasil para viver os últimos momentos da carreira. E a escolha pelo Santa Cruz é emblemática. Obviamente, o veterano não jogará de graça, e o clube conseguiu bancar a transferências graças a um grupo de empresários – a especulação é de que receberá R$ 150 mil mensais, bancado pelos patrocinadores. Ainda assim, o atacante poderia muito bem ganhar quantia parecida em algum clube da Série A. Preferiu apostar na própria história pessoal.

Apesar da idade, Grafite continuou com bons números no Oriente Médio, embora tenha caído de produção nos últimos meses. Marcou 90 gols nas últimas quatro temporadas, sendo 10 em 37 jogos ao longo de 2014/15. De qualquer forma, ainda apresenta condições para balançar as redes na Série B e mudar as expectativas do Santa Cruz na competição. Deve ser um bom motivo para alimentar a paixão da já fanática torcida tricolor. E, de volta para aquele clube que sente como a sua casa, tem ainda mais motivação para justificar o investimento.

Abaixo, um vídeo de 2011 do site Coral.net, em uma das visitas em que Grafite declarou sua gratidão com o clube:

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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