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A tríplice coroa

Pela primeira vez desde 2002, times brasileiros poderão disputar os três torneios mais importantes no mesmo ano e fazer uma trinca inédita no futebol brasileiro

O ano de 2013 marcará a volta dos times que disputam a Libertadores à Copa do Brasil. Isso significa que quem joga a principal competição do continente não mais será privado de jogar a principal copa do país e, assim, volta a ser possível que um time conquista a tríplice coroa: Libertadores, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro.

A essa altura, certamente alguém lembrará do feito do Cruzeiro em 2003, quando a Raposa levou o Campeonato Mineiro, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro e chamou de tríplice coroa. Uma conquista inédita, dificílima, que ninguém nem chegou perto de repetir. Uma tríplice coroa nacional. Enorme e histórica. Mas não é a tríplice coroa maior, com o título da Libertadores. Essa ainda permanece inédita e intocada. Ninguém jamais conquistou Libertadores, Brasileiro e Copa do Brasil no mesmo ano. De 2001 a 2012, não era possível. Em 2013, voltará a ser.

Os times brasileiros poderão fazer o que na Europa é visto como a maior glória de um time: conquistar todos os maiores títulos da temporada. Algo que a  Internazionale fez em 2010, conquistando a Copa da Itália, Campeonato Italiano e a Liga dos Campeões. O que o Barcelona fez em 2009, conquistando a Copa do Rei, Campeonato Espanhol e Liga dos Campeões. Teve também o Manchester United em 1999, que faturou Copa da Inglaterra (FA Cup), Campeonato Inglês e Premier League. Todos esses ainda fizeram a tríplice coroa. A tríplice coroa que inclui os maiores títulos da temporada (do Mundial, falo mais à frente, calma lá).

Em 2013, volta a ser possível acontecer isso no Brasil. Isso porque desde 2001, os clubes que disputam a Libertadores foram tirados da Copa do Brasil por incompetência. Não deles, claro, mas da CBF, que não conseguiu organizar um calendário que permitisse que os times que jogam a competição sul-americana pudessem disputar também o torneio nacional. Uma punição à competência. O erro foi corrigido após dez anos. Antes tarde do que nunca, já diria o ditado. Mas não era só isso que impedia a tríplice coroa. Até 2002, o feito era possível, mas nunca aconteceu. Então, por quê?

Falta de ambição

A Copa do Brasil é tratada como uma passagem à Libertadores. Tanto que não são poucos os torcedores que consideram mais importante a vaga na competição sul-americana que a conquista do caneco. Uma óbvia inversão de valores, porque títulos valem mais sempre. O título é histórico, será comemorado, celebrado, entra no museu do clube. A vaga na Libertadores pode resultar apenas em uma eliminação no ano seguinte. Não tem museu, não entra na lista de títulos. Thiago Arantes, repórter do ESPN.com.br, tratou disso no texto “Acabem com o futebol e abram um estacionamento“.

E está aí um dos motivos da tríplice coroa não ter acontecido até hoje e razão pela qual dificilmente acontecerá. Os clubes – e muitas vezes, os torcedores também – ficam de barriga cheia com um título importante no ano. O estadual já há alguns anos não enche a barriga de ninguém, mas o time que conquista a Copa do Brasil, por exemplo, parece que não tem mais obrigação nenhuma no ano. Fica ali, morgando até o fim do ano, zombando como se o Campeonato Brasileiro não valesse mais nada para ele. Já tem a vaga na Libertadores, afinal. Já conquistou um título importante no ano. Para que mais?

Acontece o mesmo com a Libertadores. Os times se empanturram com o título e ficam arrotando até o fim da temporada, gordos e satisfeitos. Com a diferença que, lá pelas tantas do Brasileiro, o time tenta voltar ao seu melhor para chegar ao Mundial rasgando e ser campeão, como fez o Corinthians neste ano. Poderia ter feito mais. Tinha time para brigar pelo título. Mas não quis. Como a maioria dos times não quer.

Há exceções, claro. O próprio Cruzeiro em 2003, que depois de ganhar a Copa do Brasil jogando incrivelmente, passou o trator no primeiro Brasileiro de pontos corridos da história. E fez história. Mostrou força, ambição e conseguiu três títulos em um só ano. Se o estadual já não tem o mesmo peso de antes, ainda é um título relevante. Chama de tríplice coroa com todos os motivos, ninguém jamais chegou perto desse feito. O Internacional, em 2006, foi vice-campeão brasileiro depois de ganhar a Libertadores, e o Vasco, em 2011, disputou o título do Brasileiro até a última rodada com o Corinthians, mesmo depois de ganhar a Copa do Brasil.

Ah, o calendário…

Sim, o calendário é um grande obstáculo para que a Tríplice Coroa no Brasil não seja apenas uma teoria. A Libertadores e a Copa do Brasil acabavam no meio do ano, o que torna a preparação para as fases finais complicada para quem já está no início do Campeonato Brasileiro. O pico físico do time que quer o título sul-americano, por exemplo, tem que ser junho. Depois, é natural que haja uma queda que influencia negativamente no desempenho na liga nacional.

A mudança da Copa do Brasil, estendendo o torneio por toda a temporada, melhora bastante a situação. O time que ganhar a Copa do Brasil só o fará no fim da temporada, então não será possível largar a disputa do Brasileiro antes. Ao menos em tese. Mas a Libertadores continua sendo disputada apenas em um semestre e terminando em julho, o que ainda deve fazer com que os times brasileiros que eventualmente chegarem às fases decisivas sintam os efeitos negativos no início do Brasileiro.

É um obstáculo importante que, óbvio, tem que ser considerado. Por outro lado, os clubes brasileiros sabem disso, entram na temporada cientes dessa dificuldade, mas não se preparam para ela. Não possuem elencos fortes o suficientes para rodar o time. E mais: dificilmente um time roda o elenco. Muitos dos times envolvidos nas fases decisivas da Libertadores e Copa do Brasil nos últimos anos colocaram times inteiramente reservas, ou quase isso, nas primeiras rodadas do Brasileiro. Um exagero. Alguns jogadores precisam ser descansados, mas todos?

Cultura de titular e reserva

Há um outro problema. Como rodar o elenco se no Brasil um jogador que não joga todas as partidas não é considerado titular e fica insatisfeito? Pois é, os jogadores querem estar em todos os jogos. Isso não muda no Brasil ou na Europa. A diferença é que há um entendimento nos principais clubes europeus que rodar o elenco não só é aceitável como é necessário. Alguns jogadores sul-americanos sofrem mais com isso quando se transferem, mas os que se dão melhor acabam se adaptando.

Com essa cultura de titularidade mais enraizada por aqui, o técnico que coloca o time inteiro reserva lava as mãos em duas frentes: com os jogadores, porque ele mesmo diz que o time é reserva e isso fica claro na escalação inteira diferente da habitual, e com a diretoria, torcida e imprensa, já que um resultado negativo é prontamente justificado pela ausência dos titulares.

É normal ver na Europa os times pouparem jogadores chave do elenco na rodada da liga nacional imediatamente anterior a um jogo importante do torneio continental. Mas trocar o time inteiro é pouco usual. Seria preciso uma adaptação e um controle do vestiário eficiente – algo que, pegando novamente o exemplo, o Corinthians de Tite teria condições de fazer.

Quem será o primeiro?

No Brasil, como o Mundial é um torneio de peso e que faz parte da temporada (na Europa, é disputado na temporada seguinte, então seria um bônus, e não é possível fazer parte da mesma gama de conquistas que compõe a tríplice coroa), uma variação da Tríplice Coroa seria a Libertadores, o Brasileiro e o Mundial. Uma conquista que, certamente, marcaria para sempre a história do clube que conseguisse.

Os grandes clubes do futebol brasileiro têm dinheiro para montar grandes e bons elencos. Possuem torcidas que querem títulos. Falta mesmo é ambição, como o Cruzeiro teve em 2003 para levar o que é, até hoje, a única conquista que pode ser chamada de Tríplice Coroa no Brasil. Mas é possível ter uma conquista que seria uma tríplice coroa ainda maior. Quem será o primeiro a conquistar?

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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