Brasil

A seleção sub-20 naufragou, mas o momento pede mais autocrítica do que condenações

Pela terceira vez na história, a seleção brasileira sub-20 não consegue se classificar ao Mundial da categoria. Pela segunda vez nas últimas três edições da competição. No Campeonato Sul-Americano Sub-20 de 2017, as atuações abaixo do esperado já se escancaravam desde a primeira fase do torneio, embora os resultados tenham aparecido, garantindo a passagem à etapa seguinte. Só que o desempenho degringolou no hexagonal final. O time de Rogério Micale conquistou apenas uma vitória em cinco partidas, e mesmo assim com doses de sufoco, graças a um gol anotado aos 43 do segundo tempo. O pior ficaria para a última rodada, quando a Seleção precisava vencer a eliminada Colômbia. Não passou do empate por 0 a 0, que entregou a vaga no Mundial de bandeja à Argentina, quando já se via eliminada.

O Brasil teve, sim, bons momentos durante o Sul-Americano. Mas os problemas de organização da equipe em campo foram mais frequentes. O time apresentou apresentou dificuldades na construção de jogo, algo que não se solucionou ao longo da competição. Parecia não colocar em prática aquilo que fazia nos treinos, sem um padrão bem definido. E sofria demais nos minutos finais. A despeito do que aconteceu contra a Venezuela, a exceção que confirma a regra, a Seleção perdeu pontos fundamentais nos instantes derradeiros de diversas partidas. Foram dois gols sofridos nos acréscimos do segundo tempo durante o hexagonal, que custaram aquilo que poderia ser uma classificação tranquila.

Se o coletivo não foi bem, também não houve individual que salvasse. Não é uma questão de “geração ruim”, como muitos gostam de bradar. Poderia ser feita uma convocação diferente? Sempre é possível. O ponto é que as apostas de Micale não renderam bem. Alguns jogadores estiveram abaixo de seu potencial, outros não se encaixaram no time desencontrado. No entanto, pelas peças que tinha, os brasileiros poderiam ter buscado a classificação sem sofrimento. Eram quatro vagas para seis times na etapa final, a maioria em nível abaixo da Seleção.

O momento é de autocrítica. Rogério Micale admitiu a sua responsabilidade após a eliminação. Natural que os erros sejam estudados para que não se repitam na continuidade do trabalho. O treinador, que deu certo ao pegar um rabo de foguete danado, levando um time mal convocado à final do Mundial Sub-20 de 2015, não encontrou o caminho quando tinha mais tempo para se planejar. A falta de padrão de jogo, em especial, se coloca como ponto de indagação sobre os métodos adotados – algo que ele conseguiu consertar, por exemplo, nas Olimpíadas, quando a capacidade individual dos jogadores também era mais abundante.

Não é isso, porém, que joga fora o planejamento que vem sendo nas categorias de base da seleção brasileira. A CBF tem muitos defeitos, mas nos últimos anos vem adotando uma linha de trabalho, algo fundamental nas equipes de base. Começou com Ney Franco, teve um período um pouco mais turbulento com Gallo e segue em frente com Micale. E, que se questione algumas decisões como treinador, é inegável a competência profissional do baiano na formação de atletas e seu conhecimento na área.

Futebol, ainda mais na base, não é matemática. O que vem sendo bem feito no Brasil acabou penalizado justamente para premiar a Argentina, com a bagunça total na AFA durante os últimos meses, sem técnicos em várias equipes de base e sem pagar salários. O resultado nem sempre serve de argumento final. Ainda assim, é um norte bastante claro. E, quando o Brasil cai duas vezes no Sul-Americano em um período tão curto, a reflexão precisa ser mais profunda. O trabalho nas seleções de base necessita se voltar à preparação de alguns jogadores ao time adulto dentro do médio prazo. A eliminação, principalmente, põe em xeque essa possibilidade. Marca de maneira negativa uma geração.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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