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A seleção feminina demarcou sua posição após as denúncias na CBF: “Assédio não”

Enquanto acusação contra Rogério Caboclo é analisada, equipe preferiu rechaçar qualquer tipo de assédio

O presidente da CBF, Rogério Caboclo, foi afastado de seu cargo durante o último domingo, após gravíssimas denúncias de assédio moral e sexual feitas por uma funcionária da entidade. O Comitê de Ética tomou a decisão, enquanto Caboclo é investigado e as provas apresentadas pela vítima são analisadas. Isso é um fato. E, diante de um tema de extrema importância, a seleção feminina demarcou sua posição nesta sexta, antes da vitória por 3 a 0 sobre a Rússia em amistoso na Espanha. O time entrou com uma faixa em campo dizendo “assédio não”, enquanto em suas redes sociais as jogadoras publicaram uma mensagem incentivando as denúncias e condenando os abusos. É uma manifestação essencial, considerando o que supostamente ocorreu na CBF, inclusive para indicar solidariedade à possível vítima e rechaçar o óbvio.

Rogério Caboclo ainda será julgado pelo material apresentado, com diferentes relatos convergindo para as denúncias apresentadas pela funcionária. O presidente da CBF ainda tem a presunção de inocência. Mas, considerando o teor das afirmações feitas, não é preciso esperar o julgamento para demarcar a posição contra os abusos e contra os assédios. Foi importante o que a seleção feminina fez, sem se isentar de uma posição necessária diante de uma acusação ocorrida no ambiente de convivência da equipe. Bola dentro.

“Todos os dias no Brasil, milhares de pessoas são acometidas e desrespeitadas com cenas de assédio, seja moral ou sexual, especialmente nós, mulheres. São brasileiras e brasileiros, vítimas de abusos e atos que vão contra os nossos princípios de igualdade e construção de um mundo mais justo. Dizer não ao abuso são mais do que palavras, são atitudes. Encorajamos que mulheres e homens denunciem! Nossa luta pelo respeito e igualdade vai além dos gramados. Hoje mais uma vez dizemos: não ao assédio”, afirmava a mensagem publicada pelas atletas em suas redes sociais.

A partida contra a Rússia aconteceu em Cartagena, na Espanha. Durante o hino nacional, as atletas estenderam a faixa “assédio não” e depois se reuniram ao redor da mensagem. Se a Seleção foi muito bem enquanto a bola estava parada, também cumpriu sua missão quando o apito inicial soou. Depois de muita pressão, o triunfo por 3 a 0 começou a ser construído por Bruna Benites, aproveitando a sequência de um escanteio. Bruna também ampliou na segunda etapa, enquanto Andressa Alves fechou a contagem.

“Foi uma decisão em conjunto. A gente tem uma comissão que é muito alinhada com as atletas, então a gente resolveu mostrar nossa opinião nesse sentido, porque somos obviamente contra qualquer tipo de assédio – sem fazer pré-julgamento. Os fatos estão aí para serem apurados, mas a gente necessitava mostrar nosso posicionamento. A gente fez em conjunto, como faz em todas as outras situações. Agora é realmente deixar essa situação de lado e focar no nosso trabalho, porque esse período é muito importante para que a gente chegue preparado para as Olimpíadas. Nesse momento vamos fazer isso, manter o foco aqui e deixar que as autoridades resolvam essa situação”, comentou Marta, na saída de campo. Posição clara, sem necessariamente adotar um tom acusatório, mas também sem fugir do tema.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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