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A idolatria de Tiago Cardoso no Santa só aumenta com o paredão que se agiganta a cada final

Tiago Cardoso já havia sido o protagonista da vitória no Arruda, na última quarta. Se o Santa Cruz seguiu à Ilha do Retiro com a vantagem do empate para a finalíssima do Campeonato Pernambucano, devia muito ao seu goleiro. O camisa 1 fechou sua meta diante do Sport no primeiro jogo da decisão, realizando ao menos quatro defesas fundamentais para assegurar o triunfo coral por 1 a 0. Entre uma partida e outra, o ídolo enfrentou um drama pessoal. Na quinta-feira, sua avó faleceu. Tiago não pôde ir ao enterro. Agarrou-se ao profissionalismo para entrar em campo no domingo.

Aos 26 do segundo tempo, o Sport teve um escanteio marcado a seu favor. O defensor Oswaldo Henríquez saltou entre os marcadores do Santa e desferiu uma cabeçada certeira, com endereço. Que acabou não sendo o fundo das redes graças ao milagre de Tiago Cardoso. O goleiro tricolor teve tempo de reação, explosão, elasticidade. Espalmou a bola já em cima da linha. E o espanto por sua defesaça se personificava na cara de cada um dos rubro-negros na Ilha do Retiro. Entre os torcedores, a expressão era de incredulidade. Já o meia Reinaldo Lenis abraçou a rede, como se ela tivesse sido abandonada por sua parceira de vida. Culpa das mãos de Tiago. A partir daquele momento, o Santa podia sentir que não perderia mais a taça.  Até com a ajuda da trave, parecia impossível que alguém conseguisse passar pelo camisa 1. Que evitasse o bicampeonato, consumado com o 0 a 0 no placar.

Sem dúvidas, Tiago Cardoso terminou o Campeonato Pernambucano de 2016 como o grande responsável pela conquista coral. E, em meio à emoção, dedicou sua vitória aos familiares que não ele conseguiu acompanhar no momento difícil. Consolou-se com os milhares de torcedores que também se tornaram parte de sua família desde 2011. Afinal, é raro encontrar um jogador no futebol brasileiro atual tão identificado com seu clube quanto Tiago. Algum que tenha passado por tantos percalços juntos, saindo do limbo para triunfar na elite do Brasileirão.

A ascensão de Tiago Cardoso com o Santa Cruz, desde a quarta divisão, se tornou a introdução de sua biografia. Chegou ao Arruda justamente no ano em que os tricolores faturaram o acesso na Série D. Dois anos depois, conquistou também o título da terceirona, até o passo final na segunda divisão em 2015. Para entender a adoração ao goleiro nas arquibancadas, contudo, também é preciso conhecer sua trajetória no Pernambucano.

Tiago terminou tricampeão em suas três primeiras participações no estadual. Sempre como herói. Transformou-se um carrasco do Sport, com defesas impossíveis em cada uma das decisões. Isso sem contar a dose de sorte que sempre acompanha um grande goleiro, nas bolas na trave e nas outras salvas em cima da linha pelos companheiros. O camisa 1 fez os rubro-negros se contorcerem de raiva diante daquilo que parecia intransponível. Os seus melhores momentos naquelas finais já valeriam um DVD completo.

No entanto, Tiago Cardoso também enfrentou momentos difíceis diante do Sport. Os piores vieram em 2014, caindo para os rivais nas semifinais do Pernambucano e da Copa do Nordeste. “As duas eliminações foram humilhantes. Eu tinha vergonha de sair na rua. Ficava em casa com dor de cabeça. Até febre eu tive”, declarou, neste domingo. Sem poder atuar na conquista do estadual em 2015, lesionado, o arqueiro teve sua chance de dar a volta por cima só agora. Segurou firme, como costuma fazer no dia a dia de seu trabalho sob as traves.

Após a glória no Nordestão, uma semana depois Tiago levantava o seu sétimo título pelo Santa Cruz, o quarto como capitão. Deixou 2014 para trás e resgatou o desempenho fabuloso do tri. Coincidentemente, como em 2011, sagrou-se campeão justo no dia de seu aniversário. “Deus hornou. Ao invés da humilhação e da vergonha, muita honra. São dois títulos”, afirmou. “Até olhei no calendário. Que presente maravilhoso, não só para mim, mas para a torcida e a minha família, que está presente”. Aos 32 anos, o goleiro tende a seguir em alta por mais algum tempo. É o que a torcida deseja. Quem sabe, para se tornar o jogador mais vencedor da história coral, superando os oito troféus de Givanildo Oliveira. Diante de seu histórico, algumas novas finais diante do Sport motivariam rumo ao recorde.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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