Brasil

A identificação, a dedicação e, claro, os infindáveis milagres: 10 motivos que tornam Victor eterno ao Galo

Há oito anos, o atleticano aprendeu a venerar um santo. No Galo que negava repetidamente o impossível e emendava classificações heroicas como se tivesse um estoque interminável de milagres, o lugar mais especial do altar era dedicado a São Victor. Em tantas noites de aflição aos torcedores, o goleiro atendeu as preces e se transformou em responsável direto pela glória. Virou eterno, mesmo encarnado entre outros dez homens vestindo a camisa alvinegra. E não existe alma no Independência, no Mineirão ou em qualquer solo sagrado ao Atlético que não cultue as incontáveis façanhas do milagreiro de luvas.

Aquelas mãos (e aquele pé esquerdo) não apenas garantiram alguns dos troféus mais valiosos da história do Galo. Elas bateram no peito para honrar a camisa e resgatar a máxima grandeza do clube, pela primeira vez no topo das Américas. Elas afagaram toda uma massa e provaram que o herói, tão gentil quanto decisivo, tinha motivos para ser o mais amado entre os atleticanos. Depois de 424 jogos, vai ser difícil se acostumar com o Atlético sem Victor no gol. A história, de qualquer forma, está escrita. E não serão poucas as testemunhas do santo goleiro, que professarão sua fé e reconstituirão os milagres a cada vez que um coração alvinegro pulsar.

Neste domingo, Victor disputou seu último jogo pelo Atlético Mineiro. As homenagens não puderam ser à altura de sua veneração porque, afinal, o Mineirão permanece vazio em decorrência da pandemia. Ainda assim, o Galo fez jus à idolatria durante o dia especial. São Victor colocou suas mãos na Calçada da Fama do Mineirão e recebeu uma placa em reconhecimento do clube. Foi carregado nos braços pelos companheiros, todos com seu nome às costas, e viu diversos amigos relembrarem sua trajetória durante um vídeo exibido no telão. O craque seguirá envolvido no dia a dia do clube, anunciado como novo gerente de futebol. O que não se apaga é a imagem do santo de luvas sob as traves.

Quando Victor chegou ao Atlético, em 2012, a torcida realmente esperava um novo camisa 1 que resolvesse os antigos problemas do clube na posição. O rapaz de Santo Anastácio se projetou no Paulista e, depois de se transferir ao Grêmio, virou um dos melhores goleiros do país. Já acumulava as primeiras convocações à Seleção e também prêmios individuais no Brasileirão, incluindo a Bola de Prata em 2011. O investimento feito pelo Galo deixava claro as ambições do time, num momento em que Ronaldinho também desembarcava em Belo Horizonte. No entanto, mesmo com todo o impacto da notícia na época, a importância que São Victor ganharia aos atleticanos era inimaginável. O clube trazia, ali, o goleiro para vestir a camisa 1 no 11 ideal de todos os tempos. O homem que mudaria o curso da história, afinal.

Abaixo, entre momentos marcantes e outros fatores, relembramos dez motivos que fazem Victor ser tão especial ao Atlético Mineiro. A aposentadoria vira uma página importante no clube e para o próprio jogador. E termina de eternizar o que já estava gravado na memória, pelo menos desde 2013.

As camisas de Victor no Mineirão – Foto: Pedro Souza / Agência Galo / Clube Atlético Mineiro

O milagre do Horto

Se a torcida do Atlético Mineiro pudesse escolher um único momento de sua história para reviver, certamente seria aquele pênalti tardio no Independência, à beira da loucura. Sim, a marcação da arbitragem nos acréscimos do segundo tempo provocava um mar de desespero. O gol do Tijuana significaria o fim do sonho na Libertadores. Porém, a perna esquerda de Victor negou não apenas o tento de Riascos, mas também uma série de complexos e gozações relacionadas ao clube. A campanha vinha sendo brilhante até então, mas se marcaria na pele mesmo pela dor da angústia e pelo alívio da libertação. O Galo forte e brigador ressurgia em seu máximo esplendor naquele instante. Seria praticamente uma certeza de que nada, nada, seria capaz de tirar o inédito troféu das mãos dos atleticanos naquele 2013 inesquecível.

O herói ressurge

A trajetória do Galo na Libertadores beirou o surreal. Não foram poucas vezes em que o time parecia à beira do precipício, pronto à eliminação. Sempre ressurgia. Um Galo com ares de fênix a cada fase da competição. O mesmo aconteceria na semifinal, contra o Newell’s Old Boys. De novo, Victor operaria um milagre à sua canonização. O goleiro já tinha realizado uma série de defesas importantes enquanto a bola rolou. Já na marca da cal, na disputa por pênaltis, seria responsável por barrar exatamente o melhor jogador adversário – o ídolo Maxi Rodríguez. Colocou os atleticanos na final e encheu um pouco mais o peito de esperança.

A festa do santo-rei no Mineirão

A história de São Victor na Libertadores de 2013 não seria completa sem um capítulo final fulgurante, sem uma passagem épica em pleno Mineirão. As lembranças estavam marcadas, é verdade, mas o título precisava vir para fazer jus ao tamanho da epopeia protagonizada pelos atleticanos – e por seu maior santo. Viria, com nova dose cavalar de drama, contra o Olimpia. As provações sofridas pelo Galo eram tão constantes, e o roteiro por vezes era tão rodeado de clichês, que até parecia impossível duvidar que o troféu não viria com todos aqueles contornos. O torcedor, ainda assim, testava sua fé. Veria o próprio Victor batido, quando Ferreyra falhou no mais feito dos gols perdidos. E, depois de mais um renascimento atleticano que levaria aos penais, o santo estava lá para negar três vezes a derrota, ao pegar a cobrança de Miranda e abrir caminho à confirmação dos campeões. A anunciação antes do júbilo.

A Recopa, a renovação da história

O Atlético Mineiro pareceu perder um bocado de sua luz quando tentou reconquistar a Libertadores em 2014. Por mais inspirado que Victor estivesse, suas intervenções foram insuficientes ao bicampeonato. Mesmo assim, o Galo buscaria outro troféu continental na Recopa – uma competição menor, mas aclamada pela maneira como os atleticanos de novo ressurgiram das cinzas para botar a faixa no peito. A decisão contra o Lanús não precisou chegar aos pênaltis, não precisou exigir tanto assim de Victor. Apesar disso, a vitória por 4 a 3 na prorrogação era a renovação dos testes cardíacos à massa, além de outra concessão à glória do santo que protegia o gol alvinegro.

A Copa do Brasil das reviravoltas

A Recopa, porém, seria um mero aperitivo. A predestinação se manifestaria mais forte no segundo semestre de 2014, e de outras maneiras. Se a Copa do Brasil não tinha a mesma importância de uma Libertadores, era uma competição que ainda faltava na estante do clube. E que, por toda caminhada, se tornaria extremamente saborosa pelas seguidas apoteoses e reviravoltas contra antigos desafetos. Victor seguiria como um talismã nas épicas viradas diante de Corinthians e Flamengo, com direito a uma defesa salvadora no fim da classificação contra os rubro-negros. Já na decisão, ganharia a benesse de se transformar em mero espectador, enquanto os atleticanos se impunham contra o rival Cruzeiro. Um passo a mais à eternidade.

A chance de ser um goleiro de Copas

Pensando em seleção brasileira, a Copa do Mundo de 2014 é um momento que pouca gente deseja lembrar. Não para Victor. É importante que um goleiro do gabarito do santo tivesse um Mundial em seu currículo. Era um candidato a 2010, mas o chamado para a África do Sul não veio. O reconhecimento aconteceria em 2014, depois de tudo o que havia vivido no Atlético Mineiro durante o ano anterior. Do banco, ao lado de Jefferson, Victor viu os sete gols sofridos por Júlio César e era um mero coadjuvante no maior vexame da história da Seleção – em seu velho Mineirão. Ainda assim, por tudo o que vinha jogando, merecia ser lembrado como um goleiro de Copas. É um motivo a mais para valorizar o maior camisa 1 da história atleticana.

A honra lavada dos atleticanos

A Libertadores de 2013 e a Copa do Brasil de 2014 possuem um peso imenso à grandeza do Atlético Mineiro. Um clube com o tamanho e a torcida do Galo não deveria ficar tanto tempo longe dos principais títulos. Os dois feitos inéditos serviram para honrar o manto e espantar complexos, até pela maneira como aconteceram. Os atleticanos superaram velhos fantasmas e protagonizaram duas campanhas cativantes, especialmente pela maneira como reverteram o improvável. Victor é uma face imperativa neste momento da instituição, por ser ele tantas vezes o responsável por agarrar as esperanças alvinegras na unha. Com isso, virou um sinônimo do próprio peso da camisa e das glórias do Atlético.

O exemplo dentro do clube

Victor criou uma imensa identificação com o Atlético Mineiro, logicamente fortalecida pelos feitos dentro de campo, mas não apenas por isso. O goleiro se tornou também um dos jogadores mais queridos por sua postura exemplar. Nunca deixou de trabalhar forte, mesmo já garantindo seu lugar nos livros com poucos meses em Belo Horizonte, e sempre se mostrou muito próximo da torcida. Pegar o pênalti de Riascos criou o santo, mas ele não seria de barro. O carisma e a proximidade da massa serviram para que Victor caísse ainda mais nas graças dos atleticanos, realmente criando um laço forte e entendendo o sentimento por trás do clube. Virou um norte, um líder. Não dá para perder de vista essa relação tão genuína e cheia de carinho, por mais que as grandes histórias venham primeiro à mente.

A capacidade de operar milagres

Também não se pode resumir as grandes atuações de Victor aos principais títulos que conquistou. O Atlético Mineiro não repetiria o êxtase experimentado entre 2013 e 2014, mesmo montando outras equipes competitivas nos anos posteriores. Uma constante durante quase todo o período, ainda assim, foi a forma como São Victor sempre apareceu para engrandecer o clube. O goleiro parecia se motivar mais com os grandes momentos. Desta maneira, não foram poucos os seus clássicos marcantes contra o Cruzeiro, que o ajudaram a faturar quatro troféus no Campeonato Mineiro. Ou ainda outras partidas brilhantes, especialmente em torneios eliminatórios, como na Copa do Brasil de 2016. Uma série de defesaças contra a Unión La Calera na Sul-Americana de 2019 foi uma das últimas vezes que os atleticanos presenciaram aquela lenda. E foram poucos os arqueiros no Brasil com tamanha facilidade para operar milagres nas últimas décadas.

A dedicação por 424 jogos e além

Victor é o nono jogador com mais partidas pelo Atlético Mineiro, e o terceiro goleiro da lista, atrás dos igualmente gigantes João Leite e Kafunga. Sua trajetória no clube começou quando já tinha 29 anos e, dentro de campo, acaba aos 38. As lesões dos últimos tempos reduziram seu espaço e, sacrilégio, até apresentaram um goleiro mais suscetível aos erros. Porém, essa forma um tanto quanto dolorosa de se despedir talvez fosse necessária para fazer os atleticanos aceitarem a passagem da lenda dos campos à plena memória. Não se diminui, contudo, a dedicação que sempre esteve no trabalho de Victor e até mesmo sua força para seguir em frente, quando já não era mais intocável entre os titulares. Por essa humildade, e por esse apego ao clube, é que se estende sua adoração. O goleiro só virou atleticano do meio para o fim da carreira, mas se despede como se o preto e o branco do escudo permeassem toda a sua vida.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Bloqueador detectado

A Trivela é um site independente e que precisa das receitas dos anúncios. Considere nos apoiar em https://apoia.se/trivela para ser um dos financiadores e considere desligar o seu bloqueador. Agradecemos a compreensão.