A esquecida epopeia do torcedor que acompanhou a Seleção durante toda a campanha em 1958

A saga do Brasil na Copa de 1958 costuma ser contada através de personalidades além dos gramados. Logicamente, a importância de Didi, Vavá, Garrincha, Pelé, Nilton Santos, Bellini e outros craques é enorme. Mas também são muitas as histórias protagonizadas pelo técnico Vicente Feola, pelo chefe de delegação Paulo Machado de Carvalho, pelo massagista Mario Américo, pelo dentista Mário Trigo. E, mesmo sem um cargo oficial, a Seleção ganhou um membro de presente na viagem à Suécia. O carioca Cristiano Lacorte virou torcedor-símbolo durante a campanha brasileira, considerado até como ‘amuleto’ pelos jogadores. Um personagem notável, condecorado até pela presidência, embora pouco lembrado nos dias atuais.
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Se acompanhar uma Copa do Mundo in loco nos dias atuais já é uma grande aventura, imagine então como se dava em 1958, com todas as dificuldades com os transportes. Pois Lacorte foi atrás de seu sonho, apesar das limitações. O advogado de 26 anos contraiu poliomielite durante a infância, o que tornou cadeirante. Mesmo assim, o fanatismo pela Seleção falou mais alto e o carioca bancou a viagem até a Suécia. Não foi barato. Figura conhecida em Copacabana, Cristiano teve ajuda de seu pai, o cientista Guilherme Lacorte.
A partida de Cristiano Lacorte rumo a Estocolmo se tornou um evento por si. O embarque do advogado no aeroporto do Galeão contou com a presença de 90 amigos, que distribuíram bandeirinhas do Brasil e soltaram até mesmo foguetes para desejar boa sorte. Na Suécia, o torcedor se juntou ao restante da delegação da CBD, viajando com ela aos jogos, embora pagasse tudo do seu bolso. Além disso, o carioca também se hospedou ao lado da concentração da Seleção.
Lacorte já era amigo de alguns dos jogadores do elenco, como Bellini e Orlando, que frequentavam sua turma em Copacabana. No entanto, a Copa do Mundo estreitou os laços do torcedor com os jogadores. Os próprios atletas conduziam a cadeira de rodas do advogado. Já nas partidas, se posicionava sempre à beira do campo, onde se ouvia pelos gritos de apoio e até pelas orientações aos companheiros.

“Cristiano fez do capitão Bellini seu ajudante. A seleção o transformou em mascote de todas as horas. Nos treinos, nos jogos, nos passeios, o advogado sempre foi o amigo e conselheiro. Mais ainda, foi exemplo e estímulo. Foi a presença do torcedor brasileiro: simples, sofredor e vibrante. Foi a imagem de um povo. Foi o Brasil. Em cadeira de rodas”, escreveu a revista O Cruzeiro, no encarte especial após a conquista do Mundial.
E o ‘talismã’ pôde comemorar junto com o restante da equipe, mais um entre os campeões naquele 29 de junho, há exatos 58 anos. Cristiano Lacorte voltou com a delegação, participou dos festejos no Rio de Janeiro e até ganhou uma medalha do governo, por simbolizar o torcedor brasileiro na Suécia. Depois de já ter ficado a 300 votos de ser eleito vereador antes da epopeia, o advogado conseguiu uma cadeira na Câmara Municipal ainda em 1958. Todavia, não pôde completar o mandato ou mesmo ver o bicampeonato mundial do Brasil: em 1960, o carioca faleceu em um acidente automobilístico. Ficou para a história como um dos maiores fanáticos pela Seleção.



