Brasil

A escolha de Sophia

Demitir Felipão foi tão errado quanto teria sido não demiti-lo. Não faz sentido? Segura aí, que eu já chego lá.

Nos últimos anos, a diretoria do Palmeiras se especializou em fazer más escolhas. Isso sem contar as péssimas. Quando não errava o alvo, se atrapalhava com o momento de dar o tiro. Conseguiu errar até quando contratou o técnico que vinha de um tricampeonato brasileiro, já que, naquele momento, a equipe se virava bem sob o comando do interino Jorginho. Ele que virou justamente o nome mais especulado para ocupar o cargo, ao menos enquanto escrevo este post.

Evidente que é etéreo acreditar que o clube poderia manter aquela boa fase com um treinador inexperiente no comando de um grupo apenas razoável. Mas também o é inocentar por completo Muricy, pregando que as mudanças que ele promoveu não influenciaram na queda de produtividade, pois o time não seria mesmo capaz de manter o desempenho inicial. A oscilação viria de qualquer jeito, não sabemos quais seriam suas consequências. O que o Palmeiras fez ali foi antecipá-las, desnecessariamente.

Repatriar Felipão era uma boa ideia e, ao contrário da situação relatada acima, viria em um momento adequado. Talvez o preço parecesse absurdo. E era mesmo, nossos treinadores são supervalorizados e não costumam compensar o desgaste que causam às folhas de pagamento, talvez nem mesmo quando bem sucedidos. Mas Scolari é um ídolo dos palmeirenses, os conduziu ao maior título de sua história e era cobiçado por quase todos os grandes clubes do Brasil. Messianicamente, acreditava-se que Felipão era o único que poderia dar um jeito na bagunça pela qual acabaria engolido.

O investimento em um técnico tão caro deveria ter sido acompanhado de uma reestruturação interna, que já se fazia obrigatória pelas bandas do Palestra há muito tempo. Parodiando o lema de um certo clube carioca, bem que poderiam adotar os dizeres “Crise, o Palmeiras faz em casa” (aliás, o certo clube carioca também poderia adotar isso como novo lema). Scolari não é um sujeito dos mais pacientes e ter de lidar com as encrencas de bastidores só o distraiu do seu trabalho.

Quando César Sampaio chegou para fazer esse meio campo e reduzir os atritos entre as partes, já era tarde.  A confiança em Felipão como a solução de todos os problemas palestrinos já não existia mais. Mas se já não era, por que a diretoria o manteve por tanto tempo?

Listando prós e contras

Pelo custo-benefício, o desempenho de Scolari no retorno ao Palmeiras foi sofrível. Mesmo analisando as condições de trabalho que tinha e o material humano pobre que lhe foi disponibilizado, é possível dizer que ele não entregou o que dele se esperava. Boa parte do problema repousa justamente na idealização romântica do técnico, visto que ele até alcançou bem mais do que outros conseguiriam no seu lugar. Alguns dizem que sem ele o Palmeiras teria caído já em 2011, o que me parece um exagero. Mas concordo com os que dizem que o título da Copa do Brasil, que foi há apenas alguns meses, só veio graças aos métodos do treinador.

É difícil medir com exatidão qual a culpa de Felipão no estado em que o Palmeiras se encontra, porque, a não ser que você tenha boas fontes nos bastidores do clube, não tem certeza do quão responsável ele foi pelas várias contratações infelizes feitas duranter a sua gestão. Ele indicou aqueles nomes? Se não indicou, pelo menos os aprovou? Ele não foi claro quanto às necessidades do plantel? Se foi obrigado a engolir os Mazinhos e Betinhos todos, Scolari é vítima. Não coitadinho, nem injustiçado, mas vítima da situação. Outro atenuante é o excesso de contusões do elenco, que sempre o obrigou a mudar de planos.

De fora, é fácil pregar a um palmeirense que o bigodudo tinha mesmo de ser demitido e que, ao chiar, o que ele está fazendo é se apegar a um passado que não volta mais. Nem todos que estão de luto por Felipão estão sendo sentimentalistas. Muitos estão pensando de forma racional e, ainda assim, não gostaram da demissão. Não acham que o técnico vinha fazendo um trabalho excepcional, mas sabem que o problema não era ele. Na vida, preferimos sempre estar cercados de pessoas nas quais podemos confiar plenamente. Ainda mais quando as coisas não vão bem. Já ouviu falar em cargos de confiança? O torcedor distribui os seus, mesmo que imaginários.

Movidos pelo desespero

Como bem observou em seu blog o jornalista Gian Oddi, o momento escolhido foi estranho. Para levantar o ânimo do elenco, o Palmeiras só tinha mais dois cartuchos para queimar: arrancar uma vitória no clássico contra o Corinthians, ou trocar de técnico. Escolheu gastá-las de uma vez só. E por falar em demitir treinador para melhorar o astral do grupo, não já passou da hora de mimar os jogadores brasileiros? Todo clube que luta contra o rebaixamento toma essa atitude, como se subornasse o filho com um brinquedinho novo para que este prometa que vai se comportar direitinho ou estudar mais, como comparou no Twitter o amigo trivelista Felipe Lobo.

A demissão de Felipão não é, por si só, condenável. Assim como postou outro companheiro de Trivela, o Menon, não compro a ideia de que a manutenção do técnico é sempre a alternativa mais responsável. O que questiono é se, a essa altura do campeonato (literalmente), vale a pena descartar tudo o que Scolari significa para o clube e se aventurar com a contratação de um técnico qualquer, sem que esta aquisição se baseie em um plano, mas movida pelo desespero de tentar alguma coisa diferente. Especialmente, se optarem por substitui-lo por um treinador que vive da fama de disciplinador e do espírito de Super Nanny, como o que era cogitado ontem.

De equívoco em equívoco, o Palmeiras chegou ao fim da linha, onde finalmente não havia mais uma decisão correta a tomar. Um grande feito, conquistado por incompetentes exemplares. Por isso, demitir Felipão foi tão errado quanto teria sido não demiti-lo. Agora só resta esperar pelo castigo mais brando. Com o agravante de saber que nem a punição mais rígida foi capaz de educá-lo.

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PS: Segunda-feira, este blogueiro parte para aguardadas (verdade) e merecidas (há quem discorde) férias. Possivelmente, retornará com algumas histórias para contar. Mas meus pacientes leitores não ficarão livres de mim desde já, pois deixo um material pronto para ser publicado na próxima semana, como parte de mais um requintado especial preparado pela Trivela. Até a volta.

PS2: Quando eu voltar, já quero essa novela Ganso encerrada, não importa qual seja o seu final. Ouviu, Ganso? Ouviram, Santos e DIS? Ouviram, São Paulo e Grêmio? Cala a boca, Léo, que não pedi um palpite seu.

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Ricardo Henriques

Jornalista agnóstico formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Ricardo Henriques nasceu, foi criado e se deteriorou no Recife, cidade com a qual vive uma relação de amor (mentira) e ódio. Não seguiu adiante com seus sonhos de ser repórter esportivo, nem deu continuidade à carreira como centroavante trombador e oportunista nas areias de Boa Viagem, mas encontrou no Twitter a plataforma ideal para palpitar sobre todos os assuntos onde não foi chamado. Viciado em esportes, cinema, seriados de TV e escolas de samba, tem mania de fazer listas que só interessam a si próprio, chegando ao ponto de eleger suas musas como se selecionasse o onze inicial de um time de futebol. Esse blog não trará informações quentes de bastidores, análises táticas abalizadas ou reflexões ponderadas. O que talvez, por consequência, não traga leitores. No cardápio: ranzinzices bem humoradas, cornetadas debochadas e fartas doses de cretinice e cultura pop, temperando o que há de mais ridículo e pernóstico no mundo do futebol. PS: ele tirará uma onda com o seu time ou os seus ídolos, mais cedo ou mais tarde. Não vai adiantar você fazer careta e espernear que nem o Mourinho faz quando é contrariado. Contato: [email protected]

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