A emoção de Alisson na solidão do Beira-Rio e o sentimento que esperamos dos nossos ídolos

A empolgação pelo título estadual já tinha ficado para trás. O Internacional passou por cima do Juventude por 3 a 0, conquistando o terceiro hexacampeonato gaúcho de sua história. No entanto, com o Beira-Rio praticamente vazio, a euforia havia baixado. Enquanto os jogadores colorados iam para os vestiários, dando sequência às comemorações, Alisson preferiu continuar no gramado. Pés descalços, não queria abandonar o terreno onde se consagrou. Então, recostou-se em uma das balizas, sua velha companheira. Perdido em pensamentos, desabou em lágrimas. Não conteve a emoção ao perceber que sua trajetória com a camisa vermelha será interrompida. Não o ponto final, mas uma pausa que não deve ser breve.
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Alisson começou a atuar na escolinha do Inter quando tinha apenas oito anos. Aos 10, chegou às categorias de base. Atravessou 14 de seus 23 anos como atleta dos colorados, uma passagem que preenche suas memórias, que se mistura com sua própria história. E a instituição também se confunde com sua família, ainda mais ao dividir os treinos com o irmão mais velho, Muriel. De promessa, o garoto se tornou ídolo na equipe principal. As grandes atuações valeram muito à equipe, em especial na Libertadores de 2015, quando se colocou entre os melhores goleiros do torneio. O sucesso no Beira-Rio levou Alisson para a Seleção. E, daí, para voos distantes do próprio clube. Talvez seja o melhor para a carreira, mas, pela cena deste domingo, não será o melhor para o coração do colorado.
Passado, presente e futuro se confundiram na cabeça de Alisson. Rompe sua passagem, abre mão da idolatria e se agarra à chance de vencer na Europa. O jovem goleiro segue para a Roma cheio de expectativas. Também com a sensação de dever cumprido, ao se sagrar campeão em um de seus últimos jogos, e ainda erguendo a taça como capitão. Mas quem disse que os sentimentos são regidos por tal racionalismo? A emoção de uma vida lhe rompeu em uma noite.
Após alguns minutos na solidão da trave, à qual está tão acostumado, Alisson ganhou a companhia do irmão Muriel. Depois, dos sobrinhos, como se o futuro se materializasse a sua frente. Hora de conter as lágrimas, abrir o sorriso. E olhar para frente, apesar das saudades. O goleiro quer aproveitar as últimas oportunidades e atuar no início do Brasileirão, enquanto Danilo Fernandes se adapta ao Beira-Rio. A conquista do Gauchão, de qualquer maneira, serve como um marco para se orgulhar dos 15 anos vividos em vermelho e branco.
“Aproveitar cada minuto, cada segundo. Está chegando o momento. Mas estou muito feliz com o que estou vivendo. É bom aproveitar cada segundo. As pessoas que eu falo, as mais velhas sempre me aconselham a aproveitar os momentos. Eu aproveitei. É um misto de sentimentos, mas é alegria. Não tem tristeza. O choro é de alegria, de satisfação. De saber que eu vou sentir saudades porque… Não dá para falar”, declarou, na saída do campo.
A atitude de Alisson, aliás, transcende o clube. É o respeito que esperamos do jogador do nosso time. A identificação que o aproxime de nós, também como um torcedor. A vontade tão rara de se ver entre cifras volumosas. Tudo bem, o goleiro poderia seguir no time do coração se quisesse. Fez a opção que achava pertinente para a sua carreira. Mas, independente do raciocínio, a reação deste domingo escancara o que o camisa 1 realmente sente pelo Internacional. Algo admirável.



