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A contratação de Honda é uma atração especial ao Botafogo, por mais que gere dúvidas em campo

O anúncio do Botafogo tão aguardado pela torcida alvinegra não poderia ser menos impactante. A confirmação da contratação de Keisuke Honda veio em um vídeo especial, em que o meia japonês se transforma em uma versão boleira de Ash na tela do “Game Play” – “. A transferência repercute muito por seu caráter midiático e pela presença de um novo astro estrangeiro em General Severiano. Ao marketing, a tendência é que o acerto renda. É no futebol que surgem as maiores reticências sobre o que poderá fazer o veterano de 33 anos.

Honda, sem dúvidas, é um dos maiores nomes da história do futebol japonês. Pela seleção, o meia foi protagonista dos Samurais Azuis em duas Copas do Mundo – sobretudo em 2010, quando seu ótimo nível valeu a classificação às oitavas de final. Também conquistou uma edição da Copa da Ásia, eleito o melhor jogador do torneio, e encabeçou uma das gerações mais talentosas do país. Mesmo após perder a titularidade, teve os seus lampejos no Mundial de 2018 e deu sua contribuição decisiva, saindo do banco de reservas.

Já por clubes, Honda também se tornou notável em seus melhores momentos. Após sair do Nagoya Grampus, estourou com a camisa do VVV e viveria anos consistentes com o CSKA Moscou, incluindo boas aparições nas competições europeias. O problema surgiria depois disso. Quando desembarcou no Milan sob enormes expectativas, o meia não vingou. Teve uma breve fase positiva logo após a Copa de 2014, mas não a manteve. A bem da verdade, ver a camisa 10 nas costas de um jogador que rendia tão pouco parecia até um sacrilégio. A torcida rossonera não via a hora de se livrar do medalhão e, como consequência, ele teve dificuldades para reabrir as portas no mercado europeu.

Desde 2017, Honda atuou apenas em mercados secundários. Desembarcou num negócio aleatório rumo ao Pachuca e até engrenou com o passar dos meses, mas deixou os Tuzos em sua segunda temporada. Também jogou pelo Melbourne Victory, na A-League, com um destaque razoável na frágil liga australiana. Já nesta temporada, em sua tentativa de retornar à Europa, pouquíssimo fez com a camisa do Vitesse e logo seria descartado. Ao mesmo tempo, a partir de 2018, ainda passou a conciliar seu trabalho à frente da seleção do Camboja.

É importante que o Botafogo tenha em mente o nível de Honda. Sua melhor forma já ficou para trás na metade inicial da década. Durante os últimos tempos, se não arrebentou em suas aventuras fora da Europa, ao menos marcou sua contribuição ofensiva constante, mas as condições físicas decaem. Em compensação, a qualidade técnica permanece e pode ser de alguma valia com gols ou assistências. É preferível que atue centralizado na armação, para aproveitar a precisão de sua canhota e a visão de jogo, do que deslocado às pontas. O problema é o excesso de alternativas na faixa central alvinegra, com Bruno Nazário e o encaminhado Gabriel Cortez.

O Botafogo admite o risco no acerto com Honda, mesmo sem custos iniciais na contratação. O clube parecia ter desistido do negócio, mas mudou sua postura diante da reação massiva da torcida. O meia receberá um salário fixo mensal, mais baixo do que o ganho no Vitesse, e terá adicionais conforme suas metas forem alcançadas. Talvez o grande atrativo, e a aposta mútua, seja o percentual de marketing que o japonês receberá. Ao todo, 20% dos rendimentos neste sentido vão direto para o bolso do jogador. Usará a camisa 4, a mesma que vestiu durante as duas últimas Copas do Mundo.

Pelos ares surreais, até se torna natural comparar a contratação de Honda com a de Clarence Seedorf. Todavia, isso só tem cabimento pelo fato de serem atletas de outros continentes chegando ao Brasil, algo relativamente raro. A capacidade técnica, a mentalidade competitiva e o preparo físico mantinham Seedorf muito à frente do que Honda representa hoje – sem nem precisar entrar no tamanho das duas histórias. As chances de que a vinda do holandês gerasse frutos em campo eram enormes. Quanto ao japonês, as indagações se tornam maiores, até por seu histórico recente e pela forma como não cumpriu todas as expectativas do início de carreira.

A torcida do Botafogo está em seu direito de curtir a nova onda. A mobilização antes da contratação de Honda chegou a ser classificada como “carência”. Mas também não se nega o barato de ver o clube na mídia internacional e de poder criar esperanças com um jogador renomado, por mais duvidoso que seja o seu impacto. Num momento em que os alvinegros precisam se alavancar, até pelo início de temporada ruim, o novo astro gera um clima diferente em General Severiano. Só é preciso ter consciência de que ele não será o salvador da pátria, numa equipe (esta sim) cheia de carências.

Fora de campo, o Botafogo já começou a se aproveitar. O próprio anúncio se tornou uma boa maneira de explorar o potencial de Honda e o apelo que o japonês possui, apesar dos estereótipos. Dá para adotar um certo tom “nostálgico”, com as lembranças de infância ligadas à cultura pop nipônica. Em outra frente, a imprensa do Japão dará uma atenção extra à empreitada e abre possibilidades no mercado. Melhor ainda se as vitórias reaparecerem, o que pode motivar a torcida a comprar camisas e a encher o estádio, sem que a transferência pareça uma mera cortina de fumaça.

E vale dizer, também, que o próprio futebol brasileiro ganha um personagem interessante. Indo além do que acontece em campo, Honda sempre se mostrou aberto a conhecer outras culturas e isso rege os caminhos de sua carreira. A iniciativa de treinar o Camboja tão cedo indica um atleta disposto a absorver conhecimentos e a ensinar. Ideias são sempre bem-vindas e retornar ao país no qual o meia brilhou durante a Copa do Mundo de 2014 pode servir de motivação.

Em seu primeiro vídeo como jogador do Botafogo, Honda faz um esforço para falar português, o que reforça esta percepção. E também há um fator a mais: o veterano não esconde que disputar os Jogos Olímpicos de 2020, dentro de seu país, ainda consta como um objetivo em sua carreira. Fora das convocações desde o Mundial de 2018, fazer por merecer esse espaço numa seleção olímpica tão cheia de talentos não parece algo simples, sobretudo por concorrer com ótimas promessas. Se deseja mesmo isso, terá que gastar a bola até o início do Campeonato Brasileiro. Aí, sim, a torcida alvinegra agradecerá de verdade.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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