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A conquista do América Mineiro no estadual também é um reencontro com a história

Nenhum outro campeão estadual em 2016 ficou tanto tempo sem levantar a taça. E só um deles possui uma conquista mais antiga. Justamente no ano do centenário de seu primeiro título, o América Mineiro volta a se impor como o melhor time de Minas Gerais, após esperar por 15 anos. Uma campanha notável, especialmente pela maneira como o time de Givanildo Oliveira se portou nos mata-matas. Eliminou o Cruzeiro nas semifinais, antes de cortar o barato do Atlético Mineiro e fazer do quadrifinalista da Libertadores vice no estadual. Que a competição tenha os seus defeitos, que a dupla de ferro tenha patinado, tudo isso não é culpa do Coelho. Leva o troféu e ganha confiança para um ano memorável, diante da volta à Série A do Brasileiro.

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Obviamente, a conquista não pode inflar o ego do América. Seu objetivo continua sendo a permanência na elite do futebol brasileiro. Mas não dá para menosprezar o que vem sendo feito no Estádio Independência. Pelo contrário, é motivo para se prestar mais atenção. Que não seja um elenco tão forte, o Coelho possui os seus predicados, sobretudo pela postura aguerrida nas partidas decisivas. O gol do título, de Danilo, aos 37 minutos do segundo tempo dentro do Mineirão abarrotado de alvinegros, ajuda a exemplificar bem. O momento é de tentar segurar os destaques individuais, embora o lateral Bryan esteja de partida. E pensar na vida que segue para o Brasileirão.

De qualquer forma, por mais que o título reluza o presente do América, ele também resgata o passado recheado de boas histórias. Esta é a 16ª taça do Mineiro que acaba nas mãos do Coelho. Durante a era amadora, se estabeleceu como grande esquadrão local, um dos dois únicos decacampeões estaduais do futebol brasileiro. Já nos primeiros anos de profissionalismo, as conquistas rarearam um pouco mais, diante da hegemonia de Galo e Cruzeiro. De qualquer maneira, como um cometa, os americanos voltaram ao topo praticamente uma vez por década: 1948, 1957, 1971, 1993. Até que o fenômeno fosse avistado pela última vez em 2001.

Como manda a tradição no Independência, o América contava com uma equipe recheada pelas próprias revelações – Ruy Cabeção, Fabrício, Wellington Paulo, Tucho. E o Coelho já vinha em ascensão, após conquistar o acesso na Série B de 1999 e o título na Copa Sul-Minas de 2000. Ainda assim, o peso daquele Campeonato Mineiro é enorme, até pelo desdobramento campanha. Ameaçado de rebaixamento durante os primeiros jogos, a equipe de Lula Pereira deu a volta por cima com uma sequência de nove vitórias em 11 partidas. Valeu não só a salvação, como também a vaga na final, contra o Atlético Mineiro. No primeiro jogo, os americanos enfiaram 4 a 1 sobre os rivais. Já no segundo duelo, por mais que o Galo tenha lutado, o triunfo por 3 a 1 não foi suficiente para estragar a festa no Independência.

Desde então, os sucessos do América em primeiro nível desapareceram. O time chegou à Série C do Brasileiro e à segundona do Mineiro em meados dos anos 2000. Até que a redenção começasse a se desenhar através de vários velhos conhecidos. Em 2008, o Coelho voltou à elite estadual. Nos dois anos seguintes, assegurou dois acessos no campeonato nacional. Entre os heróis, veteranos revelados no próprio clube – como Euller, Wellington Paulo, Evanílson e Irênio – misturados a promessas do porte de Danilo, hoje no Real Madrid. E, durante a conquista da Série C, o treinador era o mesmo de hoje: Givanildo Oliveira.

giva

A trajetória do pernambucano como técnico, aliás, impressiona. O ídolo do Santa Cruz nos tempos de volante construiu uma carreira ainda mais sólida à beira do campo. Giva soma 13 títulos estaduais, em cinco campeonatos diferentes. Viveu momentos dourados especialmente por Paysandu, Santa Cruz e Sport. Mesmo assim, é difícil encontrar uma conquista mais surpreendente do que a deste domingo. O veterano amplia sua importância entre os maiores técnicos da história americana. Isso se não for o maior, considerando o que somou em suas quatro passagens pelo Independência, em tempos mais duros. Faturou a Série B, a Série C e o Mineiro, além do acesso em 2015 – o sexto em sua longeva carreira.

No fim das contas, nada soa mais justo do que colocar Givanildo como o grande artífice do feito do América Mineiro. Se o Coelho reencontra seu passado glorioso ao voltar para o topo do pódio, também ajuda a deixar em evidência a trajetória do comandante de 67 anos. Agora, ambos precisam deixar a comemoração de lado e olhar para frente: o Coelho tem um trabalho árduo pela frente se quiser permanecer na Série A. Mas o primeiro impulso já foi dado neste domingo, um prêmio e tanto aos desempenhos recentes.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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