Brasil

A chuteira verde, o sumiço e o rebolo de Jô

O torcedor, já habituado a não colocar a mão no fogo pelo seu atacante, já adaptado à presunção de que ele não é o mais exemplar atleta do mundo, se sentiu esbofeteado. Talvez menos pelos fatos e mais pelo desaforo

Alex, o craque que hoje treina o sub-20 do São Paulo, certa vez explicou a longevidade de sua carreira baseado em três pilares: treino, alimentação e descanso. Deixou claro que a receita dele não é regra e não precisa funcionar para todos, mas parece razoável que presumamos a conveniência de um atleta estar em dia com, pelo menos, estes três itens. Vemos a performance final. A rotina é um tanto mais chata – e por isso não passa na TV. Ser atleta dá trabalho e demanda renúncias.

Nesta última semana tive o privilégio de me sentar em uma mesa com César Maluco e Ademir da Guia, dois referentes da história do Palmeiras. Antes (e mesmo depois) das câmeras serem ligadas, algumas histórias sobre a vida noturna deles e de outros atletas foram contadas, no tom jocoso e falsamente envergonhado de sempre. Truques de fuga, causos maliciosos, álcool travestido de água. Era década de 60. Mais de meio século depois, essa parte da vida do jogador profissional ainda provoca um irresistível debate sobre o que se espera desse personagem do nosso afeto, muitas vezes o fiador de nossos porres em derrotas e vitórias.  

O público, como disse, só vê a competição. É levado a presumir, por falta de evidências e munido de boa vontade, que o jogador treina, descansa e come bem. Mas o que acontece quando ele, por alguma razão, não goza mais da sua boa vontade? Este é o caso do Jô, a quem quase todos ofertam um descrédito que, diga-se, ele cultivou. Para além do certo e do errado, a materialidade do que já se supunha irrita por um detalhe: o atacante corintiano se deixou ser visto e filmado. Sabia que seria o assunto. Poderia ir ao samba hoje, dia sem jogo, e o impacto seria tão menor.

É possível reconhecer, com tinta positiva, que Jô, ao menos, não premeditou uma noite de farra escondida, não sentiu vergonha de estar onde acredita que pode estar sem culpa. Mas é igualmente possível, dada a relação vigente entre ele e o clube, que o atleta premeditou uma espécie de flagrante e contou com as redes sociais para o julgamento moral. O tema historicamente repousa debaixo de uma manta hipócrita que dificulta o debate. No entanto, o caso em questão não se parece com uma regular e compreensível escapada dos padrões esperados em uma noite de jogo.    

Este é o Jô que usou uma chuteira verde sabendo que a torcida não tolera esta possibilidade. O debate, na época, também especulou o propósito como alternativa à bruta hipótese da alienação. No erro, quem é alvo de escrutínio público tem, inevitavelmente, o saldo histórico exposto. Quem tem crédito, tende a ser perdoado. Quem é reincidente e possui, justa ou injustamente, uma fama de profissional sem comprometimento, vai sofrer, mesmo que já tenha dado um título brasileiro ao clube e mesmo que parte dos argumentos toque um viés moralista que não precisa constar na pauta.

Em dezembro Jô desapareceu. Passou três dias incomunicável após comparecer a uma festa do amigo Douglas Costa, ex-Grêmio. Ao dar o ar da graça novamente, escreveu em sua rede social um pedido de desculpas. Seu casamento estava abalado. “Sou um otário”, escreveu. Este caso extrapola largamente o que diz respeito ao futebol , até porque foi em período de férias, mas nem por isso é desconsiderado pela opinião pública, que contabiliza, quando convém, também os vacilos não relacionados ao período competitivo – e isso é um tanto problemático. Estamos sempre dispostos a, ao mesmo tempo, proteger o sagrado direito ao lazer e expor os excessos e as intimidades.

Jô tocou um rebolo enquanto o Corinthians perdia para o Cuiabá. O contraste entre o jogo na TV e o atleta na roda de samba é raro, não é algo que vemos todo dia. Reconheço a contradição dentro de mim quando confronto o perfil do jogador que gosta do sereno e tensiona os limites da boa prática profissional com o estilo dos atletas exemplares que exploram a disciplina do corpo ao máximo. Aprecio os dois. Entre, por exemplos aleatórios, Adriano Imperador e Diego Lugano há um mundo de escolhas, um vestiário que os aproxima e a contraparte de ambos – o “bagunceiro” também faz fisioterapia em silêncio e o “capitão” tem eventuais reflexos boêmios. Só vemos uma chapa.

Gosto deste critério: se, em campo, não falta nada e a entrega é completa, tanto faz o que fez na folga. Não é uma tese que abraça todas as situações, porque o futebol é também gestão de dezenas de pessoas. Fora do vestiário, quem resolve o jogo está, quase sempre, perdoado de antemão, habilitado a gastar dinheiro em qualquer regabofe. Não é mais o caso de Jô, de quem a contratação envolveu acordo com salários atrasados e de quem se especulava a saída do time poucas semanas atrás, por estar mal técnica e fisicamente. O desgaste existia antes mesmo do contrato assinado.

Jorge Valdivia, outro personagem que negociou afetos testando os limites da profissão, disse, em entrevista à ESPN, que algumas vezes bebeu e se cansou na noite paulista durante o tratamento de lesões, o que retardou, possivelmente, seu retorno. Jô está lesionado. Em tese, deve manter diálogo estreito com o médico. Não precisou confessar nada. É um velho conhecido dos alvinegros, que entendem, olhando tantas reações, ter dado concessões suficientes. O que se esperava de um atacante veterano em recuperação tardia no clube era cuidado com o tratamento, na prática ou, pelo menos, nas aparências. Ah, as aparências.

O torcedor, já habituado a não colocar a mão no fogo pelo seu atacante, já adaptado à presunção de que ele não é o mais exemplar atleta do mundo, se sentiu esbofeteado. Talvez menos pelos fatos e mais pelo desaforo. Não seria difícil trair a confiança (ou confirmar a desconfiança) de tanta gente sem o estardalhaço e a potência estética de um telão ligado no jogo. O Jô, ao que tudo indica, quis assim. Não sei quantas horas dormiu hoje, nem o que almoçou. Não sei o que fez anteontem. É assim fora do futebol também: preenchemos o que não sabe sobre alguém com as virtudes que acreditamos que combinam com ela. E se as virtudes faltam, preenchemos com pressupostos negativos. A camisa do Corinthians amanheceu parecendo mesmo uma roupa apertada demais para o Jô, agora ex-jogador do clube, continuar usando.

Foto de Leandro Iamin

Leandro Iamin

Jornalista, 35, fundador da Central 3, e espera viver pra ver o São José na elite de novo.
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