A Chape encontrou uma doce maneira para falar sobre sua dor e homenagear seus heróis

Em diversos momentos, as palavras rarearam. Era duríssimo traduzir o tamanho da dor e do vazio deixado pela tragédia com o avião da Chapecoense. No entanto, por mais difícil que fosse exprimir o turbilhão de sentimentos, foram as mesmas palavras que garantiram alento. Que ajudaram a digerir tamanho baque. Que permitiram perceber o outro lado, diante da mão que se estendia em sinal fraterno e humano. As lágrimas não cessaram, mas foi possível absorver o impacto do desastre a partir das histórias que se contaram. Das lembranças de tantos heróis que pereceram e da solidariedade que se ofereceu.
Nesta semana, a própria Chape teve um trabalho árduo: publicar a sua revista informativa, a primeira desde a queda da aeronave. E tratou de maneira sublime o assunto que afetou tanto aqueles que permaneceram para tocar o clube em frente. A assessoria de comunicação do Verdão homenageou cada um dos mortos no acidente com uma história para crianças. De maneira lúdica, o “era uma vez” explicava a pequenos torcedores o que aconteceu. Dava leveza a uma realidade tão pesada, relembrando as virtudes das vítimas.
Belíssimo texto de Alessandra Seidel, que pode ser conferido na íntegra por este link. Abaixo, reproduzimos alguns trechos:
“Estava para acontecer um campeonato de futebol muito importante e decisivo, num lugar que vai além de onde os nossos olhos alcançam: o céu. Nesse lugar já haviam vários atletas lendários, com currículos vastos de conquistas e participações em grandes finais. Deus, o responsável por convocar o time para o campeonato, no entanto, queria jogadores que fugissem do estrelismo. Ele estava de olho, há algum tempo, no time de uma cidade que estava vivendo um momento de êxtase. Eram modestos, mas cheios de ambições. Comissão técnica, diretoria, atletas, torcida! Aquele clube vivia uma sinergia tão precisa que era quase utópica. Havia, neste grupo, uma figura emblemática, que afirmava, sempre que as oportunidades surgiam, que ‘do roupeiro ao presidente, todos tinham a mesma importância’. Acho que por essa humildade e união, que saltavam aos olhos de qualquer um, esse time tinha tudo para ser escolhido. Além disso, os atletas jogavam como crianças que brincam. Tinham alegria nos pés e a bola era como uma amiga íntima”.
“Pronto. Estava escalado o time de lendas. Tamanha era a qualidade, o carisma, a determinação e o comprometimento que ficaram campeões sem nem precisar entrar em campo. Como já previam lá na Terra, conquistaram uma multidão. Só que uma multidão muito, muito além do que podiam imaginar. Ganharam o mundo”.
“O troféu que ergueram tinha um valor imensurável. Custou um preço alto, é verdade, mas rendeu muito mais do que se podia sonhar. O título conquistado por aquele time foi capaz de mostrar ao mundo que rivalidades devem durar apenas 90 minutos. Serviu para promover a solidariedade, o amor, o carinho e a união. Sim, a união. Provavelmente o maior propósito de tudo isso”.
“Abracei forte o meu filho, que apesar da pouca idade parecia ter entendido o tão duro recado. Ele se soltou dos meus braços, olhou fundo nos meus olhos e, preocupado, perguntou: ‘E como fica a Chape agora, papai?’. Prontamente respondi. ‘A Chape vai continuar, novas pessoas virão, novos jogadores, novos ídolos, novos títulos, novas perspectivas. A Chape continuará sendo motivo de sorrir, as arquibancadas estarão cada vez mais cheias. Deus pensa em tudo, filho. Ele deixou o Neto, o Alan Ruschel e o Follmann para motivarem o nosso recomeço. Tão fortes e de tanta qualidade quanto os que foram jogar no céu. Deixou o Rafael Henzel para contar essa página histórica. E deixou uma legião de apaixonados para continuarmos juntos, na essência, e ainda mais fortes. Porque somos muito mais que onze, somos Chapecoense'”.



