O manifestante que foi às ruas com um cartaz pedindo por hospitais e escolas com “Padrão ” deve zelar para que a sua ironia jamais seja atendida. Pelo que vimos nas novas arenas (como agora são chamados os estádios metidos a besta), o selo de qualidade da instituição que controla o futebol mundial poderia estampar várias iniciativas conduzidas pelo poder público brasileiro, em suas diferentes instâncias. Afinal, não é de hoje que nossos governantes gastam os tubos em obras superfaturadas, mal pensadas, cujo discurso é servir ao povo, mas o resultado final só interessa a uma meia dúzia. Obras que ficam bem na propaganda de TV, mas nem sempre servem ao mundo real.

Tive a oportunidade de visitar a para acompanhar o confronto entre Espanha e Uruguai, pela rodada inicial da . Aliás, confronto é uma palavra forte, já que a partida consistiu apenas de um baile proposto pelos atuais campeões do mundo, no qual os nossos vizinhos charrúas cederam a honra de repetidas contradanças. Acostumado a ver a bola rolando pelos esburacados terrenos pernambucanos, me surpreendi com a qualidade do gramado, que não foi implantado com a devida antecedência, já que a construção do estádio foi feita às pressas, e vinha sendo castigado pelas intensas chuvas de inverno no litoral nordestino. A iluminação também merece elogios. Não deixa sombras e tampouco machuca as córneas de ninguém.

A Arena em si é como uma miragem. Se a sua fachada não é exatamente bela e sua iluminação ornamental deve demais àquela que a inspirou, a da Allianz Arena de Munique, contrasta positiva e estilosamente com o concreto manchado pelo tempo visto nos outros estádios pernambucanos. Com muitos portões à disposição, o acesso do torcedor ao seu assento é tranquilo e as arquibancadas podem ser esvaziadas rapidamente, atendendo às normas de segurança. A visibilidade é excelente em praticamente todo o estádio, com as devidas ressalvas a alguns pontos em que barras de ferro atrapalham o espectador. Cadeiras que devem sempre ser vendidas por último, com o devido alerta e recomendável desconto no preço, como feito em estádios ingleses, por exemplo.

Se o torcedor pudesse se teletransportar até a Arena Pernambuco e fosse lá apenas para assistir uma partida de futebol e se teletransportar de volta, tudo estaria lindo. E é por isso que aqui acabam as flores e começam os espinhos.

Era uma vez… um lugarzinho no meio do nada…

Você deve ter notado que o único estádio da Copa das Confederações cujas cercanias não foi palco de protestos populares seguidos de confusão generalizada foi justamente a Arena Pernambuco. O motivo é simples: se já era difícil para quem tinha ingresso chegar lá, imagine o quanto era inviável juntar um grupo de manifestantes por aquelas bandas.

Não há nada que justifique a construção de um estádio tão longe do centro do Recife, levando em consideração que o seu público-alvo está na população da referida cidade. Mesmo que as condições de mobilidade melhorem consideravelmente (o que não está nem perto de acontecer), gasta-se um tempo desnecessário de deslocamento. A Arena Pernambuco fica em São Lourenço da Mata, a cerca de 20 km do marco zero da capital pernambucana. A promessa é de construir ao redor do estádio uma “cidade inteligente”, onde o cidadão possa morar, trabalhar e se divertir. Tudo isso com consciência ambiental, representada pela abundância de áreas verdes.

Por enquanto, só há área verde. E um estádio no meio dela. E entulho, muito entulho. Pode até ser que algum dia o plano completo saia do papel. Ainda assim, nada explica que o estádio tenha vindo antes da tal cidade. Por mais que se construam hotéis por aquela área (pelo menos dois foram prometidos), eles não abrigarão as mais de 40 mil pessoas que cabem no local. Ainda que jogadores, comissões técnicas, membros da Fifa e jornalistas se hospedem todos por ali, os turistas terão de ficar no Recife, com o agravante de que o metrô não atende à zona hoteleira e o trânsito da cidade é caótico durante todo o horário comercial. Isso pensando em Copa. Para os jogos do em sua nova casa, a coisa tende a piorar, até porque ninguém decretará feriado ou ponto facultativo.

O Padrão Fifa é curioso. As exigências com relação ao estádio são enormes, mas a entidade parece não dar a mínima para como as pessoas chegarão lá. Para Espanha x Uruguai, as autoridades mantiveram o esquema que já havia sido testado e reprovado no amistoso entre Náutico e Sporting. Como o estacionamento da Arena fica dentro do “parâmetro de segurança da Fifa”, a única opção para quem ia de carro era pagar módicos 40 reais para deixar o seu possante [/anos 80] em um espaço privado, de onde partiam ônibus gratuitos até o estádio. Funcionou bem, mas há de se perguntar se será tão fácil assim chegar lá em um dia normal de trabalho, quando todas as vias ficam engarrafadas. Pior ainda em um dia de chuva, quando Recife vira um imenso aquaplay (se não sabe, pergunte ao seu pai o que é).

Para cerca de 30 mil pessoas só restou o metrô. Cabe aqui um registro: o metrô do Recife é muito deficiente. Os trens têm ar condicionado e são razoavelmente limpos (teria melhor impressão deles se não tivesse visto uma simpática barata perambulando entre os torcedores), mas as limitações de sua rota fazem com que ele sirva apenas para uma pequena parcela da população. São só duas linhas, com apenas um ponto de integração. Os vagões já partiam lotados desde a estação central. Na seguinte, onde os usuários da linha sul se juntavam ao comboio, muitos tinham dificuldade para encontrar uma brecha. E assim foi, a cada nova parada no itinerário.

É de conhecimento geral que, em grandes eventos, a chegada do público é um desafio bem menor do que a saída, já que as pessoas se dirigem ao local aos poucos, mas o deixam todas de uma vez. Na ida para a Arena, o metrô do Recife já apresentava deficiências que iam além da lotação desconfortável. Ele já é lento por natureza, mas parou diversas vezes durante o percurso. Tudo porque a estação de Cosme e Damião (única obra de mobilidade prevista para a Copa que já foi finalizada), onde desembarcavam todos que se dirigiam ao estádio, comporta um número de pessoas bastante reduzido. Fazer todas aquelas pessoas descerem do trem e entrarem nos ônibus (abarrotados, evidentemente) que percorreriam um considerável trecho rodoviário até a Arena não era das tarefas mais simples.

Visão interna da Arena Pernambuco (AP Photo/Victor R. Caivano)
Visão interna da Arena Pernambuco (AP Photo/Victor R. Caivano)
A pequena estação dos horrores

Não importa de que lado você veio, ou para que lado se dirigiria ao final da partida, tudo passava pela bendita estação Cosme e Damião. Não havia a opção de um ônibus que lhe levasse a bairros não atendidos pelo metrô, ou mesmo à linha sul do transporte ferroviário. Para se ter uma ideia, o embarque e desembarque para os torcedores que vão a jogos no Camp Nou envolve quatro estações diferentes, todas em um raio de 500 a 700 metros de distância do estádio barcelonista.

Tudo bem que o estádio catalão tem o dobro da capacidade da Arena Pernambuco e que não seria viável economicamente construir mais de uma estação para serem usadas basicamente apenas em dias de jogos ou shows. Mas fica clara a necessidade de diminuir a aglomeração de pessoas em um espaço reduzido. Tudo piora quando as privilegiadas cabeças envolvidas no projeto da estação a desenham com acanhadas plataformas e uma apertada escada de acesso até elas. Muitos torcedores com crianças, aperriados, procuravam por táxis, se dispondo a pagar caro pela viagem de volta, mas sem sucesso. Tudo porque o esquema afugentou os taxistas, ao não permitir que eles deixassem e pegassem passageiros em uma área mais próxima à Arena do que à estação.

E dê-se por satisfeito se você conseguiu chegar ao metrô com alguma tranquilidade. Pela falta de sinalização, muitos sequer notaram que havia uma fila de acesso aos ônibus que fariam o transporte entre o estádio e a estação. Alguns notavam o erro e davam meia volta. Mas pela falta de civilidade de muitos, o caos se formou. Virou tudo um cada um por si e as pessoas começaram a entrar nos veículos antes da área delimitada para tal. Quem entrava na fila, apenas ficava para trás. Quem esperava pelo ônibus no lugar certo, apenas via as lotações passando com gente as preenchendo até o talo. A polícia assistia a tudo, sem expressar reação. E pelo que conhecemos da delicadeza de nossa PM, muitos até agradeceram por essa falta de intervenção…

A chegada improvisada da cavalaria

No dia seguinte, a posição oficial dos governantes era de que o esquema seria mantido, porque tudo tinha sido apenas mais um teste. Pudera, certos serviços públicos locais parecem operar em versão beta até hoje. Pressionadas, as autoridades (in)competentes voltaram atrás. Para o jogo Itália x Japão, ônibus expressos saíram do campus da UFPE, onde os torcedores poderiam estacionar seus carros, dando uma nova opção de acesso à Arena onde Judas perdeu as botas. Só esqueceram de combinar com estudantes e funcionários da universidade. Em dias de rebelião popular, houve até um tumulto no estacionamento, totalmente justificado. O Governo decretou ponto facultativo em suas repartições e o clima ajudou. Assim, os problemas foram bem menores do que na partida anterior, jogada em um domingo.

Na saída do estádio, as coisas também melhoraram. Na falta de uma sinalização reforçada, policiais com cães se asseguraram de mostrar o caminho correto aos torcedores. Sabe como funciona a nossa civilidade, às vezes só pega no tranco. O esquema foi reforçado e as péssimas impressões iniciais desfeitas, mas ficam perguntas no ar. Se o Náutico jogar às 20h30, como fazer para que o torcedor não fique aprisionado às agruras cotidianas do trânsito e do esgotamento do transporte público da região metropolitana do Recife? E quando um clássico lotar o estádio, contanto com a presença de torcidas organizadas que se odeiam e se atacam até em dia sem jogo, como controlar o fluxo de pessoas vagando pela mesma estação de metrô, ou pegando ônibus no mesmo local? Dane-se a Copa. Imagina no pós-Copa!

Algumas referências europeias

Por ter tido o prazer de comparecer a jogos de futebol e shows de música no exterior, foi inevitável fazer comparações durante todo o trajeto até a Arena Pernambuco. Uma delas serve de atenuante. Muitos recifenses reclamaram da lotação do metrô. Em uma cidade onde a classe média alta sai de carro até para comprar pão na esquina, não é surpresa que muitos se assustem com um transporte público até menos lotado do que o que milhões de pessoas encaram todos os dias (e eu não dirijo, pode confiar no que digo). O que não quer dizer que devemos encarar a situação como normal. Os protestos mais organizados e bem sucedidos das últimas semanas versavam exatamente por melhoras no setor, que cobra preços abusivos e entrega um serviço desumano.

Deixando de lado o aperto na estação e no ônibus, peguei um metrô que estava tão cheio quando o de Hamburgo, ou o tram (uma espécie de meio-termo entre o metrô e o bonde, muito popular em cidades europeias onde o transporte subterrâneo é impossível) de Hannover. E bem menos sufocante do que o metrô da igualmente civilizada . Na volta do Camp Nou, tinha gente que nem precisava se segurar, porque não tinha para onde cair. O aviso sonoro recomendando cuidado com os batedores de carteira até virou alvo de gozação de um brasileiro perdido ali dentro, que duvidou que qualquer mão tivesse acesso a qualquer bolso naquele aperto. Importante: em todas estas cidades, a cada porta do trem, seguranças organizavam o fluxo de pessoas. Aqui, vi poucos voluntários, perdidos em meio à bagunça.

Outra comparação, no entanto, deixa claro como a nossa mobilidade urbana está mais para debilidade urbana. No ano passado, fui de Berlim, onde estava hospedado, a Hamburgo para assistir a uma partida da Bundesliga. Somando o trem de uma cidade a outra, o metrô dentro das duas cidades e um ônibus que ligava a estação ao estádio, gastei duas horas e vinte minutos, para percorrer mais de 300 km, tanto na ida, quanto na volta. Da minha casa até a Arena Pernambuco, são mais ou menos 30 km. E eu gastei apenas dez minutos a menos no deslocamento. Ainda que esse tempo caia pela metade, fica evidente o quanto ainda precisamos avançar.

Possivelmente, voltarei ao assunto Arena Pernambuco em um próximo post, porque ainda tenho muitas críticas a fazer, mas, por hoje, já abusei da sua paciência (e de minha tagarelice). Citando mais um cartaz em evidência no nosso aguardado, confuso e, esperamos, redentor levante social: “é tanta coisa errada, que nem cabe aqui”.