Brasil

A antropofagia boleira de ‘Vocês vão ter que me engolir’, novo livro da Dolores Editora

Guilherme Trucco assina a obra lançada no centenário da Semana de Arte Moderna, inspirada pelo movimento antropofágico

A Dolores Editora é uma referência em livros de futebol no país e trouxe muitas novidades nessa semana. Uma delas é o lançamento do novo site, com todos os livros e revistas já publicados por eles. Mas também tem livro novo na área, com ‘Vocês vão ter que me engolir’, de Guilherme Trucco. Literatura e bola se entrelaçam na publicação, lançada em 13 de fevereiro, em pleno centenário da Semana de Arte Moderna. A escolha não é ao acaso, com uma obra inspirada pelo movimento antropofágico, que traz o futebol como mote, mas mistura vários outros elementos dentro de seu caldeirão. O livro, que já abriu suas vendas, está disponível neste link.

‘Vocês vão ter que me engolir’ embarca no clima de Copa do Mundo para contar sua história – mas Guilherme Trucco não se resume à famosa frase do Velho Lobo Zagallo, que inspira seu título. Não espere o óbvio, numa publicação que tenta justamente virar do avesso noções ao redor da bola. Nada melhor, então, que a própria sinopse para explicar:

A personagem Fominha é a primeira mulher na história a ser convocada para jogar futebol entre os homens. Titular e craque da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 2022, mesmo o técnico sendo contra. Não havia como negar: ela jantava defesas. A caminho do Catar, o avião que levava a Seleção cai no meio da África. Fominha e os sobreviventes, perdidos num estranho deserto, sem perspectivas, misturam presente, passado e futuro e, acredite, de repente… começam a se transformar em suculentas galinhas d’angola!”.

Quem também pode explicar melhor a pegada de ‘Vocês vão ter que me engolir’ é o grande Luiz Antônio Simas – historiador, escritor, professor, compositor e um dos maiores estudiosos de cultura popular do país. A orelha do livro de Guilherme Trucco é escrita por Simas. Abaixo, reproduzimos o texto completo. E reforçamos: se você quiser adquirir a nova publicação da Dolores, este é o link.

*****

Um tapa na orelha

A definição clássica nos diz que o caleidoscópio, criado em 1817 por um cientista escocês, David Brewster é um dispositivo ótico em formato cilíndrico com um fundo de vidro opaco. Dentro dele, pedacinhos de vidro colorido e três espelhos inclinados em formato de triângulo. Quando a luz exterior bate, e gira-se o tubo do instrumento como giram as saias das baianas num desfile da Mangueira, os reflexos dos espelhos formam desenhos simétricos inusitados.

No meio da leitura deste livraço de Guilherme Trucco, ocorreu-me pensar que eu estava brincando com um caleidoscópio de brasilidades, no qual não se sabe mais aonde começa o futebol e aonde começa o país, ou, para ser mais preciso, aonde começa a vida e começa a morte, a sua mais puta e fiel companheira. No fim das contas, futebol, Brasil, vida e morte estão gingando em uma encruzilhada, como despacho arreado para o dono do pedaço.

Jésus, Fominha, o Bispo Sardinha, o deserto, as matas, os caetés, o subúrbio, Barranquilla, Garcia Márquez, Heleno, Pixinguinha, Friedenreich, Noel Rosa, Ossain, Ibeji, Leônidas da Silva, João da Baiana, Seu Zé Pelintra, etc., vão aparecendo como as peças coloridas que o menino vislumbra dentro do cilindro que alarga o mundo.

Mas me ocorreu, no final da leitura, que talvez não seja o caleidoscópio o que melhor define, ou intui, a obra. O livro de Guilherme Trucco é uma canjira; uma gira de macumba – roda ritual – em que encantados os mais diversos vão chegando para dançar numa margem que não é a primeira nem a segunda, é a terceira margem daquele rio, nosso pai, de Guimarães Rosa.

Em um pequeno livro que publiquei em 2013, Pedrinhas Miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros (Mórula Editorial), imaginei certa saída civilizatória para o Brasil a partir da incessante invenção de terreiros, onde cruzos diversos ampliam a vida, até o ponto em que o mundo atinge o tamanho incomensurável, maior do que os planetas e as estrelas, de um campo de várzea em que crianças jogam bola. O que a escrita de Guilherme Trucco faz é exatamente isso: inventar terreiro.

Orunmilá, o sábio, certa feita mandou Oxalá se disfarçar de galinha d’angola para assustar a morte e expulsá-la de um povoado. As iaôs de candomblés, nas cerimônias de iniciação, são por isso pintadas como as galinhas d’angola, em um rito de afirmação dos corpos que, uma vez encantados, não podem mais ser capturados pelo desencanto. Orunmilá, o sábio, sabe que tudo é jogo e o encantamento dos corpos, afinal, é a arte sublime do drible que engabela o mais duro adversário e anuncia a possibilidade do gol.

Bons dribles na leitura-gira!

Luiz Antonio Simas
Historiador, escritor, professor e compositor popular

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo