Brasil

18 anos sem Mestre Telê: algumas lembranças

Tive a honra de presenciar o auge do trabalho de um dos maiores treinadores do futebol brasileiro

Neste feriado de Tiradentes, 21 de abril de 2024, completaram-se 18 anos da morte de Telê Santana da Silva, um dos maiores treinadores do futebol brasileiro. Mestre Telê morreu em 2006, mas seu legado em prol do futebol bem jogado e do aperfeiçoamento técnico dos jogadores é eterno.

Tive o privilégio de acompanhar de perto o auge de Telê como treinador, o período de sua segunda passagem pelo São Paulo Futebol Clube. Poucos lembram, mas ele teve uma etapa discreta pelo Tricolor paulista, em 1973. Retornou em 1990, para construir o período mais glorioso da história do clube.

Após perder o título brasileiro de 1990 para o Corinthians, no Morumbi, Telê não imaginava que fosse ser bancado pela diretoria são-paulina. Telê tinha assumido um São Paulo em frangalhos, moralmente rebaixado no Campeonato Paulista (oficialmente, a Federação Paulista não considera o rebaixamento). As permanências do treinador e de Raí, que quase foi para o Flamengo, foram os pontos de sustentação do que seria o São Paulo multicampeão do início dos anos 1990.

Ver Telê trabalhando foi uma faculdade informal de futebol para mim e para meus colegas naquele período. Eu era um jovem com pouco mais de dois anos de profissão e sou grato por ter a chance de ver o trabalho de um autêntico mestre de perto.

Presenciei momentos memoráveis, como a aula prática de cruzamento para Cafu, com o auxílio luxuoso de outro mestre, Valdir Joaquim de Morais, auxiliar e preparador de goleiros. Outros de comédia, como o dia em que Telê obrigou o maluquinho atacante Macedo a abandonar um penteado rastafári com que apareceu no treino da manhã.

Telê era perfeccionista e muito chato. Pegava no pé dos atletas por passes errados e de gestão ruim de patrimônio pessoal. Uma de suas vítimas favoritas era o atacante Palhinha. Sempre que via o jogador com um carro novo, cobrava, na frente dos outros jogadores e dos repórteres: “Palhinha, outro carro para quê? Você já comprou uma casa para sua mãe?”.

Os métodos do treinador talvez fossem desaprovados atualmente. Era adepto dos coletivos, treinamentos que simulavam jogos. Arrumava o time em disputas entre titulares e reservas. No auge do Tricolor treinado por ele, entre 1992 e 1994, os coletivos de sábado no CT do São Paulo eram autênticos eventos. A arquibancada do campo principal lotava e as disputas eram melhores do que muitos jogos oficiais.

Telê parava o treinamento e cobrava forte os erros de passe – era obcecado por esse fundamento. Alterava o time com base nos coletes. O time titular estava de branco e os reservas de vermelho, por exemplo. Com a bola rolando, pegava um colete branco e dava para um reserva vestir, mandando o ex-titular sair. Tudo ao vivo, na frente de torcedores, dirigentes e jornalistas.

Muitos jogadores não gostavam. Certa vez, o atacante Aílton, revelado por Telê no Atlético Mineiro e que passou pelo São Paulo entre 1994 e 1996, foi cobrado repetidamente por erros de passes e certo desleixo num treino. Após a última cobrança, virou-se para os jornalistas que acompanhavam o treinamento, e disparou? “PQP! Que velho chato do cacete!”. Foi a senha para perder o colete de titular.

Alguns atletas consideravam Telê intrometido demais em suas vidas. Mas a maioria reconhece os benefícios obtidos sob o comando do treinador. Ele fazia trabalhos técnicos intermináveis. Era comum vê-lo em campo até o anoitecer, às vezes já quase na escuridão, trabalhando para que os atletas aprimorassem finalizações, matadas de bola e viradas de jogo. Atualmente, os preparadores físicos e fisiologistas certamente cancelariam Telê. Mas naquele tempo ele tinha aliados nos preparadores físicos Moracy Santanna e Altair Ramos e no fisiologista Turíbio Leite de Barros.

Era uma época em que o acesso aos treinamentos era permitido aos repórteres. Telê permitia que os jornalistas ficassem acomodados em um dos bancos de reservas para ver os trabalhos e dava entrevistas todo dia. Era meio desconfiado de microfones e câmeras, mas adorava prosear com repórteres de mídia escrita longamente. Saía do sério quando um jornalista pisava no gramado dentro das quatro linhas. Mandava que saísse imediatamente, aos berros. Era comum ver o treinador percorrendo os campos do centro de treinamentos caçando pragas ou irregularidades. Naquele período, os gramados de treinamento do São Paulo eram os melhores do Brasil.

O treinador também pegava no pé dos jornalistas. Dava bronca naqueles que chegavam atrasados aos treinamentos e perdiam trechos do trabalho. “Depois não vai saber o que perguntar”, ironizava. Um repórter de uma tradicional rádio paulistana, de quem Telê era amigo, era uma de suas vítimas favoritas. Quando ele chegava atrasado por ter de acumular a cobertura do Palmeiras e do São Paulo, que eram vizinhos, Telê negava seu pedido de entrevista: “Fulano, você chegou tarde, seus colegas vieram cedo, chegaram na hora e já falei com eles”. Cerca de meia-hora depois, ao ver o repórter desolado, Telê retornava e dava a entrevista, sem antes deixar uma bronca: “Tá bom, eu gravo sua entrevista, mas veja se amanhã chega na hora certa!”.

Telê era ainda mais chato com os árbitros. Reclamava seguidamente, e os bandeirinhas que trabalhavam à frente dele sofriam. Malandro, chiava quando se sentia prejudicado, e dizia estar longe do lance quando perguntado sobre algum favorecimento.

O São Paulo fazia de tudo para agradá-lo. Construiu uma quadra de tênis no CT, para que o treinador pudesse se divertir. Telê tinha apartamento em São Paulo, mas era tão obcecado pelo trabalho que morava no CT, em um quarto que o clube decorou especialmente para ele. Sem grandes luxos, tinha uma TV grande e um teclado eletrônico, com o qual o técnico arranhava algumas notas na companhia de raros amigos, como o empresário de jogadores Francisco Monteiro, o Todé, e algumas garrafas de uísque.

Em dezembro de 1995, durante uma viagem para a Bahia com a família, Telê sentiu-se mal e alguns dias depois teve diagnosticado um quadro de isquemia. Em janeiro de 1996, o treinador foi submetido a um cateterismo em São Paulo e exames prévios detectaram vários AVCs (acidentes vasculares cerebrais).

Afastado pelo São Paulo, Telê foi contratado pelo Palmeiras em janeiro de 1997. Eu estava lá no dia de sua apresentação, no CT alviverde. Foi uma tarde dramática e inesquecível. Cafu, com quem Telê havia trabalhado no São Paulo, percebeu que Telê não estava bem. Era difícil afirmar que o treinador tivesse ciência de onde estava e do que fazia naquele momento. Generoso, o futuro capitão da seleção brasileira campeã mundial de 2002, pegou o Mestre pelo braço e o guiou numa apresentação improvisada aos atletas do elenco. Todos que testemunharam a cena perceberam que Telê não estava apto a trabalhar.

A ideia do Palmeiras era que Telê supervisionasse o trabalho do treinador Márcio Araújo e assumisse a equipe posteriormente. O que nunca ocorreu. Em abril de 1997, o clube anunciou que o contrato com Telê seria rompido a pedido da família do treinador, preocupada com sua saúde. Seria seu último compromisso oficial como profissional de futebol.

Telê faleceu em 21 de abril de 2006, em Belo Horizonte, em decorrência de falência múltipla de órgãos. Ele tinha 74 anos.

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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