100 anos de Clássico-Rei: Quando Ceará e Fortaleza vestiram verde e amarelo para vencer o Flamengo de Zico

O momento não poderia ser mais oportuno. Justamente no 2018 histórico ao futebol cearense, o maior clássico do estado completa 100 anos de existência. Na última segunda-feira, o primeiro Clássico-Rei fez 100 anos. Naquele dezembro de 1918, semanas depois da fundação do Fortaleza, o Leão do Pici encarou o Ceará na decisão da Liga Metropolitana de Futebol. Melhor para o Vozão, que bateu os tricolores e conquistou o quarto título consecutivo na competição citadina. Desde então, muita coisa aconteceu. De Gildo a Mozart, de Clodoaldo a Sérgio Alves, de Magno Alves a Gustagol, os dois clubes construíram uma história ímpar. Dominaram os torneios estaduais, ganharam relevância nos regionais, se enfrentaram algumas vezes nos nacionais. Até que, entre a salvação proporcionada por Lisca Doido e o acesso do time de Rogério Ceni, o clássico voltasse a se alinhar para o Brasileirão de 2019.
E, além de todos os episódios de rivalidade, uma das histórias mais saborosas sobre Ceará e Fortaleza está no dia em que os dois clubes uniram forças. Pois em setembro de 1982, Vozão e Leão viraram apenas um, com um nobre intuito: encarar o esquadrão do Flamengo, que menos de um ano antes faturara a Libertadores e o Mundial Interclubes. A Federação Cearense de Futebol levou os rubro-negros para o Castelão e convenceu os dois gigantes locais a se juntarem em um combinado. Os anfitriões honraram o nome do estado, vencendo o timaço treinado por Paulo César Carpegiani por 2 a 0.
A união entre Ceará e Fortaleza teve os seus percalços. Nenhum dos clubes aceitava vestir as cores do outro. Assim, acabaram adotando o verde e amarelo, referência não apenas à bandeira do Brasil, mas também à do próprio estado. Além disso, os dois técnicos dividiriam o banco de reservas, tomando decisões conjuntas. Sérgio Redes e Moésio Gomes dirigiram o combinado, que selecionou oito jogadores alvinegros e oito tricolores. Um desfalque inesperado foi o atacante Beijoca, ídolo do Bahia, que na época defendia o Fortaleza. Para promover o patrocinador do duelo, os jogadores cearenses precisariam vestir uma camisa com a marca de uma cervejaria na entrada em campo. O artilheiro se recusou e pediu dispensa do amistoso dias antes.
Sérgio Redes e Moésio Gomes escalaram na linha um time realmente salomônico, para evitar polêmicas. Cinco jogadores do Ceará e cinco jogadores do Fortaleza davam liga ao selecionado. O difícil era apontar quem seria o goleiro, com as opiniões dos treinadores conflitantes entre o alvinegro Lulinha e o tricolor Salvino. Segundo o Jornal dos Sports da época, os comandantes até cogitaram deixar um em cada tempo, mas temiam que a mudança prejudicasse quem, por ventura, fechasse o gol nos 45 minutos iniciais. Então, a decisão teria sido feita num bom e velho cara-e-coroa, pendendo a Lulinha. Ao Verminosos por Futebol, entretanto, Sérgio Redes declarou que venceu Moésio na base do argumento. O treinador do Vozão teria dito que, por seu time estar à frente do Leão do Pici no Campeonato Cearense, merecia a prioridade. Assim se fez a Lulinha.
Fato é que, independentemente dos nomes, havia uma grande comoção entre os torcedores cearenses pelo jogo. O Flamengo estava praticamente completo. Exceção feita a alguns lesionados, como Raul e Leandro, os rubro-negros viajaram com força máxima ao Nordeste. Mesmo Zico, que era dúvida por ter fraturado um dos dedos da mão num Fla-Flu prévio, foi para o sacrifício. E o esquadrão do Galinho, bem como de Júnior, Adílio, Andrade, Tita, Lico, Nunes e Mozer, seria recebido com enorme festa durante o desembarque em solo cearense. Cerca de quatro mil fanáticos estiveram presentes no aeroporto para dar as boas vindas aos jogadores rubro-negros. Antes da partida, as estrelas ainda precisaram driblar os autógrafos em uma corrida pela praia. O interesse era tamanho que as cinco principais rádios locais dedicavam 80% da programação esportiva ao noticiário do jogo.
Mais de 46 mil torcedores lotaram o Castelão para o amistoso, com tricolores e alvinegros se misturando. Além disso, um total de 126 ônibus extras foi disponibilizado para fazer o transporte da multidão após a partida, realizada na noite de uma quinta-feira. A arrecadação superou os 19 milhões de cruzeiros, maior até que a renda gerada por um amistoso entre Brasil e Uruguai no estádio, em 1980. Já o apito ficou sob a responsabilidade de Leandro Serpa, presidente da comissão de arbitragem da FCF. A intenção da federação cearense era levar Arnaldo César Coelho, árbitro da final da Copa de 1982. Chegou a convidar o aclamado juiz, mas teve o pedido vetado pelo presidente do Flamengo, Antônio Augusto Dunshee de Abranches. Segundo o Jornal dos Sports, Arnaldo era “árbitro vetado para qualquer jogo oficial ou amistoso dos rubro-negros”.
Durante as entrevistas prévias, Carpegiani deixava claro que pretendia usar a partida para testar diferentes táticas na equipe titular do Fla, visando a sequência da Taça Guanabara. O combinado cearense, todavia, levou o duelo realmente a sério. Tão a sério que impôs suas dificuldades aos cariocas e, mesmo sem o nível de entrosamento ou de talento dos visitantes ilustres, comemorou a vitória graças à sua força física. Um dos trunfos esteve na marcação cerrada sobre Zico na intermediária. Os treinadores escalaram dois cabeças de área para marcar o Galinho, em parceria frutífera formada pelo alvinegro Alves e pelo tricolor Nelson.
Quando a bola rolou, o Flamengo começou melhor. Dominou o jogo nos primeiros minutos e criou várias chances de gol claras, todas desperdiçadas. Erros punidos logo aos 14 minutos. Artilheiro do Campeonato Cearense, o alvinegro Ademir Patrício recebeu uma “bola magnífica” (segundo o Jornal dos Sports) do tricolor Zé Eduardo e bateu no canto do goleiro Cantarele, abrindo o placar ao combinado. Após o tento, o Flamengo reagiu e viu Zico chamar a responsabilidade, mas a defesa cearense se desdobrou para segurar a diferença. “Ele chegou a driblar seis marcadores e a encobrir o goleiro Lulinha, mas João Carlos tirou em cima da linha”, relata o JS da época.
No segundo tempo, porém, pesou o melhor preparo físico do combinado cearense. O Flamengo vinha de uma maratona de jogos e começou a sofrer com as lesões. Os rubro-negros já havia perdido forças no intervalo, quando Carpegiani substituiu Júnior, o primeiro machucado. E a situação se agravou logo nos primeiros minutos, depois que Mozer sofreu uma entorse no joelho. O beque foi substituído por Nunes e Andrade entrou na zaga, antes de também se contundir. Embora o lance de Mozer tenha sido acidental, o supervisor rubro-negro Domingos Bosco se revoltou com a arbitragem à beira do campo. Xingou o assistente e acabou expulso, mostrando o nível de competitividade do amistoso.
Conforme a avaliação do Jornal dos Sports, depois da confusão “o Flamengo se perturbou e acabou escapando de uma goleada”. Tanto é que, ao longo do segundo tempo, Marinho precisou se desdobrar na zaga rubro-negra para evitar as insistentes investidas cearenses. Só não pôde fazer nada aos 32 minutos, quando o tricolor Adílton, saído do banco, sacramento a vitória. O atacante passou pelos zagueiros adversários e bateu firme, para fechar a contagem no amistoso. Uma noite de inesquecível festa no Castelão, por toda a surpresa que provocava.
Apesar da derrota, o Flamengo aproveitou a viagem. Na sequência da noite em Fortaleza, houve uma festa entre os astros rubro-negros e ilustres personalidades locais. “Os jogadores vararam a noite cantando e batendo papo com Fágner, Zé Ramalho, Amelinha e outros artistas cearenses. Foi a chamada bela noitada”, noticiou o JS. Enquanto isso, a federação cearense ainda tentou realizar outros amistosos com o combinado Ceará-Fortaleza, sem sucesso. Pensou em levar o Vasco e quase conseguiu a seleção soviética, em planos que não saíram do papel. Aquela vitória marcante no Castelão continua sendo um capítulo singular de união nos 100 anos do Clássico-Rei.



