Será difícil imaginar o samba sem Beth Carvalho. O gênero corria pelas veias da intérprete, que emprestou sua voz para consagrar tantas canções populares. Foram mais de 50 anos de carreira emplacando sucessos, apresentando novos artistas, redescobrindo compositores esquecidos. A ‘Madrinha’ não tinha este apelido à toa. Ecoou os talentos do Rio de Janeiro, embora ela mesma fosse um hino às raízes da Cidade Maravilhosa. A cantora exaltou seu povo e ensinou belezas a quem a ouvia. Os sambas de Beth foram sempre autênticos, sempre calorosos, sempre saídos de dentro do peito. A nossa sorte – e da música brasileira – é que centenas de gravações eternizam sua maestria. Falecida nesta terça-feira, aos 72 anos, a Madrinha deixará saudades e fará muita falta. Mas como cantava, em composição de seus amigos do Fundo de Quintal, “o show tem que continuar”. Um show que sempre será inspirado por sua aura nas rodas de samba.

Beth Carvalho falava com orgulho de suas grandes paixões. No samba, era assim com a Mangueira e com o Cacique de Ramos. Mas como uma verdadeira carioca, ela não poderia renegar o futebol. A bola era outro prazer declarado da cantora. Sobretudo, o clube que desencadeou este sentimento, o Botafogo. Poucas personalidades da MPB demonstravam tamanho apego ao seu time. A história alvinegra de Beth, afinal, se escreve desde sua infância.

A família de Beth Carvalho era toda botafoguense. Seu pai remava no clube, além de ser torcedor. A mãe também adotara as cores, bem como a irmã mais velha. Assim, o destino inescapável da garota era a Estrela Solitária. Nascida em 1946, Beth pôde se deslumbrar com o auge do Botafogo justamente durante sua juventude. Quando criança, não ia ao Maracanã, mas acompanhava fielmente os jogos pelas ondas do rádio. O aparelho, que inspirava o seu talento à música, também alimentava seu fanatismo como torcedora. E não demorou para a menina frequentar a sede do clube, dançando nos bailinhos de General Severiano. Quando tinha 15 anos, presente mais do que sonhado, ganhou sua primeira camisa alvinegra.

“Garrincha foi minha primeira referência no futebol. Sempre. Meus primeiros ídolos, que me lembro de ver jogando, foram Nilton Santos, Didi… Depois, já como artista, tive contato com eles. Foi sensacional. E eu sou ídolo do Nilton Santos, olha que coisa… Eu o conheci há pouco tempo, no programa ‘Bem, Amigos!’, do Sportv. Fui ao programa a pedido dele. E ele mesmo me deu uma camisa”, contou a cantora, ao GloboEsporte.com, em 2011.

Beth Carvalho e o técnico Valdir Espinosa em 1989, após a conquista do Carioca (Foto: Jornal dos Sports)

A carreira de Beth Carvalho decolou a partir da década de 1960. Enquanto o Botafogo empilhava títulos, a jovem ganhou notoriedade por sua voz potente. A participação no Festival Internacional da Canção seria decisiva em sua trajetória. Interpretando “Andança”, ela terminou na terceira colocação e se tornou célebre em todo o país. Ao mesmo tempo, a torcedora comemorava as glórias botafoguenses. O esquadrão conquistou o Campeonato Carioca de 1968, goleando o Vasco por 4 a 0 na decisão. Treinado por Zagallo, o time contava com a lendária linha de frente composta por Rogério, Roberto Miranda, Jairzinho e Paulo Cézar Caju, além de possuir com o maestro Gérson no meio-campo. Também faturariam a Taça Brasil de 1968, só consumada no ano seguinte, antes brilharem na Seleção rumo ao tricampeonato mundial.

Se a década de 1970 confirmou a fama de Beth Carvalho, transformando a carioca em uma das cantoras mais requisitadas do Brasil, o Botafogo não teve a mesma sorte. Até montou outros times fortes, mas passou a encarar uma incômoda seca de títulos. Nada que fizesse a torcedora ilustra abandonar seu time, presente nas horas boas e nas ruins. “Eu sempre tive o hábito de ir a jogos do Botafogo, independente do time estar brigando pelos campeonatos ou não”, declarou ao jornal O Dia, já em 2013. Algo também ressaltado ao Globo Esporte, em 2011: “No Maracanã, quando apareço, é uma festa. Fico no camarote ou na cadeira especial do lado da torcida do Botafogo. Quando ia para a cadeira comum, era complicado assistir, por causa do assédio. Mas já fui de arquibancada. Só não vi jogo de geral. Mas lamento profundamente que não tenha mais. Um absurdo”.

Uma das maiores frustrações de Beth Carvalho no Maraca aconteceu em 1971, durante a seca. O Botafogo encarava o Fluminense na decisão do Carioca e o empate por 0 a 0 prevalecia até os 43 do segundo tempo, quando o atacante Lula anotou o gol do título tricolor. Um tento contestado pela torcida alvinegra, que até hoje reclama da falta cometida pelo lateral Marco Antônio sobre o goleiro Ubirajara Motta. “Tem coisas que só acontecem com o Botafogo. Eu estava nesse jogo. Ali, nas cadeiras comuns do Maracanã, ficava todo mundo misturado. Tinha uns tricolores, ninguém comemorou. Eu chorando e ninguém vibrando na minha frente, para você ver que não era gol legal. Naquele dia, fiquei arrasada, com raiva do Marco Antônio… Ele frequentava o Cacique de Ramos. Essa turma toda ia lá. Jairzinho, Paulo Cézar Caju, Afonsinho, Marinho Chagas… Tinha também o Alcir, o Renê. E o Edson, que virou até meu marido depois. Todos jogavam futebol de salão ali, tem uma quadra no Cacique”, rememorou ao Globo Esporte.

Jairzinho, Beth Carvalho, Rogério e Roberto Miranda, em 1989 (Foto: Jornal dos Sports)

O ex-marido de Beth Carvalho era Edson Cegonha, carioca de nascimento, mas que fez a carreira no futebol paulista entre as décadas de 1960 e 1970. O volante defendeu Corinthians, São Paulo e Palmeiras, conquistando títulos importantes e participando da preparação da Seleção à Copa de 1966. O casamento aconteceu em 1979, quando o veterano já havia pendurado as chuteiras. Foram cinco anos juntos, em relacionamento que deu ao casal uma filha: Luana Carvalho, também cantora e única herdeira de Beth.

Luana nasceu em 1981. E por mais que o fanatismo de Beth Carvalho pesasse em casa, um amigo compositor acabou transformando a menina em flamenguista. Ainda eram anos duros ao Botafogo, afinal. O jejum no Campeonato Carioca se arrastava e o clube completava duas décadas desde seu último título. O desafogo alvinegro só aconteceu em 1989, justo contra os rubro-negros, na inesquecível final decidida por Maurício. A cantora foi um símbolo naquela campanha, sempre presente no Maracanã.

Às vésperas das finais, Beth Carvalho foi entrevistada pelo Jornal dos Sports. Indicava sua enorme confiança: “Acho que desta vez vai. O Botafogo está nadando bem e não vai morrer na praia. Finalmente os jovens botafoguenses terão chance de ver nosso time campeão. É claro que não é um time como o de Nilton Santos, Didi, Garrincha e Zagallo, ou o de Gérson, Jairzinho, Roberto e Paulo Cézar. Mas, diante do baixo nível atual do futebol brasileiro, dá para acreditar que a gente chega lá. A torcida tem razão de estar muito entusiasmada. Finalmente surgiram boas perspectivas e temos tido grandes alegrias. O Valdir Espinosa é mais um gaúcho que deu certo. Ele está no comando da garotada, com sucesso. Vamos lá, Botafogo! Vamos ser campeões este ano!”.

Mesmo flamenguista, Luana forneceu um talismã a Beth Carvalho. A filha confeccionou à mãe uma bandeirinha de cartolina, com as cores do Botafogo e as palavras “amor e paixão”. Nos dois jogos da decisão, lá estava a sambista segurando a bandeira nas arquibancadas do Maracanã. Ao seu lado, outros alvinegros ilustres, incluindo antigos ídolos do clube. Ao Jornal dos Sports, a intérprete chegou a contar que convidou Jairzinho para acompanhá-la, “porque a maioria dos meus amigos e meu marido são rubro-negros”. Juntos, puderam festejar o gol memorável de Maurício.

Emilinha Borba, Beth Carvalho e a bandeirinha de Luana (Foto: Jornal dos Sports)

Pois a euforia do Botafogo pelo fim da fila, que persistiu ao longo de 21 anos, não se encerrou no Maracanã. Durante a festa de premiação aos melhores do campeonato, lá estava Beth Carvalho para entregar um dos troféus. Vestia não apenas uma roupa alvinegra, como também exibia a faixa de campeã. Na semana da conquista, a cantora também participou de um evento especial na Marquês de Sapucaí. O sambódromo abrigou um show com vários artistas alvinegros. Além da sambista, também subiram ao palco Sidney Magal, Agnaldo Timóteo, Emílio Santiago, Emilinha Borba, Marina, Wanderley Cardoso e ainda outros botafoguenses célebres. Já a apresentação ficava a encargo de outros torcedores, incluindo Léo Batista, Fernando Vanucci, João Saldanha, Márcio Guedes, Armando Nogueira, Stepan Nercessian, Glória Menezes e Sérgio Chapelin.

Só que a melhor lembrança providenciada por Beth Carvalho à torcida do Botafogo, como não poderia deixar de ser, veio em forma de canção. Ainda no Maracanã, a cantora foi procurada por Elias da Silva e Pedro Russo, outros botafoguenses doentes que estavam nas arquibancadas. Os compositores escreveram uma música na emoção pelo título e apresentaram à Madrinha. Ela abraçou a ideia e, semanas depois, já gravava ‘Esse é o Botafogo que eu gosto’. Durante os registros nos estúdios da Polygram, a intérprete vestia a camisa alvinegra. Apenas músicos botafoguenses participaram da gravação. Além disso, houve um coro composto por jogadores e também por outros personagens ligados ao folclore do clube – como a gandula Sonja, uma menina que ficou famosa por chorar nas derrotas do time.

O Jornal dos Sports noticiou a homenagem: “Botafoguense por convicção. É assim que Beth Carvalho se define. Justamente por esta razão, a cantora resolveu incluir no seu próximo disco, que ainda está sendo gravado, um samba homenageando o título do Botafogo. Beth ouviu pela primeira vez o samba de Elias da Silva e Pedro Russo ainda no Maracanã, logo depois o título do Botafogo: ‘Eles me encontraram e começaram a cantar. Fomos juntos até o Mourisco. Gostei do samba e pedi pra me mandarem a fita’.” A canção ocupou a última faixa do disco ‘Saudades da Guanabara’, lançado em outubro de 1989. Eis sua letra:

Esse é o Botafogo que eu gosto
Esse é o Botafogo que eu conheço
Tanto tempo esperando esse momento, meu Deus
Deixa eu festejar que eu mereço
Mas é esse
Esse é o Botafogo que eu gosto
Esse é o Botafogo que eu conheço
Tanto tempo esperando esse momento, meu Deus
Deixa eu festejar que eu mereço
É tão bonito ver
Minha gente sorrindo de emoção
O meu Brasil
De ponta a ponta chorando, vibrando
Saudando o Botafogo Campeão
O meu Brasil
De ponta a ponta chorando, vibrando
Saudando o Glorioso Campeão

Recorte do Jornal dos Sports

Beth Carvalho não precisaria esperar tanto tempo para ver o Botafogo campeão novamente. Outra conquista marcante em sua vida aconteceu em 1995, com o Brasileirão estrelado por Túlio Maravilha. “O jogo mais marcante que vi foi o do gol do Túlio, no primeiro Brasileiro conquistado pelo Botafogo, em 1995. Na verdade, é o segundo título, porque agora reconheceram aquele de 1968. Mas na época, para todos os efeitos, era como se fosse o primeiro. E ainda teve a história do gol de impedimento, que reclamam até hoje. O Túlio foi uma maravilha, arrasou. E virou meu ídolo. Depois desse Brasileiro, teve um aniversário meu que ele apareceu de surpresa lá em casa… Aquele time era muito bom. Tinha ainda o Gottardo, o Gonçalves, o Donizete”, relembrou ao Globo Esporte.

No ano seguinte, Beth Carvalho entrou um pouco mais no imaginário da torcida do Botafogo. A Madrinha foi convidada pela Revista Placar, em 1996, para gravar o hino do clube. Juntou-se a Ed Motta, Claudio Zoli e Eduardo Dusek para entoar a letra composta por Lamartine Babo. É a 12ª faixa do álbum ‘Os Hinos dos Grandes Clubes Brasileiros Cantados por Feras do Rock e da MPB’. Curiosamente, quando a Placar resolveu relançar a ideia em 2004, o botafoguense escolhido foi Zeca Pagodinho, ‘afilhado’ e grande amigo da cantora.

E se há coisas que só acontecem com o Botafogo, Beth Carvalho não deixaria de experimentar o sofrimento por outros momentos difíceis do clube. Também sentiu na pele o primeiro rebaixamento dos alvinegros, em 2002. “Acordei muito triste. O futebol carioca precisa rever logo os seus conceitos de administração”, destacou ao Jornal dos Sports, no dia seguinte ao descenso. Próxima de algumas figuras políticas do clube, demonstrou seu apoio ao trabalho que Bebeto de Freitas realizou à frente dos botafoguenses na década passada.

O coração alvinegro de Beth Carvalho também tinha espaço a outros times. Composta por Jorge Aragão, ‘Vou Festejar’ é uma das canções mais celebradas na voz da carioca. Ela possuía um significado especial à cantora. Durante o processo da redemocratização brasileira na década de 1980, a música simbolizou um período de mudanças, com o fim da ditadura militar. Beth, além de participar ativamente do movimento pelas Diretas, viu seu pai ser perseguido pelo regime. E o samba só reforçava seus contornos como uma ode popular. Desde o final da década de 1970, já havia sido adotado pela torcida do Atlético Mineiro. Era a letra perfeita para bradar a hegemonia no estadual, com o esquadrão de Reinaldo e Toninho Cerezo, em contraste à derrocada do rival Cruzeiro.

A importância de ‘Vou Festejar’ ao Galo é tão grande que se tornou praticamente um segundo hino ao clube. Também se espalhou entre outras torcidas brasileiras, inclusive a do Botafogo. Em 2006, quando os atleticanos retornaram à Série A do Brasileirão, Beth Carvalho foi convidada a comandar a festa. “Acabei virando um pouco atleticana depois de ver o Mineirão inteiro cantando. Me emocionei demais. É alvinegro também, né?”, contou ao UOL, em 2015.

Nesta década, Beth Carvalho ainda gravou mais uma música ao Botafogo: ‘Amor Em Preto e Branco’, ao lado de Zeca Pagodinho e outros torcedores ilustres. Sempre que podia, mencionava sua adoração pelo clube. E continuou assim até os últimos anos de vida, mesmo que as limitações causadas por um problema na coluna impedissem a Madrinha de frequentar as arquibancadas com a assiduidade de antes. Em 2011, compareceu ao Estádio Nilton Santos em uma cadeira de rodas, para ser homenageada com o prêmio de ‘Mulher Alvinegra’. Não media esforços por sua paixão.

O Botafogo renderia outros tributos a Beth Carvalho, alguns depois da triste notícia desta terça. Grande ato dos alvinegros, o velório acontecerá no salão nobre de General Severiano. Beth receberá o último adeus dentro do clube que representou tanto à sua história de vida. Um reconhecimento mais do que justo, à torcedora que fez a Estrela Solitária cintilar mais.