O Paris Saint-Germain não é mais o único clube da capital francesa a ter ligações com um estado do Golfo Pérsico. A partir desta segunda-feira, o Bahrein começará a investir no Paris FC – antiga dissidência do PSG, que atualmente figura na segunda divisão do Campeonato Francês. Neste primeiro momento, a participação será relativamente limitada e terá como objetivo colocar os parisienses na primeira divisão dentro de três anos. Se o projeto der certo, porém, não é de se duvidar um aumento no dinheiro bahrenita (não tanto quanto o catariano) e até mesmo um “clássico” entre duas equipes turbinadas pelo xeiques – que estão em lados opostos na disputa geopolítica do Oriente Médio.

O fundo de investimentos do Reino do Bahrein adquiriu inicialmente 20% das ações do Paris FC e ampliou o capital do clube. O acionista majoritário, todavia, continua sendo o empresário Pierre Ferracci. Os bahrenitas também se tornam os patrocinadores principais, na intenção de divulgar a imagem do país e estimular o turismo. A marca “Explore Bahrain” passará a estampar a camisa dos parisienses a partir da próxima temporada. A família real já havia adquirido o Córdoba, tradicional clube andaluz que atualmente milita na terceira divisão do Campeonato Espanhol.

“O Paris FC recebe com entusiasmo este novo investidor e dá boas-vindas à confiança demonstrada para desenvolver este projeto, enquanto mantém sua identidade e visão estratégica. O clube deu um novo passo e continua a crescer graças ao fortalecimento de seus recursos. É uma grande oportunidade para trazer o clube a uma nova era e alcançar seus objetivos esportivos, educacionais e sociais”, descrevem os parisienses.

Segundo a nota oficial, a intenção do Paris FC com a parceria é fortalecer o trabalho de revelar talentos na capital, tanto no masculino quanto no feminino. De qualquer maneira, acontecerá uma ampliação nas receitas na casa de 30% – um valor significativo, ainda mais quando a maioria dos concorrentes atravessa uma retração em suas finanças. O acesso à Ligue 1 será necessário para expandir a imagem do time e atrair mais talentos. Como trunfo, o centro de treinamentos inaugurado em 2018 será ampliado para melhorar este trabalho de prospecção.

O Bahrein também aproveitará as estruturas do Paris FC para aprimorar jogadores e técnicos que saírem do país. Vale lembrar que a nação insular possui uma seleção relativamente competitiva dentro da Ásia. Os bahrenitas disputaram duas vezes a repescagem à Copa do Mundo, em 2006 e 2010, além de terem marcado presença nas últimas cinco edições da Copa da Ásia. Em 2019, alcançaram as oitavas de final no torneio continental.

Fundado em 1969, o Paris FC foi um dos clubes que deu origem ao Paris Saint-Germain. Entretanto, uma dissidência retomou o time paralelamente em 1972. A equipe disputou a Ligue 1 em três ocasiões, mas não aparece por lá desde 1979. Ao longo das últimas décadas, militou principalmente entre a segundona e a terceirona, chegando a disputar os playoffs de acesso à elite em 2018/19. Já nesta última temporada, os parisienses ficaram a apenas dois pontos de serem rebaixados à terceira divisão. A equipe manda seus jogos no Estádio Charléty, com capacidade para 20 mil espectadores.

O Bahrein possui uma economia cerca de cinco vezes menor que a do Catar, o que faz imaginar gastos inferiores no Paris FC em relação ao PSG. Também foi um dos primeiros países do Golfo Pérsico a buscar a diversificação de suas atividades econômicas além do petróleo. O futebol, neste sentido, será uma ferramenta de Soft Power e de investimento na imagem internacional do estado. Porém, é mais uma nação com um histórico preocupante de desrespeito aos direitos humanos – com banimento da mídia independente, dissolução da oposição, censura aos críticos e denúncias de tortura.

Vale ressaltar ainda que, na geopolítica regional, os bahrenitas são aliados da Arábia Saudita. Assim, o país rompeu relações com os catarianos em 2017. O acesso do Paris FC à primeira divisão ainda pode representar uma disputa diplomática em plena Ligue 1.