Há nomes importantes à história do futebol que o passar dos anos acaba ocultando do grande público. E se muitos craques se tornam desconhecidos neste processo natural, o tempo é ainda mais cruel com outros personagens ao redor do esporte. O nome de Archibald Leitch, no entanto, sobrevive. O escocês faleceu há exatos 80 anos, mas nunca calçou chuteiras ou desenhou esquemas táticos em uma prancheta. Era arquiteto, cuja principal tarefa foi projetar os palcos de sonhos. Ao longo de seus 73 anos de vida, Leitch se tornou o mais referendado construtor de estádios do Reino Unido. Criou arquibancadas para dezenas de clubes, em locais que continuam recebendo jogos, principalmente no Campeonato Inglês e no Escocês. Invariavelmente, milhões de torcedores passaram pelas obras de Leitch todos os anos, enquanto bilhões de espectadores as admiraram pela televisão.

Leitch começou a arquitetar os seus estádios em 1899. Foram 40 anos trabalhando no mesmo ramo, até o final de sua vida. E o escocês não apenas participava da construção. Na época, era comum que os clubes expandissem suas arquibancadas. Leitch também assumia projetos em que precisava remodelar as praças esportivas, atuando continuamente nesta arte. O auge de sua importância aconteceu em 1927. Dos 22 palcos da primeira divisão, 16 haviam passado por seu escritório, para construção ou reforma. Além disso, das oito sedes da Copa de 1966, seis tinham o seu dedo.

A lista de estádios que Leitch criou do zero ou repensou é extensa. Old Trafford? Passou por suas mãos. Anfield? Também. O mesmo para Goodison Park, Hillsborough, Ewood Park, Molineux, Villa Park e Bramall Lane, entre outros no centro-norte da Inglaterra. Em sua terra natal, quase todas as praças importantes contaram com sua especialidade, incluindo Ibrox e Hampden Park, da mesma maneira como trabalhou por canteiros de obras em Gales e na Irlanda. E o futebol pulsante de Londres sempre o mantinha na capital. Assinou a arquitetura das arquibancadas em Highbury, White Hart Lane, Craven Cottage, Stamford Bridge e muitos outros. Além do futebol, ele idealizou arenas usadas para corridas de cachorros e outras competições de velocidade populares entre os britânicos. Templo do rúgbi, Twickenham também esteve em sua mesa.

Assim como os grandes craques daqueles primórdios, Leitch começou sua carreira no ramo industrial. Projetava fábricas, até ser convidado para trabalhar no novo estádio do Kilmarnock. Logo depois, poderia realizar um sonho. Torcedor do Rangers, foi convidado para ser o arquiteto de Ibrox. O escocês foi responsável por construir um estádio gigantesco para a época, com capacidade para 80 mil torcedores – considerado o maior do mundo.

O primeiro grande teste a Ibrox aconteceu em 1902, durante um amistoso entre Escócia e Inglaterra. Contudo, o setor de madeira atrás de um dos gols cedeu e 25 pessoas faleceram, enquanto outras 517 se feriram. Em outro local das tribunas, Leitch ficou em choque ao ver o desastre. As investigações da época avaliaram que um pinheiro de qualidade inferior acabou usado na construção. A culpa recairia sobre o comerciante responsável por vender a madeira, acusado de enganar o Rangers no negócio, embora existissem indícios de que o arquiteto soubesse do entrave. Ambos terminaram inocentados pela justiça.

Mesmo sem ser condenado, a mancha na carreira de Leitch era evidente e seria compreensível se ele seguisse a outro ramo. Mesmo assim, o arquiteto confiou que poderia mudar não apenas sua trajetória profissional, como também a realidade nas arquibancadas britânicas. Implorou para não ser demitido pelo Rangers, declarando que o desemprego seria uma prova de culpa. “Eu não preciso dizer o que a angústia inexprimível do acidente me causou, certamente a testemunha ocular mais infeliz de todas”, escreveu em uma carta. O clube aceitou as súplicas e Leitch seria justamente o responsável por reformar o setor onde aconteceu a tragédia.

O bom trabalho do arquiteto, desenvolvendo novos tipos de estruturas mais firmes, abriu portas. Ele seria considerado o “pai das arquibancadas modernas”, com uma ideia repetida ao longo de décadas. Idealizou os degraus fixos, os corredores designados e patenteou barreiras de aço. Eram locais bem mais sólidos, mais seguros e mais adequados para os torcedores. Em 1905, ele seria convidado a reformar Craven Cottage e a construir Stamford Bridge. Seus projetos melhoravam os requisitos de segurança da época e não eram caros, o que atraiu novos clientes.

A Trinity Road Stand, no Villa Park, é considerada a obra-prima de Archibald Leitch. O antigo setor do estádio do Aston Villa fascinava não apenas por sua arquitetura interna, mas principalmente pela externa. Tinha um estilo clássico e ao mesmo tempo único, que caracterizava o futebol em Birmingham. Apresentava a maneira como o projetista também primou pelo design, após desenhos mais rústicos (e fabris) em seus primórdios. O local se manteve em pé até 2000, quando terminou demolido. Já em números, nenhum outro estádio supera o Hampden Park, que ele expandiu. A casa da seleção escocesa possui alguns recordes de público na Europa, incluindo os quase 150 mil que viram a partida contra a Inglaterra em 1937.

Por não ser exatamente do meio do futebol, Leitch ainda enfrentou certa resistência. Mesmo assim, sua experiência adquirida na arquitetura de estádios o manteve como um nome constante aos clubes. O melhor exemplo é White Hart Lane. O escocês participou de quatro projetos diferentes de novas arquibancadas ao Tottenham, de 1909 a 1934. Além disso, muitas outras eram as obras na Inglaterra, na Escócia, em Gales e na Irlanda. O curioso é que, apesar da importância no ramo, a reputação do arquiteto junto ao público era mínima. “Não encontrei um obituário sobre Archie nos jornais de 1939, então eu decidi escrever sua biografia para elevar seu reconhecimento. Todavia, eu dificilmente imaginaria que ela poderia se transformar nesta interessante história”, declarou o escritor Simon Inglis, principal responsável por preservar a memória sobre o arquiteto, em entrevista ao site Sportskeeda.

Atualmente, poucas das arquibancadas originais pensadas por Leitch resistem. Hillsborough e o Relatório Taylor foram decisivos às mudanças implementadas, culminando em outro tipo de arquitetura nos estádios da ilha – e determinando a obsolescência das ideias do arquiteto, 50 anos depois de sua morte. Mesmo assim, o concreto preparado pelo escocês permanece nas casas de Liverpool, Everton, Sheffield Wednesday, Dundee, Aberdeen, Crystal Palace e Portsmouth. A maior lembrança está em Craven Cottage. O famoso setor principal do estádio, característico pelo telhado com o nome do clube, é o mais antigo entre os utilizados na Football League. Apesar das adequações, nunca foi demolido. Está lá desde 1905, quando saiu da mente de Archibald Leitch rumo ao folclore do futebol.

* Para conhecer um pouco mais das obras de Archibald Leitch, vale conferir esta reportagem da BBC, que inspirou esta matéria e serviu de principal fonte. Há várias fotos antigas dos estádios por ele arquitetados.