América do Sul

Zamorano, 50 anos: um atacante letal e um craque identificado com o seu povo

Quando terminou o Campeonato Espanhol de 1994/95, o Real Madrid sagrou-se campeão da liga nacional pela primeira vez em cinco temporadas, período dominado pelo Dream Team de Cruyff, jejum longo demais para um clube desse tamanho. Um troféu que provavelmente não seria conquistado sem os 28 gols de Iván Zamorano, que completa 50 anos nesta quarta-feira. Bam Bam foi artilheiro daquele torneio e responsável por abrir as portas da Europa para o Chile, em uma época em que não era comum ver jogadores chilenos atuando no mais alto nível do continente – cenário totalmente diferente dos dias atuais.

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É verdade que mais para o fim da década de noventa, seu grande parceiro de ataque na seleção chilena, Marcelo Salas, começaria a brilhar pela Lazio, mas Zamorano foi o pioneiro. Durante a Copa do Mundo de 1998, por exemplo, era o único do elenco a defender um clube europeu e a maioria dos seus companheiros ainda atuava em casa. Chegou à Europa em 1988, para defender o St. Gallen, da Suíça, e passou pelo Sevilla antes de assinar com o Real Madrid e, posteriormente, fazer outra dupla de ataque famosa, com Ronaldo, na Internazionale.

Tornou-se uma espécie de embaixador do futebol chileno nos grandes palcos e inspirava uma identificação fácil do seu povo, até mesmo pela aparência física, com claros traços indígenas. E pelas suas origens: nasceu em Maipú, na grande Santiago, mas começou carreira no Trasandino e no Cobresal, ambas equipes do norte do país, região rica em cobre que prosperou nos anos oitenta e cujos clubes receberam altos investimentos das empresas locais. Foi em 1986 que o Cobresal disputou sua primeira Libertadores – e única até o ano passado.

“Tive a sorte de estar presente na primeira volta olímpica da instituição que, por sua vez, foi meu primeiro título como jogador profissional, em 1987”, afirmou, em um texto para o site Todo Futbol, o ex-atacante que foi campeão da Copa do Chile com o clube naquele ano. A declaração foi dada na época do segundo título da história do Cobresal, o Campeonato Chileno de 2015. “Estou feliz, muito contente, porque foi o Cobresal quem me deu a oportunidade de jogar futebol profissional. É um clube pelo qual tenho carinho enorme. Acredito que a cidade de El Salvador merece esse triunfo e toda a alegria”, disse, em outra entrevista, ao Cooperativa.

Por todos esses motivos, Zamorano recebeu, das mãos do ministro das Relações Exteriores, o prêmio de esporte mais identificado com o povo chileno, seguido pelo ginasta Tomás González e Alexis Sánchez. “Para mim, é um orgulho ser chileno e representar meu país no estrangeiro. Sempre me senti um embaixador do Chile no mundo e soube que estava marcando algo muito importante na percepção que se tem lá fora sobre os chilenos. Este prêmio é uma alegria imensa, já que o maior reconhecimento que se pode ter como pessoa é dos seus compatriotas”, afirmou.

Depois de se aposentar, Zamorano usou toda essa identificação para se tornar embaixador da Unicef para a Infância e trabalhar com as crianças do Chile. Depois do forte terremoto de 2010, abriu, em parceria com Forlán, 80 brinquedotecas infantis nas cidades das regiões mais afetadas pelo fenômeno natural. “Elas (as crianças) precisam de brinquedos e levar alegria para elas nos satisfaz enormemente”, disse. Em 2012, deu declarações fortes de apoio ao povo mapuche que vive na região de Araucanía e que, dentro de um antigo conflito interno no Chile, foi vítima de uma série de atentados naquela época. Casas foram incendiadas por pessoas encapuzadas. “Eu vi as imagens muito fortes e impactantes de homens e mulheres afetados e ninguém pode ficar indiferente diante de crianças feridas. Não podemos deixar isso passar, nem permitir que isso aconteça, em um país que trabalha todos os dias para ser melhor”, afirmou, segundo o La Nación chileno. “A preocupação central tem que ser as pessoas, os seres humanos, o respeito e a dignidade de seus direitos, especialmente meninos e meninas”.

Não à toa, foi um excelente capitão para a seleção chilena. Usou a braçadeira em 42 das 69 partidas disputadas pelo time nacional e anotou 34 gols, o que o coloca em terceiro lugar na lista de artilheiros históricos da equipe, atrás de Salas e Sánchez. Ajudou a levar o Chile à Copa do Mundo de 1998, o primeiro Mundial do país desde 1982. E sem dúvida, durante os 50 anos que já viveu, foi fonte de orgulho para os seus compatriotas.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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