América do Sul

Valdívia se despede do futebol longe de ser unanimidade, mas como uma figura marcante da seleção chilena

Valdívia foi titular absoluto na Copa América de 2015 e teve uma atuação de gala no jogo que levou o Chile à Copa de 2010, fora outros lampejos pontuais

O nome de Jorge Valdívia costuma acalorar os debates no Brasil. Amado e odiado, o Mago não é unanimidade nem mesmo entre os torcedores do Palmeiras, onde há um grande debate se deve constar entre os ídolos ou não. De qualquer maneira, o chileno foi um personagem importante no futebol brasileiro. Deu brilho aos alviverdes em tempos inglórios, se fez querido pelo talento e também pelos grandes jogos, mas as polêmicas em tantos momentos e os problemas físicos o colocam em xeque. A mera notícia da aposentadoria de Valdívia, nesta sexta, já suscitou discussões. Quem não questiona tanto o tamanho do camisa 10 é o Chile, que sabe o papel central que o meia teve para a seleção, mesmo com suas indisciplinas.

Valdívia defendeu a seleção chilena por 13 anos, de 2004 a 2017. Disputou 71 partidas, um número respeitável. A idolatria que tinha no Colo-Colo auxiliou para que ele se tornasse também uma figura bastante pedida nas convocações. E conseguiu justificar sua fama em tantos momentos, aparecendo em partidas importantes. Foram sete gols e 19 assistências pela Roja. Disputou duas Copas do Mundo e esteve entre os destaques da equipe na conquista da Copa América de 2015.

Quando o período áureo da seleção chilena for relembrado, Valdívia não será o primeiro nome mencionado. Alexis Sánchez e Arturo Vidal são as grandes estrelas da companhia. Claudio Bravo e Gary Medel se sustentam entre as maiores lideranças. Eduardo Vargas e Charles Aránguiz desequilibraram muitas vezes. Mas, em característica e talento, El Mago possui seu lugar privilegiado. Os problemas de lesão e o descompromisso não deixaram de atrapalhar sua trajetória na Roja. Mas também era uma peça única para fazer sua função na armação. A habilidade e a visão de jogo saltavam aos olhos. Não à toa, manteve o moral com diferentes treinadores – inclusive com Marcelo Bielsa e Jorge Sampaoli.

Valdívia chegou a ser capitão do Chile na Copa América de 2007, sua primeira competição internacional, mas não evitou a eliminação vexatória contra o Brasil. Pior, seria punido por indisciplina, ao sair com outros jogadores na véspera do duelo. Enfrentou um banimento de 20 partidas, mas voltou para ser herói. Seu primeiro grande momento pela Roja veio nas Eliminatórias para a Copa de 2010. Jorgito foi uma figura pontual na campanha, mas acabou com o jogo que classificou os chilenos de volta ao Mundial após 12 anos. O time de Bielsa perdia para a Colômbia por 1 a 0 em Medellín, quando Valdívia saiu do banco para substituir Matías Fernández logo aos 31 do primeiro tempo. Cinco minutos depois, o placar já tinha virado. O Mago fez o cruzamento para o primeiro gol e iniciou a jogada do segundo com um passe sensacional. Na segunda etapa, os colombianos empataram. O Chile venceu por 4 a 2, com um gol do armador e mais uma assistência.

Na Copa de 2010, Valdívia ficaria marcado pelo passe fantástico que valeu a vitória sobre a Suíça, embora sem outros impactos na campanha. Também não evitaria a campanha apagada na Copa América de 2011, até se envolver em outro caso de indisciplina, ao chegar bêbado na concentração. Punido com dez partidas de suspensão pela federação, passou quase um ano e meio longe das convocações. O retorno aconteceu na reta final das Eliminatórias para a Copa de 2014, de novo participando da classificação. Seria reserva na maior parte do Mundial do Brasil, mas com direito a um lindo gol na vitória sobre a Austrália, na partida que abriu a célebre campanha da equipe de Jorge Sampaoli. Na dramática eliminação diante da Seleção, todavia, não saiu do banco.

O maior feito de Valdívia com o Chile veio na Copa América de 2015. O camisa 10 foi um nome intocável nas escalações de Sampaoli. Disputou todas as partidas, sempre como titular, e teve boas exibições. Na fase de grupos, jogou o fino diante do México e serviu dois gols no passeio contra a Bolívia. Uma assistência do Mago seria decisiva na aguerrida vitória sobre o Uruguai nas quartas de final. Provocaria os peruanos no clássico vencido durante as semifinais. E ditaria o ritmo do time na decisão contra a Argentina, em ótima atuação. Saiu bravo no meio do segundo tempo, mas depois pôde comemorar a eficiência dos companheiros nos pênaltis, que valeu a taça. Seu nome estava gravado na história, definitivamente.

Escanteado por Juan Antonio Pizzi após a troca de comando, Valdívia sequer apareceu na pré-convocação para a Copa América Centenário. Mas não que sua história estivesse totalmente encerrada. Voltou a ser chamado pelo treinador em 2017, durante a reta final das Eliminatórias. Não evitou a queda da Roja, embora tenha auxiliado numa vitória decisiva sobre o Equador naquele momento. Seria sua penúltima aparição pela equipe nacional, num momento em que já estava de volta ao Colo-Colo.

O temperamento de Valdívia não deixou de causar problemas em sua trajetória na seleção, com recorrentes punições e rusgas com treinadores. Todavia, diferentemente dos torcedores dos clubes, os chilenos não precisavam conviver com uma novela diária ao redor do camisa 10. Seus vacilos foram perdoados e, até pelas qualidades únicas que oferecia à Roja, seu espaço quase sempre estava garantido. Os passes magistrais, os dribles em câmera lenta e as mágicas auxiliavam para que seus deslizes fossem esquecidos. Aproveitaria também muitas chances, em especial as maiores, a ponto de se sobressair em tantos momentos importantes. No Chile, apesar dos pesares, o reconhecimento como ídolo da equipe nacional é mais comum entre os torcedores. E assim se aposenta, como parte integrante do melhor vivido pela seleção.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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