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Sofrimento do São Paulo contra fraco Cesar Vallejo deveria deixar lições na Libertadores

As três taças que o São Paulo tem na sua história e o alto investimento do time atual, em 2016, não foram suficientes para assustar o time do Universidad Cesar Vallejo, um time modesto que tentava, pela primeira vez, chegar à fase de grupos da Copa Libertadores. A diferença abissal, tanto de dinheiro fora de campo quanto de técnica em campo não foram suficientes para que o time brasileiro se classificasse sem sofrimento. O gol sofrido no final do segundo jogo, com o São Paulo jogando em casa, depois de um empate no Peru, deveria levar o clube a uma reflexão. Aliás, não só o São Paulo.

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O futebol é um esporte que permite que times mais fracos derrotem os mais fortes com alguma frequência. Em um mata-mata, é sempre possível que uma surpresa aconteça. O que a Libertadores tem mostrado aos times brasileiros de forma bastante contundente nos últimos anos é que a regra, que é os times mais ricos e mais fortes vençam a maior parte dos confrontos. As eliminações de times brasileiros para rivais que frequentemente são mais fracos tanto tecnicamente quanto financeiramente deveria acender uma luz amarela. Afinal, o que acontece?

Um dos aspectos que os confrontos da Libertadores mostram é que times bem organizados taticamente, mesmo sendo mais fracos, podem complicar bastante times mais fortes. Também porque aqui não temos um grupo de elite como Barcelona, Real Madrid e Bayern de Munique são, atualmente, na Europa. Seus rendimentos são tão maiores que eles podem tirar jogadores de praticamente qualquer outro clube, mesmo de times como Arsenal, Juventus ou Borussia Dortmund. Na América do Sul, a diferença não chega a esse nível, mas ainda é bastante grande. E os brasileiros costumam sofrer um bocado.

O último brasileiro campeão, por exemplo, teve uma trajetória sofrida até a taça. O Atlético Mineiro era um dos melhores times da competição naquele 2013, mas isso não significou se impor sobre adversários mais fracos. A final, contra o Olimpia, era um embate entre dois times muito distantes um do outro tecnicamente, ainda que o clube paraguaio tenha uma enorme tradição na Libertadores. Valia o mesmo para o Tijuana, nas quartas de final. O único time que o Atlético Mineiro se impôs com autoridade no mata-mata foi o São Paulo, outro clube brasileiro. Isso já deveria deixar um alerta.

O São Paulo era muito melhor que o Cesar Vallejo e poderia ter vencido os dois jogos. Não venceu. Empatou no Peru jogando muito pouco perto do que pode. E no Pacaembu, no jogo de volta, se viu diante de um adversário que, mais do que determinação, raça e tudo mais que se gosta de destacar em jogos sul-americanos, tinha organização defensiva. Dificultou o jogo do São Paulo. O time finalizou muitas vezes, é verdade, com 18 chutes a gol contra quatro, segundo estatísticas da Conmebol. As chances claras de gol foram quase todas no segundo tempo, em bolas nas traves em lances de Calleri e Hudson. Mas continuou sofrendo até o final.

Rogério mostrou estrela: entrou e marcou o gol da vitória do São Paulo contra o Cesar Vallejo (AP Photo/Andre Penner)
Rogério mostrou estrela: entrou e marcou o gol da vitória do São Paulo contra o Cesar Vallejo (AP Photo/Andre Penner)

O gol só veio aos 42 minutos do segundo tempo, com Rogério, que entrou no lugar de Ganso alguns minutos antes. Aliás, as substituições de Patón Bauza não foram efetivas e nem pareceram as mais inteligentes para vencer aquela postura do time peruano, que estava na dele, aliás. Sabiam que precisavam de um lance de sorte que fosse para complicar tudo. Bauza demorou a tirar Centurión e, quando o fez, colocou em campo Wesley. A torcida pedia por Rogério. Wesley, embora possa atuar por ali, é mais meio-campista do que ponta. Depois, tirou Mena, lateral esquerdo, e colocou Carlinhos, um jogador da mesma posição, porém mais ofensivo. Também pouco efetivo. A última alteração foi a entrada correta de Rogério, mas no lugar de Ganso, que fazia uma partida até boa. Outros mereciam mais sair, como Michel Bastos ou, ainda, um jogador de marcação, como Hudson, se era para arriscar. Rogério fez o gol, mas isso não pode esconder que o São Paulo precisava render mais.

Vale destacar que a torcida do São Paulo, mesmo com a atuação sem grande brilho do São Paulo, apoiou. Nos minutos finais do jogo, antes do gol, quando o time corria um risco enorme, a torcida passou a gritar ainda mais alto, mais forte, empurrando o time para cima. O pênalti perdido por Michel Bastos, em um lance que não pareceu falta em Ganso, foi um ponto crítico do jogo. A raça de Calleri, e sua presença de área, foi importante, mesmo sem ter marcado o gol. Ele foi perigoso sempre que acionado dentro da área. A atuação só razoável não fez a torcida pegar no pé do time durante o jogo. Ao contrário, o apoio foi constante e consistente. Talvez tenha sido o melhor do São Paulo no jogo.

Ainda é início de temporada, é verdade, e é esperado que os times ainda não estejam no seu melhor momento. É normal. O São Paulo sabia do risco ao se classificar em quarto lugar e ter essa disputa tão decisiva logo no início de ano. Claro que todo mundo preferia ficar em terceiro lugar, mas o time de 2015 já parece ter chegado em uma posição melhor do que o futebol em campo sugeria. Ainda assim, é preciso que quando o adversário é tão mais fraco, o time mais forte se imponha. A classificação à fase de grupos veio para o São Paulo, mais com alívio do que com qualquer outra coisa. Que fique a lição: será preciso render mais, individual e principalmente de maneira coletiva, se não quiser mais sufocos assim. A Libertadores já mostrou: times mais fracos muitas vezes sabem se postar taticamente e complicam muito times brasileiros. E se os times não souberem ser coletivamente melhores, e não só individualmente, o problema se repetirá, seja com o São Paulo, seja com qualquer outro brasileiro.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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